terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Gente Boazinha e Invejosa

Para o ano que vem, quero muitas coisas. Tal como toda a gente, quero que o ano seja melhor do que este, que a saúde, o amor, o dinheiro e a felicidade não faltem. Mas também quero ver-me livre de umas tantas coisas. Entre estas coisas, estão as gentes boazinhas e invejosas. 
Não sei se será impressão minha, ou se, realmente, há mais gente boazinha e invejosa por aí. Não falo da gente boazinha e invejosa em simultâneo, mas da gente boazinha e da gente invejosa. Em separado. Gentes diferentes, mas igualmente irritantes.

A boazinha é aquela que faz e diz tudo o que é politicamente correcto. Tem sempre a palavra certa, no momento certo. Cheia de amor espalha-o em tudo em que toca. Ama todos os animais, todos os pobrezinhos e todos os doentes. Indiscriminadamente. Sejam eles uma destas três coisas, a gente boazinha ama como se de um filho se tratasse. Exerce o bem, dia sim, dia sim. Tem uma paciência infinita até para os mais chatos. Enfim, é gente boazinha que nunca mais acaba.

A invejosa é aquela que não suporta a mais pequena alegria nos outros. Qualquer coisa porreira que os outros façam tem defeito e incomoda-a. É especialista em boicotar toda a cena, cuja autoria não lhe pertença. Quaisquer cenas, desde que sejam fixes, e dos outros. Vê má intenção em tudo. Perversidade é o seu lema. A gente invejosa não tolera nem o sorriso alheio. Vive azeda e tenta azedar tudo o que a rodeia.

Estou cansada destas gentes. Juro, teria um 2014 melhor, longe deste tipo de gentes.
Ah e com saúde, muita saúde, saúde aos potes, para dar e vender, que daria com prazer a quem dela precisasse. Só a quem dela precisasse, é que eu não sou nem boazinha, nem invejosa, ora!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A Importância de Não Ter

Estamos em crise, é verdade. Há imensa gente com falta de imensas coisas. Neste momento, sentimos que é importante que toda a gente tenha acesso a:
- Saúde
- Educação
- Habitação
- Alimentação
- Água
- Luz
- Gás
Incrível, não?
Enfim, O top de vendas deste Natal é o que se vê!

Se nos abstraíssemos de tudo o que tem acontecido neste país nos últimos anos e olhássemos só para esta época festiva, poderíamos concluir que este país está bem e recomenda-se.
Vemos crianças cheias de presentes caros e adultos cheios de novas tecnologias de última geração. Coisa de ricos, claro! As gentes deste país estão "cheias da massa"!

Estão? Ou passaram fome todo ano para, no Natal, se vingarem e comprarem todas as merdas que lhes deu na gana?  
Pois, não sei. E sinceramente, não quero saber. Cada um sabe o que vale a fome que passa. Se para uns vale uma Playstation, para outros pode valer simplesmente evitar passar fome. Cada um tem o direito de decidir quais as prioridades da sua vida. 
Apesar de não concordar que se comam Playstations ou Bimbies, sei que toda a gente pode comer o que quiser. (Eu cá prefiro um bom peixinho com legumes e batatas do que uma merda preta de plástico ou uma panela cheia de nada, mas isto sou eu que sou esquisitinha!)

Mudando de assunto, ou não mudando assim tanto, neste Natal notei que o meu filho, em vez de fazer a lista de presentes do costume, disse que não queria nada. Este "nada" preocupou-me. Veio-me várias vezes à cabeça "mas nada porquê? Estará preocupado com não termos dinheiro para lhe compararmos uma prenda? Sentirá que já tem tudo o que queria e agora não quer nada?" e fiquei a matutar na segunda opção... Fiquei, francamente, mais preocupada se "o nada" fosse causado pela segunda opção do que pela primeira...
Preocupar as crianças com a crise é mau, claro que é, mas elas deixarem de desejar algo especial, parece-me muito pior. Todos os desejos realizados destroem a possibilidade da construção de novos desejos, de novos objectivos. E isso é assustador numa criança de nove anos. Por isso, o alarme "mãezite" suou e resisti à tentação de lhe dar algo caro ou que poderia vir a desejar muito. 
Demos-lhe um livro e vi a desilusão assombrar-lhe o rosto. Livros, é coisa que vai recebendo durante todo o ano, não é nenhuma novidade, nem nada de especial.
Devo confessar que me custou ver aquela cara de desilusão, mas parece-me que ela lhe fará melhor do que antecipar-me a um desejo que poderá vir a sentir. 
Deste Natal até ao aniversário ou até ao próximo Natal, poderá construir novos desejos, poderá aspirar novos presentes, terá tempo para desejar e sonhar com algo especial. 
Não lhe ter dado nada de mais do que lhe vou dando durante o ano, pode ajudá-lo a fazer sobreviver o sonho e as aspirações e a ter consciência do "não ter" que é tão, ou mais, importante do que "o ter".
Espero eu.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Hoje, Que Chove e Faz Vento

Hoje, que chove e faz vento, lembrei-me de ti.
Fiquei a pensar se estarias encharcada, com a crina a baloiçar ao vento, parada na intempérie. E senti vontade de te tirar o excesso de água do pêlo e de te esfregar com palha para te secar. Abraçar-te e sentir o calor dos recantos do teu corpo ainda secos. Esconder as mãos no teu peito e acariciar o pêlo macio que lá morava.
Lembrei-me de como cheiravas bem quando molhada. E senti saudades da preocupação de te saber bem. Estranha, esta coisa de sentir saudades da preocupação...

Hoje, que chove e faz vento, lembrei-me que estou aqui depois de ti.
Depois de ti é coisa que não queria. Depois de ti não há.

Hoje, que chove e faz vento, lembrei-me que estou aqui contigo. Sempre.


Parece Que Se Diz Por Aí Qualquer Coisa Como...

Imagem roubada, também, por aí

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Aquilo Que Não Sai

Apetecia-me dizer coisas. Escrever coisas. Escrever, escrever, escrever. Mas as coisas não me saem. Parece que se trancaram cá dentro e não saem. 
Vou enchendo e preciso de explodir. Como um balão que cresce com o ar. Estou um balão de coisas para dizer. Mas no silêncio. O silêncio é o meu ar, agora. E enche-me. Enche-me inteira.
Queria a minha vida em palavras. Palavras belas e feias. E belas e feias. Palavras sem fim. Escrever cada letra e formar palavras, e frases, e textos, e contos, e livros. Livros cheios de ar. Do ar das palavras que o vento não leva. Palavras que ficam. Belas e feias. E lê-las. E não gostar delas. E amá-las. E escrever outras.
Queria um mundo de letras. E mergulhar nas palavras dos livros. Viver em livros e histórias. E em pensamentos de papel. Recortar ideias e sonhos e colá-los no papel. Assim, nesta forma que se lê.
Mas essas coisas não me saem. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Lençóis de Flanela

Cá em casa, desde que aderimos aos lençóis pretos que não tínhamos lençóis de flanela na cama. 
No fim-de-semana passado, pensei "que se lixe a cama bonita, quero é uma cama quentinha!". Fui buscar os velhinhos lençóis de flanela à gaveta e, com eles, tornámos a cama um lugar bem mais agradável.
Hoje de manhã, o J., que não conhecia estes lençóis (vejam lá, há quantos anos ando a deitar-me numa cama gelada!), quando veio para a nossa cama, ficou fascinado e não se queria levantar nem por nada deste mundo. "Mãe, não quero sair daqui! Está-se tão bem..."

Há bocado, quando o fui deitar, disse-me:
- Eu queria era ir dormir para a vossa cama...
- Pois, mas não pode ser. Cada um dorme na sua cama!
- Então, quero uns lençóis como os vossos. Uns assim, tãããããão quentiiiinhos. Onde os arranjaste?
- Oh, já são velhinhos! - respondi, a pensar que o meu filho, de nove anos, ainda não conhecia lençóis de flanela. Que falha desgraçada! Coitada da criança, tantos anos sem conhecer o prazer de se deitar numa cama que não está gelada...
- Arranjem uns desses para a minha caminha, arranjam? Onde se compram?
- Numa loja que venda lençóis. Sim, vamos arranjar. Queres como prenda de Natal? - perguntei para ver se finalmente me dizia o que queria que lhe déssemos no Natal.
- Pode ser... - respondeu simplesmente.

Quando o J. era pequenino, o pediatra aconselhou-nos a não lhe pormos lençóis de flanela na cama por causa das infecções respiratórias que sofria semana sim, semana sim, durante todo o inverno. Por isso, nunca comprámos lençóis destes para a cama dele e também deixámos de os pôr na nossa. Mais tarde, vieram os lençóis pretos a condizer com as capas de edredão e os velhinhos, de flanela, acabaram por ficar esquecidos na gaveta. Até ao fim-de-semana passado...

Esta noite, quando me despedi do J., ainda me disse:
- Amanhã, vou acordar mais cedo para ir para a vossa cama e dormir um bocadinho nos lençóis de naftalina!
- Naftalina?
- Sim. Ou lá como se chamam os lençóis quentinhos...
- Flanela!
- Pois... É isso!

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Exercícios Mentais Versus Gordura Intelectual II

Pronto! Estou mesmo gordurosa! Agora o miúdo, já não contente em dizer as palavras ao contrário, em fazer contas com as vogais e em inventar frases a partir das vogais de uma palavra, resolveu formar novas palavras a partir da ordenação alfabética das letras de uma qualquer palavra.
Confusos? Também eu!

Hoje, veio-me com esta novidade:
- Mãe, diz-me uma palavra qualquer!
- Hipopótamo!
- Vou dizer "hipopótamo" por ordem alfabética das letras!
- Como?
- Ahimopt!
- Hã?
- Ahimopt!
- Mas faltam letras aí, não faltam? Escreve lá!
Escreveu. 

Esta tontinha ainda foi à procura dos neurónios há já muito esquecidos numa qualquer prateleira por debaixo da cabeleira loira para a ajudarem, mas, ou eles já morreram, ou estavam mesmo enferrujados...

- Vês, as letras estão por ordem alfabética!
- Hum?
- Mas falta um "pê" e dois "ós"!
- Sim, mas eu não repito as mesmas letras! Senão ficava "ahimooppt"!
- Hum...
- Diz outra!
- Helicóptero!
Dois segundos depois:
- Cehiloprt!
- Hum? Espera, tenho que escrever. 
- Está bem, não está?
- Espera... Hum... Está! 
(Cara de estúpida).
- Diz outra!
- Televisão!
Um segundo e meio depois:
- Aeilostv!
- Porra! Onde é que tu aprendeste a fazer isso?
- Oh, faço isto muitas vezes! Até quando estou a jogar basquetebol!
- A jogar basquetebol?!
- Sim, as pessoas dizem coisas e eu, na minha cabeça, faço estas palavras.
- Ah! É tipo um exercício mental que fazes só para ti?
- Sim! Diz outra!
- Carro!
- Oh, essa é fácil! Acor! 
Vira-se para o pai que estava a estender a roupa:
- Pai, diz lá uma palavra!
- Estomatologista! - diz o pai.
- Aegilmost! 
Ficámos a olhar-nos com cara de parvos, enquanto ele continuava.
- Até sei "inconstitucionalissimamente"!
- Sabes?!

Lá disse, mas nem fui conferir. 

Como eu já estava com a cabeça feita num oito e não escrevi, não vou conseguir reproduzi-la aqui. Desculpem, ok? Amanhã, pergunto-lhe e depois digo-vos.

Agora, vou ali acordar uns neurónios adormecidos e pôr-lhes uns alteres em cima. Amanhã, ou daqui a uns meses, talvez já consiga dizer "carro" por ordem alfabética em quinze minutos.
A ver, vamos!

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Amiguinhas dos Animais

Esplanada do Centro Comercial Vasco da Gama. Gaivotas a atacar tabuleiros com restos de comida. Duas amiguinhas dos animais tiram o miolo de pães que trazem dentro de um saco. Dão o miolo fofinho e arranjadinho às coitadinhas das gaivotas esfomeadas que só têm um rio imenso cheio de peixe do outro lado da rua, onde podem pescar comidinha. São tão amiguinhas dos animais que dão pão aos que não têm pão, cereais, ou alimentos processados na dieta original. São tão amiguinhas dos animais que os tratam como se fossem humanos. Tal e qual aqueles amiguinhos dos animais que tosquiam os seus cães no inverno porque largam muito pêlo pela casa e que, depois, lhes vestem uns casaquinhos muito lindinhos para não terem frio. Tão amiguinhas dos animais quanto os que mandam vir huskies siberianos - porque é moda ter um husky - para um país quente como o nosso. Tão amiguinhas dos animais quanto os que limpam o rabo dos cães com toalhetes perfumados para não cheirarem mal. Ou os que prendem animais selvagens em jaulas de dois por dois para os "protegerem".

Amizade estranha esta em se transformam os amigos noutra coisa que não aquilo que são, em que se os moldam às necessidades, gostos e caprichos que não são deles, mas nossos.
Amiguinhas destas, nem as da onça!

Imagem DAQUI

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O Que Desejamos Para os Nossos Filhos?

Assim de repente, sem pensar duas vezes, diria "que sejam felizes!". 
Depois olho em volta e não vejo isso nas acções da maior parte dos pais. Não nas de todos, claro, mas nas da maior parte. Olho-os, oiço-os e vem-me à cabeça a palavra "sucesso" em vez de "felicidade". Sucesso nos estudos, no desporto, nas finanças, nas atitudes, nos comportamentos, na vida. Vejo-os gastar tempo e dinheiro, muito dinheiro por vezes, em mil e uma actividades. E tempo a dividir-se em muitos para conseguirem levar os filhos a essas mesmas actividades. Exigem que eles sejam bons em tudo o que fazem. E volto ao sucesso. Paro no sucesso. E fico a meditar a definição de sucesso. 
O que é isso, sucesso? O que é isso de se ser bom em tudo, de se saber fazer tudo? Ter infindáveis valências far-nos-á mais felizes? Ser bom far-nos-á mais felizes? 
E desta vez, olho e oiço os filhos, e não me parecem felizes. Resignados, talvez. Mas felizes não.
Vejo crianças como pequenos adultos, cheias de stress para conseguirem dividir a atenção pelas mil e uma actividades que frequentam. Vejo crianças com dificuldades em interessarem-se pela música, o desporto, a catequese, os escuteiros, o karaté, a escola. Vejo crianças que no fundo, no fundo, só querem uma horinha livre para enfiarem a cabeça numa playstation e esquecerem tudo o resto. Vejo poucas crianças brincar. A capacidade de imaginar, de fingir, de inventar está a fugir-lhes. A capacidade de serem crianças está a fugir-lhes. Tento imaginá-las adultas e não consigo ver diferenças daquilo que são hoje, em crianças. 
E uma vez mais, volto ao "sucesso". Será o sucesso sinónimo de felicidade? Tento rever mentalmente pessoas "bem-sucedidas" na vida, por exemplo, profissional, e noto-lhes infâncias bem diferentes daquelas que impingimos aos nossos filhos. Geralmente, foram crianças com uma aptidão que se foi acentuando ao longo dos anos. Foram pessoas que, através de uma grande força de vontade e resiliência, levaram uma paixão ao estatuto de profissão. Não digo com isto que às quais foi dado um mundo de instrução desde tenra idade não chegaram a uma situação de sucesso, também as há, claro que há, mas fico na dúvida se ao darmos uma imensidão de obrigações às nossas crianças, estamos a contribuir para um sucesso que as permita ser felizes. E se é esse sucesso, neste caso o profissional, que as vai tornar pessoas felizes. Fico na dúvida se não estaremos a traçar-lhes caminhos em vez lhos mostrarmos e deixarmos que sejam eles a escolher o deles; se não lhes estaremos a impor um futuro, em vez de os deixarmos amadurecer até terem capacidade para fazer as escolhas que entenderem. Fico na dúvida se o que realmente queremos para os nossos filhos é felicidade e não sucesso e se esse sucesso contribuirá, alguma vez, para que sejam felizes. 
Fico na dúvida...

domingo, 8 de dezembro de 2013

Reconhecer a Vida

- J., vamos ao cinema ver o Frozen?
- Não, mãe, eu já não gosto de desenhos animados!
- Não?
- Não, agora quero reconhecer a vida!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Parceira de PET

Há uns tempos, durante a minha cruzada oncológica, fiz várias PET - Tomografia por Emissão de Positrões.
O exame não é doloroso, no entanto foi dos que mais me custou fazer. Requeria uma longa preparação de jejum e de imobilidade que, para uma pessoa como eu, cujo mau-humor se acentua quando exposta a factores como a fome, o frio e o sono, me deixava para lá do insuportável. Durante as longas horas de preparação só me apetecia bater em toda a gente que cruzasse o meu caminho. Como não o podia fazer, tentava dormir para esquecer a fúria que me invadia.

Num destes dias de tortura, dormi durante umas sete ou oito horas numa cama de hospital até me chamarem para a sala, dita, de preparação para o exame. Já tinha uma noite de jejum em cima e estava possessa. 

Tal como podem ler na definição de PET que linquei acima, é-nos injectada uma substância radioactiva antes do exame, que nos percorre o corpo e assinala os consumos de glicose anormais das células, uma das características das células tumorais. Antes ainda desta substância radioactiva nos entrar no corpo, dão-nos um relaxante muscular para que não sejam assinalados os normais consumos de glicose da actividade muscular. Depois temos que ficar deitados, calados, imóveis e em jejum até vir o produto radioactivo, encomendado no próprio dia do exame, que demora séculos a chegar. Para que a tortura não seja completa, deixam-nos beber água e fazer xixi.

Nesse fatídico dia de extremo sofrimento, quando estava já deitada na sala de preparação, com o relaxante muscular no bucho e a desejar dormir mais um pouco para esquecer a fome, chega a minha parceira de exame. Mulher de uns cinquenta anos, de peruca na cabeça e ligada a uma qualquer ficha que não descobri onde estava. Senta-se na poltrona a meu lado, tira a peruca e diz:
- Ufa, finalmente posso tirar esta porcaria!
Posa-a no colo e começa a falar do seu percurso oncológico. Conta que fez uma data de operações, exames, quimios, radioterapia. Fala sem parar. Vou-lhe respondendo uns "hum, hum", "compreendo", "pois". 
Chega a enfermeira e diz que não podemos falar. A minha parceira cala-se um bocadinho e eu fecho os olhos na esperança que o meu sono a demova de voltar à fala. 
Dali a pouco, volta ao ataque. Fala, fala, fala. Conta tudo ao pormenor. Até que desisto de dormir e decido ficar a ouvi-la. Na verdade, não a oiço muito bem, devido à fome já ter tomado posse dos meus ouvidos, mas decido tentar estar atenta ao que me diz.

Durante a sua prosa interminável, fui-me apercebendo que aquela mulher era o maior exemplo de vivacidade que encontrei naquele local moribundo. 
Noutra situação ninguém diria que era portadora de cancro nem que já tinha passado por um infindável leque de exames e tratamentos. Estava pronta para a vida e cheia de positividade. 
Falava comigo como se nos tivéssemos encontrado no cabeleireiro e discutíssemos coscuvilhices da vida de famosos que víamos nas revistas cor-de-rosa que íamos desfolhando, enumerava os órgãos mutilados tal jogador que distribuí cartas para uma nova partida de sueca. Não havia ali um resquício da irritabilidade pela fome que também devia sentir e que, a mim, me atormentava, nem se ralava com a imobilidade ou o silêncio que nos tinham imposto. Falava da vida, da luta do cancro, dos filhos e dos netos da mesma maneira, ao mesmo tempo que ia rodando a peruca nos dedos. Não chorava, nem se queixava das atrocidades que lhe tinham feito. Sorria até. Aceitava, assim simplesmente, todo aquele processo de vida ou morte como se se tratasse de mais um contratempo que lhe foi imposto. 

Ao ouvi-la, sentia-me cada vez mais piegas por estar naquele estado, quase incontrolável, de pré-assassinato em massa. 
Eu era a menina mimada, pouco habituada a ser contrariada, e ela uma explosão de energia positiva perante as maiores adversidades. 
Fui encolhendo. Eu, mulher de um metro e oitenta, fique reduzida a meio metro, perante a grandiosidade daquela minha parceira de PET. Sentia-me, a cada palavra dela, mais pequenina e merdinhas. 
Mas, finalmente, pus o cérebro a funcionar, que deve ter registado uma actividade fora do normal na PET, e resolvi ir assimilando o ensinamento daquela mulher. Demorei algum tempo, mas consegui digerir a mensagem que, posteriormente, me deu uma postura diferente perante a doença e os tratamentos que se seguiram.

Quando me chamaram para a sala do exame, despedi-me com um sentimento de pena da possibilidade de não a voltar a ver. 
Disse-lhe apenas o costumeiro "boa tarde e as melhoras!" do IPO, mas com vontade de dizer mais qualquer coisa que acabou por não sair.

E nunca mais a vi.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Fechar os Olhos

Fechar os olhos e sentir os raios de sol que atravessam as pálpebras numa visão vermelha, quase marciana.
Inspirar a brisa que entra narinas adentro e percorre, à pressa, o caminho até ao peito. 
Encher o peito de ar e cheiros. 
Encher a alma. 
Acolher o abraço do calor sol e aconchegar a pele. 
Tentar agarrar o vento com as mãos e sentir os pêlos a dançar. 

Inebriar o corpo e o espírito.
De vida.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Voltar à Casa de Partida

Estou farta deste jogo. 
Já não quero saltar de casa em casa sem saber quando termina esta partida. Se tenho que recuar três casas,  ir ao castigo, esperar que os adversários joguem duas vezes ou avançar duas casas para depois recuar três, já não me interessa.
Estou farta deste jogo. Quero outro. 
Quero voltar à casa de partida e lançar o dado outra vez.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Abraço Vermelho e Azul

Chegou da escola com o pai. Mal entrou em casa, foi a correr para o quarto. Atirou a mochila para o chão, abeirou-se da janela e agarrou nos bonequinhos da Playmobil, com a pressa de quem tem oito anos e uma ânsia imensa de viver.
Alinhou-os, formando duas colunas: uma de guardas romanos e outra de guardas egípcios. Iniciou a batalha. De vez em quando, soltava uns “ya!”, “ai!”, “toma, toma!”, “catrapum!”. Imaginava que eram guardas de carne e osso e que se magoavam a sério, sempre que levavam uma traulitada na cabeça. Quando isso acontecia, lá vinham os enfermeiros improvisados, que não eram mais do que uns bonequinhos de outra colecção da Playmobil, a dos treinadores de cães. Sabia perfeitamente que no tempo dos romanos e dos egípcios não havia enfermeiros como os de hoje, mas não se importava, pois queria era brincar e queria enfermeiros na história dele. E uns treinadores de cães armados em enfermeiros serviam muito bem esse propósito.
Saltavam bonecos pelo ar, iam de encontro às paredes e, por fim, acabavam por se estatelarem no chão. Era esta algazarra que o fascinava, eram os saltos, cada vez mais altos, e as cambalhotas acrobáticas que o impediam de parar a brincadeira com os bonecos. Queria que eles se superassem, que, apesar das duras batalhas que travassem, fossem invencíveis.
Era capaz de ficar horas naquilo: a fazer saltar bonecos pelo ar e a socorrê-los cada vez que se magoavam.
Este parecia ser um dia de brincadeira intensa, como tantos outros...
Até que, de repente, parou a brincadeira e fitou o pôr-do-sol, através da janela. “Oh, que lindo pôr-do-sol!”, pensou. Parecia mesmo aquele que viu, naquele dia de inverno, em que foi com os pais à praia...
Ele e o pai jogavam com as raquetes, a mãe lia um livro, deitada na areia. Estava toda vestida, cheia de frio como é costume dela. Lia o livro entre espreitadelas à brincadeira dos dois. Quando via uma boa imagem deles, do sol ou do mar, pegava na máquina e fotografava. A imagem da mãe deitada na areia, atenta a tudo, e a eles, ficou gravada na sua memória como as imagens dele e do pai, do sol e do mar, nas fotografias que ela tirou naquele dia.
O sol ia descendo devagarinho. Ele e o pai já suavam de tanto correrem e saltarem para apanharem a bola e a mãe, enroladinha na toalha, esboçava-lhes um sorriso tremido pelo frio. Que mãe friorenta, aquela!
Entretanto, o sol pousou no mar, iluminando a praia em tons de vermelho, mas ele só reparou nisso, quando a mãe o chamou, apontando para aquele astro gigante no horizonte, “Filho, olha!”. Ele olhou e correu para ela. Saltou-lhe para o colo e, abraçados, viram o sol entrar no mar, ao mesmo tempo que as cores da praia mudavam dos tons de vermelho para os de azul. Aquele abraço da mãe nunca lhe iria sair da pele. Foi um abraço vermelho e azul. Não há muitos abraços vermelhos e azuis e aquele foi dos poucos que sentiu até hoje.
Engraçado, agora que pensa nisso, apercebe-se que é sempre a mãe quem o lembra das coisas maravilhosas que vivem sobre a sua cabeça. É sempre ela que repara no que está para lá do ar. Engraçado...
O sol que teimava em deitar-se, ali mesmo à sua frente, através da janela do quarto, era igualzinho ao outro da praia, que viu ao colo da mãe. Só que este ia deitar-se sobre os montes, lá longe na linha que separa o céu da terra, em vez de no mar.
- Filho! – chamou o pai.
- Sim, pai?!
- O que estás a fazer?
- Estou a brincar.
- Ok! Mais meia hora e vais fazer os trabalhos de casa, está bem?
- Está bem, pai. Mas depois a mãe tem que ver se estão bem...
- Está bem, está bem! - responde o pai.
- Mãe, vês os meus trabalhos, não vês? -  pergunta ele.
- Claro que sim, filho! – ouve-a dizer.
- Mãe, o que é o jantar?
- São almôndegas com esparguete, como tu gostas!
- Boa! Fazes sempre as minhas comidinhas preferidas, não fazes, mãe? Adoro as tuas almôndegas. As da escola são uma porcaria!
- Eh, filho, não acredito que sejam assim tão más!
- São, juro! São horríveis!
Voltou a olhar para o sol, até desaparecer por completo, até a luz que entrava pelo quarto adentro ficar azul. Como lhe saberia bem um abraço vermelho e azul, naquele momento...
- Mãe!!!! – gritou - Abraça-me! Mãeeeee!!!
- O que é? O que é que se passa? – pergunta-lhe o pai.
- Pai, estou a chamar a mãe, não é a ti! – responde, com lágrimas nos olhos.
O pai entra no quarto, senta-se ao lado dele, envolve-o nos braços com força, limpa-lhe as lágrimas e beija-o no rosto.
- Pai, eu estava a chamar a mãe, não a ti! - diz-lhe, entre soluços e com a voz a sumir-se-lhe por entre as lágrimas.
- Filho, a mãe já não está cá. – murmura o pai, com lágrimas a saltarem-lhe dos olhos.
- Está, pai! Ela fala comigo... Se ela não estivesse aqui, não falava comigo...
- Ela ficou dentro do teu coração e é a voz dele que tu ouves, sempre que pensas na mãe.
- Porque é que ela não está aqui para me abraçar, pai? - perguntou, quando a voz conseguiu passar-lhe para fora da garganta.
- Porque aquela doença malvada a levou. Mas, apesar de ela não estar aqui para te abraçar, ela está, e ficará para sempre, nesse teu coraçãozinho.
- Pai, dás-me um abraço vermelho e azul, dás?

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Som do Teu Coração

O som do teu coração faz eco no meu peito
Tudo em mim dança, quando ele canta
Respiro no seu compasso 
Vibro no seu pulsar
Voo na sua melodia por entre as notas soltas dessa cadência 
Que me faz viva
E me transborda de amor

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Quando É Que Cresce?

Cortei o cabelo. Mais ou menos como o da senhora da foto abaixo. 
Está, talvez, um pouco maior e com menos franja...

DAQUI
O J. não gostou, porque nunca gosta de mudanças, das minhas mudanças.
Disse-me:
- Gostava mais como estava. Quando é que cresce?
- Oh, não sei, nem quero saber. Estou contente com ele assim. Já estava  farta daquela gadelha enorme! - respondi.

Hoje, quando cheguei a casa, disse-lhe:
- Sabes, lá no trabalho toda a gente gostou do meu cabelo. Disseram-me que me ficava muito bem.
- Sabes, mãe, às vezes as pessoas mentem...
- Mentem?! Achas que estou feia?
- Não, acho que estavas mais gira antes.
- Mas estou feia agora?
- Claro que não. Tu és sempre gira.
- Oh, a sério? Nem sempre me acho gira...
- Mas és! Sempre, de qualquer maneira.
- Oh, que querido! Essa frase merece um grande beijo!
Beijei-o.
- Ah, e não é só de qualquer maneira, é também em todos os aspectos!
- Deixa-me dar-te mais um beijinho.
- E não estou a dar-te graxa. É verdade!
- Pois não. Ah ah ah ah! Sabe muito bem ouvir isso.
- É a verdade!

Subir e Descer a Escadaria

Há coisas estranhas... 
Parece-me estranho quem faz manifestações tantas vezes, reivindica direitos, luta com força, e opõe-se, opõe-se e opõe-se ao governo, vir agora "atirar pedras" aos polícias que subiram a escadaria da assembleia, e aos que os deixaram subir. Acham mal os manifestantes polícias terem subido a escadaria da assembleia. Acham mal os outros polícias, que estavam de serviço, os terem deixado subir. Mas enquanto manifestantes já queriam subir a escadaria e já achavam mal as forças de segurança não os deixarem subir. Acho estranho e acho piada ao mesmo tempo. Tem piada as pessoas mudarem de opinião como quem muda de camisa, conforme o sítio onde estão. Se estão em casa a ver as notícias, os polícias deviam carregar carga nos manifestantes e os manifestantes deviam comportar-se civilizadamente. Se estão em frente à assembleia, os polícias deviam ser uns docinhos e deixá-los passar, enquanto se defendem das pedras que lhes atiram, para onde quisessem ir.

E acho piada as massas tornarem-se nas massas que o governo quer que sejam. As massas são amassadas e moldadas e acabam encaixando-se perfeitamente nas formas onde as metem.

Pessoalmente, estou muito contente pelo que aconteceu na manifestação dos polícias. Sinto-a como uma vitória nossa, nossa sim, nossa, de nós, povo.
Ao contrário do que acontece em certas greves, os polícias mostraram-se unidos. Porque os polícias não podem fazer greve, a manifestação e a inacção dos que estavam de serviço, mostrou uma união que não vemos em certas greves, em que uns fazem greve e outros a furam. Não pensem que estou a confundir termos, comparo greve e a manifestação dos polícias propositadamente, porque são acções que requerem união. 
A união e a mensagem que estes deixaram ao governo deram-me uma certa esperança. Primeiro, porque os polícias se mostraram povo acima da profissão que exercem. Segundo, porque os que estavam de serviço e não agiram contra os seus pares e os que subiram a escadaria e a desceram, pacificamente e de livre e espontânea vontade, mostraram coragem, e ambos deixaram o aviso "o nosso poder é superior ao vosso, se nós não os protegermos, vocês estão feitos, por isso não brinquem connosco". 
Ao contrário dos que atiram pedras aos polícias tanto nas manifestações, quanto perante esta manifestação, eu estou com os polícias e acho que devemos agradecer-lhes e apoiá-los nesta luta que travam. Porque, tal como nós, eles são povo e reivindicam direitos que lhes foram retirados, e depois porque termos os polícias do nosso lado, na nossa luta, é uma força que nunca teremos se lhes continuarmos a atirar pedras. Por fim, porque, parece-me, todos queremos uma polícia melhor, com mais condições de trabalho e ordenados condignos.
E aos que dizem "a nós batem-nos e aos colegas permitem chegar ao cimo da escadaria, que injustiça!" só tenho a dizer "lembram-se da uma hora e tal que os polícias ficaram a levar com calhaus antes de baterem em alguém?" e "gostavam que os vossos parceiros de luta, por exemplo colegas de profissão, vos impedissem de reivindicar os vossos, e deles, direitos?"
Parece-me que não. 

Deixo apenas mais esta lembrança a quem já esqueceu : 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Apoio Ao Estudo

A ex-AEC "apoio ao estudo", com a redução das AEC e o alargamento do horário escolar, passou a "disciplina" obrigatória, ou seja, não podemos prescindir dela, ou pura e simplesmente, não podemos deixar de inscrever os miúdos nela.
Na minha triste ingenuidade, pensei que o "apoio ao estudo" seria para ensinar os miúdos a estudar, fazerem trabalhos de casa, uma espécie de sala de estudo onde pudessem fazer revisões e colocar questões a um professor. Mas não. O "apoio ao estudo" serve para as crianças terem mais um bocadinho de aulas e até para trazerem mais trabalhos para casa.
Bela merda me saiu este "apoio ao estudo"!
Se os miúdos já têm pouco tempo para respirar com os TPC das aulas, menos terão com os TPC do apoio ao estudo. Gostava de perceber qual foi a ideia de lhe chamarem "apoio ao estudo" se são aulas iguais às outras. Eh pá, gostava. A diferença está onde? No professor? É só para poder ser dado por um professor diferente? Ou é para fazer os pais pensarem que alguém vai ensinar os putos a estudar?
Já que estou numa de perguntas, este enorme horário escolar serve para quê? Para os miúdos ficarem tão automatizados na cena da escola e das aulas que não tenham tempo nem espaço mental para pensarem sobre as matérias que lhes impingem? É isso? Ou é para o lado criativo e crítico também não ter capacidade de se desenvolver muito e eles se tornarem nuns autómatos totós facilmente manipuláveis?

Ok, ok, sou eu que tenho a mania da conspiração!

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Ó P'ra Mim Num Recorte Do Sapo!


Cliquem na imagem para verem melhor
esta preciosidade.

O Melhor do Meu Dia

Ouvir o meu homem dizer "apoio-te no que decidires para seres mais feliz".



Deito-me Tarde

Deito-me tarde porque a manhã chega demasiado depressa quando durmo. 
Detesto a manhã de amanhã. Detesto os dias, fechada, sem poder sair dali. Detesto estar ali. 
Os meus passos desejam sempre voltar para trás. Desejam tanto...
Estremeço só de pensar que gasto tanto tempo naquilo. Tanto tempo, contrariada. As nove horas não se gastam. São intermináveis. E repetem-se todos os dias. Todos os dias. 
E o fim-de-semana não chega. Quando chega, esfuma-se num sopro. E tenho de voltar.
Doem-me os dias. Doem-me tanto. É como se tentassem esmagar-me o coração... Encolho o peito para o proteger, mas o aperto vem de dentro. E não passa. E estremeço, e suo, e o estômago sobe-me até à boca. 

Deito-me tarde para prolongar as noites. 
Preciso de noites enormes. Aqui. Se durmo, voam. Quero que os dias ali voem, não as noites aqui. Prescindo de ver o sol se for preciso, mas dêem-me mais noites que dias. Os dias sufocam-me e preciso de respirar. Preciso tanto de respirar.

Deito-me tarde e não durmo. Não posso. 
Vivo com horas de sono a menos. E já não penso. Já não consigo pensar como antes. Tenho neurónios a implodir por falta de sono. E tenho restos de vida por viver, fora dali.

Deito-me tarde para atrasar os dias, os dias enormes e monstruosos, que me destoem as noites.
Aqui.


domingo, 17 de novembro de 2013

A Liberdade Para a Profunda Estupidez

Relacionar-se cheque-ensino com liberdade é tão estúpido quanto querem que sejamos.

"Ai o cheque-ensino vai dar liberdade de escolha às famílias quanto às escolas que querem que os filhos frequentem!" 

Ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah!
Repito: Ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah!
Liberdade? Onde, onde?
As escolas privadas é que vão ter um maior leque de escolha de alunos que as frequentem. E ainda vão poder subir os preços, porque a procura vai ser bem maior do que a oferta!
Uau, "granda" liberdade, a das famílias! 


" Os pais vão poder escolher as melhores escolas para os filhos!"

Ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah!
Ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah!
E ainda digo mais: Ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah!
O que é isso de "melhores escolas"?
São aquelas cheias de meninos ricos que roubam, igualzinho aos meninos pobres, mas com a diferença de não precisarem?
São aquelas em que os meninos vivem em falsas redomas de vidro?
São aquelas em que os professores tratam as crianças por "você"?
Ou, ainda, são as em que os miúdos marram conteúdos sem sequer os questionarem, mas que lhes dão altas notas nuns exames feitos para gente que não pensa sobre o que aprende?
O que é isso afinal de "melhores escolas"? Hum?

Os pais não têm de escolher escolas nenhumas, amigos! As escolas, públicas, é que têm de ser todas boas para os pais não terem de escolher nada. Para bastar matricularem os filhos na escola mais próxima da residência, e pronto, estes estarem automaticamente numa boa escola!
Isso sim, é que é liberdade!

Perdermo-nos Por Amor

Perdermo-nos de amor é bom. 
Amar loucamente, embriagarmo-nos de paixão, sorvermos o objecto da nossa loucura como se fosse a última gota de água no deserto e vivermos na inebriante insanidade do amor é o expoente máximo do êxtase amoroso. 
Perdermo-nos de amor não é bom, é mais do que bom.

Perdermo-nos por amor não é bom.
Deixarmos de nos enxergar, desaparecermos no outro, prescindirmos das nossas escolhas, do nosso eu, por um outro, já nem é amor, é despersonalização e obsessão. É triste. É pedinchar um amor inexistente. 
Perdermo-nos por amor é perdermo-nos simplesmente, e não nos encontrarmos mais.

domingo, 10 de novembro de 2013

Há Pessoas Assim

Há pessoas que nos beijam sem nos tocarem
Que nos abraçam e acariciam sem nos chegarem

Há pessoas assim

Que nos entram coração adentro
E por lá ficam

Que a cada gesto nos comovem só por existirem puras
Há pessoas que nos conquistam com o olhar
E nos fascinam
Com o carinho que entregam 
Aos nossos

Há pessoas assim

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Mãos

Mãos que se nos agarram à memória

Que nos tocam
Que nos acariciam
Que nos ouvem
Que nos seguram
Que falam
E beijam

Mãos

Foto do sítio do costume

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

"Um Inimigo do Povo"

Ontem, fui ao teatro! Trá-lá-lá-lá-lá!
Depois da peça com o Diogo Infante, Preocupo-me, logo existo, que detestei, nunca mais fui ao teatro e andava meia traumatizadita. Mentira, fui às comemorações dos 10 anos do Teatro Maria Matos que até gostei bastante, mas não me recuperou da tristeza anterior.

Ontem, fui ver Um Inimigo do Povo no Teatro da Comuna e vim de lá de coração a transbordar e de cabeça cheia de interrogações. 
É assim que gosto de vir do teatro, por isso, vim contente. 

O Teatro da Comuna é, definitivamente, o meu teatro! Desde o rapaz que vende os bilhetes, passando pelo bar onde esperamos o inicio da peça, até aos actores, às peças escolhidas e à forma como nos são apresentadas, tudo me agrada por lá.

Esta peça é magnífica. Leu-me os pensamentos quanto às condições deste país e desta sociedade, fez-me questionar que caminhos traçamos e que alternativas temos, pôs-me o cérebro num turbilhão e garantiu-me que estou, ainda, viva. 

Imagem DAQUI
Vão ver, vão ver, vão ver!

domingo, 3 de novembro de 2013

TPC

Já disse aqui que sou contra os trabalhos de casa? 

Ok, não sou contra os TPC na sua essência, sou apenas contra os moldes em que se tecem hoje em dia. 
Virem em quantidades iguais às que vinham no meu tempo de escola primária, contando que os miúdos têm uma tarde ou uma manhã livre para se lhes dedicarem e fazerem as pessoas pensarem que os pais devem ajudar os filhos com os exercícios escolares, fá-los perder todo o poder pedagógico que deveriam ter.

E ler COISINHAS DESTAS ainda me faz odiar mais os TPC.! Não, na verdade não são os TPC que fico a odiar mais (até porque na realidade não os odeio, até os acho muito úteis se os miúdos tivessem alguma hora realmente livre, por dia, para os fazerem), são estas pessoas que pensam exactamente como as querem fazer pensar e que, supostamente, educam alguém.
Se houve um ou dois artigos desta senhora com que concordei parcialmente, foi muito. Este, por acaso até é um deles... Concordo que os pais não devem ajudar os filhos com os trabalhos da casa, mas não pelas razões defendidas por ela. Discordo com todos os argumentos que nos apresenta, detesto a escrita, o conceito, os ideais. Enfim, acho o artigo deplorável!

"Então, porque é que continuas a ler as coisas que ela escreve?", perguntarão alguns. 
Primeiro, porque compro o jornal I todas as semanas. Segundo, porque as leio com a ideia "que raio de bacoradas vai esta senhora dizer desta vez?". 
Há coisas assim, que estão mais próximas do ódio do que do amor e de que gostamos só porque as odiamos. Destilamos veneno quando elas se nos deparam e purificamo-nos por isso. Esta senhora faz-me destilar todas as impurezas que vou acumulando ao longo da semana. Chego ao domingo e destilo-as ao ler os seus belos artigos de opinião. O que escreve é tão execrável que todo o mal que pode haver em mim sai-me pelos poros em segundos.
Qual massagem oriental, qual sauna ou quais bebidas purificadoras? Ler o lixo produzido por ela é muito melhor do que isso! Além de que nos faz sentir pessoas maravilhosas, mesmo que não o sejamos, se nos compararmos com esta gente tão... tão... vá lá, estranha!

Com o presente artigo, fiquei a perguntar-me quem obrigará esta mãe a ajudar os filhos a fazer os TPC e porque lhe é tão doloso lidar com eles (com os filhos, claro, não com os TPC!).
Eu, se ajudo o meu filho nalguma coisa, é porque quero. Não preciso de nenhum decreto-lei para o fazer ou para não o fazer. E não ajudo a fazer TPC porque não concordo que deva ajudar! Ele fá-los sozinho e depois tiro-lhe as dúvidas que possa ter. E tiro-as porque quero, e se não sei, digo-lhe para perguntar à professora. Não são poucas as vezes que ele vai para a escola com respostas em branco. Não sinto qualquer pressão para o ajudar, até porque se sentisse, não o faria. A função da escola é da escola, é ensinar, a minha, como mãe, é amar e educar, não é ensinar matérias de Português, Matemática ou Estudo do Meio. Se lhe ensino alguma coisa da escola é porque quero, porque sei, porque gosto e porque isso também me dá prazer. Também não faço os trabalhos do meu filho. Os trabalhos são dele, não meus. Não me sento ao lado dele para que os faça. Os TPC são para eles fazerem sozinhos e a intenção que fundamenta a sua existência é a do trabalho individual, o da experimentação, o da pesquisa, o da descoberta sem ajudas. Negar isto é aldrabar o sistema. Claro que os portugueses são exímios a aldrabar o sistema, e até há quem faça os trabalhos pelos filhos. Mas neste sector, não sou muito portuguesa. Não gosto de aldrabar. E não ensino o meu filho a fazê-lo, nem que para isso tenha que sofrer as consequências de não aldrabar. Muitas foram a batalhas travadas com algumas auxiliares de ATL por pintarem por ele aquilo que ele não queria pintar nos trabalhos de 1º ano, mas foram batalhas que lucraram na consciência da não-aldrabice e de que "há coisas que temos mesmo que fazer, apesar de não gostarmos".

Não sofro com a "cena" da escola. Nem lhe dou demasiada importância. Na verdade, não lhe dou quase importância nenhuma. E o meu filho tem sido aluno de quadro de mérito todos os anos lectivos. Não lhe dou prendas por isso, não levo os diplomas para mostrar às amigas, não os emolduro ou os colo à parede. Se o miúdo tem capacidades para ser bom na escola, só o convenço a usá-las, tal como o convenço a ser bom em tudo para o que tem capacidades. E orgulho-me de ser bom na escola, claro que orgulho! Tal como me orgulho de ser bom a jogar basquetebol, ou de ter pensamento crítico, ou de ter valores e princípios vincados, ou de ter sentido de humor apurado, ou de colocar dúvidas sobre tudo o que mexe e o que não mexe. Orgulho-me dele por ser o meu filho e por ser a pessoa que é, com as qualidades e também com os defeitos. E ajudá-lo a melhorar, a crescer, é um prazer, não é nenhum martírio.
Claro que há coisas chatas, claro que a relação nem sempre é perfeita, claro que me chateio com ele várias vezes, mas não sinto que a cabeça dele, que o cérebro dele, me seja "emocionalmente" problemática, ou que deteriore a nossa relação, antes pelo contrário, a cabeça dele é o que mais gosto no meu filho e é pela cabeça dele que o educo, que lhe ensino coisas, que o tento preparar para o futuro, pois é o cérebro dele que o vai construir enquanto pessoa. E eu, como mãe, quero ser participante nessa construção, nessa formação, não quero ser uma mera espectadora. Mas também não confundo papéis. Sou mãe, não sou professora, e em matéria escolar a minha participação é limitada ao meu papel de mãe. Ajudo tão só e apenas até onde acho que devo ajudar. Não quero substituir a professora, nem pretendo aldrabá-la. Respeito o seu papel e contribuo no que penso ser correcto contribuir, nada mais, nada menos.

E é por isso que acho que quem diz que "os pais não estão emocionalmente preparados para lidar com o cérebro dos filhos" não está, realmente, preparado para ser mãe ou pai, pois se os pais estão preparados de alguma forma, essa forma é a emocional, porque é ela que os capacita a educar os filhos, é ela que lhes dá as ferramentas para aprender sobre matérias das mais variadas áreas. É esse lado emocional que os faz um pouco, e em simultâneo, cuidadores, pediatras, médicos, professores, psicólogos. Afinal, é o lado emocional que os faz verdadeiramente PAIS!

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

"Fnac Kids"

Esta semana, veio com a revista "Visão" o catálogo da "Fnac Kids". Abri-o, entusiasmada, a pensar que iria ver um catálogo de livros extenso. Tal é a minha (triste) surpresa quando percebo que de livros só lá há uma percentagem próxima dos 20% e que a maioria é sobre o Natal, menino Jesus, diários de Bananas e afins. Vêem-se por lá alguns jogos didácticos, talvez por engano... Tudo o resto são jogos para consolas, filmes, tablets e telemóveis.

Vou ali pegar na minha nave espacial e voltar para Marte, ok?

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Polícias: Essa Escumalha Maldita!

Pegando no caso do polícia condenado a nove anos de prisão pela morte de uma criança que seguia no carro do pai durante um assalto em que este participava (no vídeo abaixo) devo dizer que acho muito bem!



O sacana do polícia não devia estar ali, nem perseguir o desgraçado do ladrão, que não estava a fazer mais do que a cumprir a sua honrosa função de ladrão.
Um homem que tem a coragem de encetar a nobre tarefa de desprover outrem dos seus bens, que são em excesso com certeza, devia receber uma medalha, não um filho morto que o acompanhou apenas para aprender o louvável ofício do pai.
Na minha humilde opinião, o polícia devia era ser linchado em praça pública para aprender a não interromper o trabalho de um criminoso sério. Pensando bem, nem consigo perceber porque é que estas pessoas são autorizadas a andar armadas com pistolas, navalhas, bastões, algemas e afins. A sério, não percebo mesmo! É para andarem por aí a matar crianças filhas de criminosos inocentes? Pior, é para matar os desgraçados dos criminosos? Ou é para andarem a brincar aos cowboys quando não têm nada que fazer e depois, ups, acertam numa coitada de uma pessoa que vem num carro com criminosos que andaram a roubar, violar ou assassinar?

Acho que, neste caso, além da pena de prisão e da indemnização aos quais o polícia foi condenado, o Estado, portanto nós, também devíamos contribuir para indemnizar o coitado do ladrão que, além do filho que levou para o assalto, também perdeu aquilo que roubou, porque um sacana de um polícia que não tinha nada mais importante para fazer, resolveu armar-se em cowboy e persegui-lo com o intuito de o prender. 

E, voltando às armas, estas deviam ser retiradas a esta escumalha policial e oferecidas aos criminosos e aprendizes de criminosos, aquando da sua emancipação, para as usarem na digna carreira que é a do crime.
Sei que é um pouco dispendioso para um Estado pobrezinho como o nosso oferecer uma arma a cada criminoso, mas, vá lá, é só uma ideia que poderia acabar com essa escumalha maldita que não nos deixa andar por aí a assaltar, violar e matar à vontade!

Pseudo

Adoro deparar-me com a ignorância dos pseudo-intelectuais.
É uma ignorância super intelectual, porra!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Convicção

Nós os três a ver a escolha dos jogadores das universidades para as grandes equipas da NBA, no canal NBA, numa gala tipo a dos Óscares...
O jogador escolhido para a equipa X levanta-se, leva com um boné na cabeça com Equipa X inscrito, dá abraços e beijos ao pessoal que lhe faz companhia na mesa redonda, onde espera ansiosamente que o chamem, e dirige-se ao palco para fazer umas breves declarações. 
Enquanto o J. faz o relato da "coisa", eu digo: 
- Olha, estão lá os pais, todos contentes, a dar-lhes beijinhos e abraços!
O J. responde:
- Um dia vão ser vocês a estar ali!


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Televisão #2

Mudámos da Meo para a Zon por causa do canal NBA que o miúdo tanto queria ter. O técnico veio fazer a ligação no sábado e já não consigo ouvir falar aquele "amaricano" nem aquela musiquinha "roscofe".  
Pensando bem, a ideia da televisão no quarto não era assim tão má... (Brincadeirinha!)
"Mãe, que é mãe, sofre de sorriso nos lábios!" já dizia um espertalhão qualquer que devia ser tudo menos mãe.

Oh, I really love this game!

Do Google Images

PSP ou MEMEQL

Não, não é a Polícia de Segurança Pública, é mesmo a PlayStation Portable!

Tal como a televisão no quarto, é um alvo a abater, ou melhor a evitar! Ou seja, o meu filho não vai ter! 

Pior do que a televisão no quarto, as MEMEQL (Máquinas de Entreter Meninos em Qualquer Lado) são demasiado perigosas! 
"Oh, que dramática!", dirão alguns. 
Prefiro ser dramática a ter um filho sossegadinho e fechado, permanentemente, num mundinho virtual!
"Ah e tal, mas eles ficam entretidos, enquanto temos coisas para fazer!". 
Entretidos não, hipnotizados! Prefiro ter um filho que não se cala um minuto, que faz perguntas atrás de perguntas, que cansa, podem crer que cansa até bastante, a ter filho que mais parece um zombie.
"Ah, mas são óptimas para eles sossegarem, quando vamos, por exemplo, jantar fora!"
Pois... Prefiro mesmo passar o jantar a dizer "está quieto!", "tem calma, que já nos vamos embora!", "não mexas aí!", "aguenta, que é só mais bocadinho!" e incluí-lo nas conversas, do que ter um robot como companhia ao jantar! Ou se não estou mesmo com paciência (sim, às vezes, também não tenho paciência, não é nenhum crime, ou é?) para ter um jantar atribulado e quero estar descansada, deixá-lo em casa dos avós e ir sozinha jantar com o pai dele é a opção mais sincera, mais sensata, mais leal. E opto por ela várias vezes! Mas quando estou com o meu filho, estou realmente com ele, não com um boneco engraçadinho que não mexe outra coisa senão os dedos, que não fala outra coisa senão "ganhei!" ou "perdi", que não olha para outro lado senão para um pequeno ecrã com bonequinhos a correr para um lado e para o outro. Tenho uma criança comigo, com tudo o que isso implica! Porque ter filhos não é só fazê-los, vesti-los e dar-lhes de comer. Ter filhos é estar com eles, é aturá-los, sim aturá-los, eles às vezes são chatos e nós, como pais, temos que os aturar. Tal como eles têm que nos aturar a nós. É assim! As relações fazem-se muito de paciência e onde há amor, tem que haver paciência, muita paciência até! 

O pacote "filhos" não vem só com coisas boas e fáceis, vem também com coisas más, chatas e difíceis. Filhos não são sinónimo de serenidade! Filhos são atribulação, são instabilidade, são medos, dúvidas, interrupções. Quem tem filhos não tem sossego nunca! Até quando os deixamos em casa dos avós para termos um jantar sossegados, eles estão sempre connosco em pensamento. Pensamos se estão bem, se comeram tudo, se estão divertidos, se se sentem bem. No fundo, eles continuam a estar presentes no jantar, apenas não estão lá fisicamente. 

E as "Máquinas de Entreter Meninos em Qualquer Lado" são perigosas porque nos tiram os nossos filhos, eles deixam de ser nossos para serem filhos das máquinas e são elas que os educam. A realidade deles passa a ser o mundo virtual das máquinas e dos jogos e nós, pais reais, passamos a ser os virtuais.
Eu não quero ser virtual, nem quero ter um filho sossegadinho mas ausente. Quero o pacote todo. Com tudo o que isso implica! Quero o meu chato a chatear-me de vez em quando e poder dizer-lhe "sossega um bocadinho, ok?".

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Extra-Terrestre

Filho no quarto a descobrir Vivaldi. 


Definitivamente, estou a criar um extra-terrestre!


CAMBADA DE IDIOTAS

Podia, devia, vir aqui, dizer mal do governo. Sim, podia e devia. Talvez isso fosse o mais acertado, o mais correcto, o mais normal. Mas não. Venho apenas "consternar-me". Com o governo, com o país, com este povo. Especialmente com este povo.

Somos uma camabada de IDIOTAS!

(Desculpem-me se feri susceptibilidades, mas se feri, aviso já que este texto tem uma bolinha vermelha no canto superior direito e se estão sensíveis hoje, voltem cá só amanhã, ok?)

Esta camabada de IDIOTAS, que nós somos, é tão execrável que me dá vómitos! 
Ouvir o meu homem dizer "vamos embora, vamos embora desta merda de país! Já não aguento mais esta merda de gente!" e ler o desalento nos seus olhos, porque grande parte desta CAMBADA DE IDIOTAS concorda que lhes cortem os braços e as pernas para sustentar uns vampiros que nos querem chupar o tutano para encherem os bolsos de grandes grupos económicos, e que ainda lhes oferecem os restantes membros ao corte em nome de uma invejazinha mascarada de benevolência, mostra-me que este túnel não tem luz ao fundo.

Arrumei o politicamente correcto na gaveta e a partir de agora só me vai sair sinceridade, doa a quem doer. Desculpem lá, mas se se sentirem ofendidos, vão ler outro blogue mais simpático, que hoje não estou nada simpática, e só de pensar que pode haver aí alguém amuado me irrita. 
Somos uma merda de povo que deixa que nos caguem em cima e pede mais! Somos uns pacóvios armados aos pingarelhos com a mania das importâncias, mas sem um pingo de dignidade. Deixamo-nos manipular por uma data de otários, para parecermos uns meninos bonitos aos olhos dos "camones". Até os angolanos já nos toparam! Pensávamos que os enganávamos com a nossa ganância disfarçada de bondade, mas até eles, que durante tantos anos fingiram que nos perdoaram todas as atrocidades que lhes fizemos durante a guerra, perceberam que somos um engodo. Só a CAMBADA DE IDIOTAS é que ainda não percebeu o quão idiota é. E continua a "idiotar" por aí como se ainda houvesse amanhã.
Perdoamos os cabrões que nos fodem todos os dias, lixamos o nosso parceiro e quem nos dá a mão, gozamos com quem luta pelos nossos direitos, pelos direitos de que abrimos mão para agradar aos gajos do poder e do dinheiro, lambemos botas a impostores, e no fim, ainda dizemos que somos todos muito bonzinhos e que queremos o bem ao nosso irmão.

Vão-se catar, seus filhos da puta! Vão-se catar, sua cambada de idiotas! Peguem no pingo minúsculo de dignidade que ainda vos resta e ergam-na sobre as vossas cabeças em prol de um país de jeito, de uma sociedade condigna, justa e verdadeira. Lutem por todos e não só por alguns! Lutem por vocês, pelos vossos filhos e netos e deixem de envergonhar os vossos avós que passaram as passas do Algarve para vos darem a oportunidade de falarem e de fazerem alguma coisa para mudar esta merda!

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Adenda à Televisão

Comprámos uma televisão nova, sem que a antiga estivesse estragada, porque, antes, tínhamos comprado um móvel "muita" giro onde "televisões da cauda" não cabiam.
Somos tão anormaizinhos que, ao contrário da maior parte das pessoas que compra primeiro a televisão e depois o móvel à medida da mesma, comprámos primeiro o móvel e só depois nos apercebemos que nele havia o risco da televisão cair. 
E os totós lá tiveram que arranjar uma sem cauda para que não ficassem com o chão da sala cheio de gente famosa entornada de uma televisão partida e a sala pudesse ficar muito mais gira do que antes.

E não é que ficou?

Televisão

- Não tens televisão no quarto?! - pergunta, indignado, um amigo ao J.
- Não! - responde ele na boa.

Pois não, o meu filho não tem televisão no quarto!
"Ah!!!!"
Nem vai ter, enquanto o conseguir evitar!
"Ah!!!!"
Pois... 

A televisão é um dos principais causadores do afastamento das pessoas, por isso, enquanto conseguirmos gerir os canais que queremos ver, sem andarmos todos à chapada nesta casa e para que não tenhamos que nos espalhar pelas divisões da casa, só vamos ter uma televisão! Chega bem, e sobra!
Aliás, temos a televisão antiga guardada num armário e nem sequer está avariada. Está só guardada. Não precisamos dela! 
Imagem DAQUI
Esta é uma luta pessoal. Uma luta muito minha.
O pai do J. já me tentou aliciar a pôr a televisão antiga na cozinha, ao que eu lhe respondi com um redondo "NÃO! No way, José!". Ok, até podíamos pô-la no nosso quarto, mas só porque é um óptimo sonífero para mim e evitaria os problemas de costas que ando a cultivar por adormecer no sofá. Mas na cozinha? Nem pensar! Para que é que precisamos de uma televisão na cozinha? Não conto passar lá muito tempo. Até porque só lá vou cozinhar e volto logo para a sala. Nem sequer conto comer por lá... 
Já o pai do J. é apologista de fazermos as refeições na cozinha... 
"Nã! Não quero!" A sala é que é lugar para comer, estar e ficar! Todos juntos na sala! A única refeição que faço na cozinha é tomar café para poder fumar ao mesmo tempo sem poluir o resto da casa. E para estar em sossego, por exemplo a conversar ou a ler o jornal, e sossego não é sinónimo de televisão.

Já chegam os computadores a afastarem-nos...
Temos pena! Televisão, chega bem uma! E na sala!
Tenho dito!

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Dar Um Tempo

Custa-me tanto ver o meu filho ter dias maiores do que ele...

Ele é dez horas de escola e ATL, desporto, banho, TPCs, jantar, o resto dos TPCs e cama tardia, quase todos os dias.

E brincar, hã? Dá para arranjar um tempinho para as crianças brincarem? E para não fazerem nada? Não há nem uns minutinhos para não fazer nada, olhar para o ar, ou simplesmente respirar?

Porra, que raio de merda é esta que andamos a fazer às crianças?!

Estudar a Brincar

Durante o jantar.

- Mãe, depois ajudas-me a estudar?
- Estudar? Ou a fazeres os TPCs?
- A estudar. Preciso estudar os ossos.
- Podemos começar agora. Começa lá a dizer os ossos!
- Frontal, parietal, temporais, occipitais. - diz muito rápido enquanto vai colocando as mãos nos sítios onde acha que são os ossos. - Está bem?
- Hum, não sei, repete lá!
Repete um pouco mais devagar.
- Frontal, parietal, temporais, occipitais.
- Eh pá, já não me lembro muito bem. Tens a certeza que os occipitais são aí? - ele tinha apontado para o maxilar.
- Não. 
- Pois... Acho que não são ai. Temos que ver no livro depois do jantar.
- Mas eu não tenho cá o livro...
- Isso é que está mal. Já não me lembro bem dos nomes dos ossos, preciso ver num livro.
Continuámos o jantar com o J. a dizer os restantes ossos e eu, e o pai, a tentar corrigir. O pai foi corrigindo os das pernas e braços e eu lá me safei com os das mãos e pés. Ficaram os da cabeça por verificar.

Depois do jantar.

Abro um dos vários livros que o J. tem sobre o corpo humano e mostro-lhe onde estão descritas as várias partes do cérebro, já que todos os livros têm o crânio numa peça inteira e não discriminam os diferentes ossos que o constituem.
- Vês, o osso occipital é aqui atrás, e é só um, cobre o lóbulo occipital?
O livro tem daquelas janelinhas que mostram mais informação quando as abrimos. Abro-a e o J. lê e depois diz:
- Esta parte do cérebro controla a visão.
- Não é engraçado ser esta parte detrás do cérebro que controla os olhos, que são à frente?
- Pois é.

Podíamos ter ficado por ali a descobrir mais ossos e funções do corpo humano, mas a hora tardia não nos deixou. Fomos para a cama e mal nos deitámos o J. diz:
- Vamos fazer o jogo das palavras! A... ... ....
- Stop!
- Letra I.
- Igreja.
- Idiota.
- Índia.
- Itália.
- Índio.
-  Mãe, índio não vale, já disseste índia.
- Vale, vale, disse Índia país, agora estou a dizer índio das tribos de índios.
- Ah, ok. Inglaterra.
- Ivone.
- Humm, humm... Espera estou a pensar...
- É melhor ficarmos por aqui. Já é tarde e tens que dormir.
- Não, quero continuar. Agora é a tua vez de dizeres o abecedário.
- Não, J., tens que dormir. Continuamos amanhã. Beijinho!
- Oh, está bem.
Despedimo-nos e fui à casa de banho. Quando estou na sanita, oiço:
- Intenso!
- Inventor! 
No caminho para a sala:
- Investidor!
- Boa noite!
- Boa noite, mãe! Inverno!