segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A Selva

Cometi a insanidade de ir às compras ao Continente em dia de Passagem de Ano. Eu, confessa apaixonada por compras, que se puder delegar essa tarefa a outrem dou saltinhos de alegria, vi-me sozinha e indefesa a aterrar em plena selva consumista.

Desde levar com encontrões distraídos dos chimpanzés saltitões, passando por ver hienas a atravessarem-se-me no caminho de braço estendido em direcção a uma qualquer iguaria tradicional da época (enquanto eu, alheia a tanta selvajaria, contemplava uma prateleira) até ter que me proteger de leões ferozes, de pá em punho, a escavarem a arca dos camarões congelados, como se não houvesse amanhã, aconteceu-me de tudo!

A vontade de fugir era tremenda. Estive quase a jurar que a minha Passagem de Ano ideal seria a comer cereais ao som das doze badaladas e que festejar o primeiro dia do Ano com uma caneca de leitinho com chocolate nas mãos. Esta seria a entrada no Ano Novo perfeita...
Só a consciência da maternidade me impediu de sair dali para fora a correr: o meu filho não podia passar dois dias a comer cereais por causa de uma mãe preguiçosa, que preferiu gastar o fim-de-semana na lãzeira a ir abastecer a despensa!

No preciso momento em que revia mentalmente o meu papel de mãe, sou assaltada pelos meus instintos assassinos mais recalcados: começo a imaginar-me de catana nas mãos a desbravar aquela selva cerrada como se disso dependesse a vida da minha cria.
Nesse instante, começo numa acelerada mutação e, repentinamente, vejo-me transformada numa leoa assanhada!

Mas em vez de satisfazer os meus desejos assassinos e desatar à catanada àquela bicharada toda, agarrei o meu cesto rolante com força e corri para as caixas a todo o vapor.
Afinal, já tinha conseguido recolher os alimentos suficientes para que o meu rebento não se transformasse num Cornflake gigante em apenas dois dias... A porcaria de um saquinho de passas, que havia encontrado desprezado numa bancada apinhada de animais famintos e o Champanhe a fingir, também já cá cantavam...

Podia retirar-me em grande, sem ter cometido nenhum homicídio e, levemente, flutuar rumo a uma meia-noite passada a engolir passas como se de doze comprimidos se tratassem, empurradas por um espumante manhoso que me estamparia trejeitos ainda mais manhosos na face.

2013, por favor, recebe com agrado, e abençoa, esta destemida exploradora de selva urbana!

domingo, 30 de dezembro de 2012

2013

Podia vir para aqui fazer uma revisão sobre o este ano que está, agora, a acabar e que teve mil e uma coisas más, especialmente neste país pequenino e triste que, cada dia que passa, fica mais triste. Mas não a vou fazer. 
Porquê?
Primeiro, porque não me apetece. Segundo, porque todos nós a vamos fazendo mentalmente, numa retrospectiva intencional ou... nem tanto assim... 

Quero apenas deixar-vos os meus votos sinceros de um óptimo

Imagem do Google 

com tudo o que vos 

FIZER FELIZ!

Ar Puro

No carro:

- O que se passa J.? A avó disse que não falaste quase nada, nestes dias.
- Não se passa nada.
- Mas tu és tão falador... E agora quase não falas... Passa-se alguma coisa? Se se passar, sabes que podes dizer, não sabes?
- Não se passa nada!
- Mas sabes que, se se passar, podes dizer, não sabes?
- Sei!
- Falar é bom, ajuda os problemas e as coisas que nos chateiam a irem embora!
- Eu sei!

Alguns minutos de silêncio...

- Eu não estou a gostar da minha vida agora!
- Não? Então? Porquê?
- Este mundo não vai durar muito tempo! O buraco está cada vez maior e as pessoas não se importam...
- Qual buraco? O do ozono? É desse que estás a falar?
- Sim! As pessoas não fazem nada para não estragarem o planeta e, assim, ele não vai durar muito tempo.
- Ainda falta algum tempo para o mundo acabar... E as pessoas, algumas pessoas, já fazem alguma coisa para preservar o planeta.
- Sim? O quê?
- Separam os lixos, inventam carros que não poluem tanto...
- Vamos arranjar um carro desses!
- Ainda são muito caros, senão arranjávamos.
- Nós, pelo menos, separamos os lixos todos!
- Pois separamos! Sabes porque é que é bom separarmos os lixos? Porque se não o fizermos, eles vão para as lixeiras (que são descampados, um grande campo sem nada) cheios de plástico e vidro que demoram centenas de anos a decomporem-se. O plástico, com o calor e a humidade, deita gases prejudiciais ao ambiente. O vidro se não se partir demora muitas centenas de anos a decompor-se.
- E agora já não há lixeiras?
- Há, mas têm menos plástico e vidro, e mais produtos biodegradáveis, como os restos de alimentos.
- Ah, mas nós separamos tudo!
- Vês, já estás a fazer alguma coisa para não estragares mais o ozono!
- Mãe, quero ir viver para o campo na Dinamarca! Vocês estão sempre a dizer que querem ir, mas nunca mais vamos...
- Não é assim tão fácil começar uma vida nova noutro país... Além disso, o pai, aqui, tem um trabalho mais ou menos seguro. Lá, vamos ter que arranjar outros trabalhos, o que é um bocado complicado, porque não sabemos falar a língua.
- Mas falamos inglês. Eles falam todos inglês.
- Mas há trabalhos em que é preciso falar dinamarquês, por isso nós temos muito menos hipóteses de arranjar trabalho lá do que os dinamarqueses ou do que alguém que saiba falar a língua. É difícil e teria que ser uma coisa muito bem pensada e preparada, antes de irmos.
- Então, vamos viver para um campo, aqui mesmo, em Portugal, onde o ar seja mais puro.

[Oh, J., se soubesses como é difícil termos "um ar mais puro" neste Portugal, tão poluído por este (des)governo.... Nem a separação de lixos ajuda a melhorar este ambiente!]

sábado, 29 de dezembro de 2012

Apetecia-me Escrever...

Sim, apetecia-me escrever qualquer coisa aqui, mas não consigo. Ando bloqueada, vazia talvez. Por mais que esprema, não sai nada, apesar do turbilhão de emoções em que tenho vivido. Choro por tudo e por nada. Especialmente, por nada. O nada invadiu-me, e ocupou o espaço que estava reservado à minha vontade de criar... de criar qualquer coisa, nada de especial, nenhuma obra de arte, mas aquela vontade de criar por criar, que vem associada às inquietações, às indignações e às sensações boas também. Sabem de qual estou a falar? Sabem, claro que sabem. 
E o vazio... O vazio que se instala a partir do nada é aterrador! Quero sair de mim e ir ali encher-me de qualquer coisa... mas o espaço está todo ocupado... de nada. E não consigo...

Melhores dias virão. Assim espero... 

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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Feliz Natal!

Só tratei das prendas e montei a árvore de Natal ontem, mas parece que ainda vou a tempo de festejar o Natal e de desejar, aos seguidores, leitores ocasionais e àqueles que caem neste blogue de pára-quedas, através de uma qualquer pesquisa no Google, como por exemplo "Macacos do Nariz", um:

Imagem retirada da Internet

domingo, 23 de dezembro de 2012

Gatinho Zen?

Como sabem, o Gatossoa cá de casa sofre de Stress Felino, problema este que o tem martirizado com infecções urinárias consecutivas e que nos tem martirizado, a nós, com as suas asneiradas e os seus comportamentos agressivos. 
Para as infecções urinárias, a veterinária já optou por mudar a marca da ração-especial-de-corrida para uma mais cara, sem que isso alterasse alguma coisa. Quanto ao comportamento só melhorou, um bocadinho, quando ele veio para casa ainda sob o efeito da anestesia que lhe deram para conseguirem fazer-lhe uma eco. Nesse dia, o Gatossoa era um doce: não nos mordia nem arranhava e ronronava como um motorzinho em pleno funcionamento.
Sugeri à veterinária que lhe receitasse um dose pequena de anestesia, que ele tomasse todos os dias, para que conseguíssemos viver em paz. Claro que ela negou terminantemente tal solução. Mas teve uma ideia que, espero, talvez seja brilhante: mudar a ração-especial-de-corrida para as infecções urinárias, para outra ração-especial-de-corrida para o stress felino. 
O Gatossoa, a partir de ontem, começou a comer uma ração chamada Calm. A Calm é cara p'ra  caraças, mas se eu tiver que dar 52,80€ de dois em dois meses para viver sem arranhões, mordidelas e a casa alagada de urina mal cheirosa, eu pago, e pago com um sorriso nos lábios! 

Avé Calm!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Telenovelas

Em casa da avó a ver uma telenovela, cujo nome desconheço...

Cena um
Uma fulana coloca um líquido (veneno ou sonífero) na bebida de um fulano.

J.- É por isto que eu não me interesso muito por mulheres!
Avó - Por isto porquê?
J.- Elas envenenam os homens!
Avó, em defesa das mulheres - Não são só as mulheres que envenenam os homens. Os homens também envenenam as mulheres. São pessoas más, que podem ser homens ou mulheres!

Cena dois
Um homem fala ao telefone, deitado na cama com outro homem.

J.- Ele é homemsexual?
Avó - Homossexual. Sim, é!
J.- Ele está a fazer sexo com o outro homem?
Avó - Não, agora está a falar ao telefone!
J.- Mas ele está todo nu, só com o lençol por cima... Ele fez sexo com o outro homem?
Avó - Se calhar fez...
Mãe, em pensamento, quase implorando - Não perguntes como, não perguntes como, não perguntes como....

Cena três
Um homem e uma mulher estão aos beijos. Este é o fulano que foi envenenado/dopado pela fulana. Ele beija-a na boca e no pescoço, antes de cair para o lado.

J.- Agora é que eles vão namorar... Ele está a beijá-la no pescoço. Hi hi hi hi! Mãe, tu deste beijos no pescoço do pai?
Mãe, a medo - Sim...
Avó - Deu e dá. A tua mãe dá beijos ao pai no corpo todo.
Mãe, em pensamento, quase implorando - Não perguntes em que partes do corpo, não perguntes em que partes do corpo,  não perguntes em que partes do corpo...

Cena quatro
A telenovela acaba sem sabermos se o homem morreu ou não.

J.- Oh, porra! Porque é que isto acaba assim? Isto devia ser como os filmes para sabermos já o que acontece no final! 
Avó - Amanhã já se sabe. 
J.- Oh! Não gosto nada de só poder saber se ele morreu amanhã!
Avó - As telenovelas são mesmo assim para as pessoas terem sempre vontade de ver o próximo episódio.
J.- Bah!

Aviso: O consumo excessivo de telenovelas, dos filhos na companhia das avós, pode ser prejudicial à saúde das mães!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A Obra de Arte

- Mãe, porque é que tu gostas de tudo em mim?
- Porque tu foste a melhor coisa que eu já fiz até hoje!
- Tu e o pai!
- Sim, eu e o pai. Foste a nossa obra de arte!
- Pois... O pai fez a tela, os pincéis e as tintas e tu fizeste o desenho!

Imagem retirada da Internet

Olhó Desafio Fresquinho!!!



Lost Lenore passou-me este desafio, que consiste em incentivar a leitura, através da apresentação de um livro de que tenhamos gostado. Como na maioria dos desafios, devemos passá-lo a 10 outros blogues. Mas como a minha indisciplina já é bem conhecida por estas bandas, ninguém se irá espantar se eu não o passar a ninguém em particular, mas a todos em geral. Por isso, quem estiver a ler este post considere que lhe passei este desafio. Pronto, está passado!

Agora, vamos ao livro:
Quarto livro de crónicas do António Lobo Antunes.
"E porquê o quarto e não o primeiro ou o terceiro?" perguntam-me vocês.
Porque eu não li o primeiro, nem o terceiro, só li mesmo o quarto. (Se não souberem o que me vão dar no Natal, podem aproveitar a deixa, ok?) 
Este Quarto livro de crónicas marcou-me para toda a vida!
Todas as crónicas deste senhor são maravilhosas, tanto pela forma como as escreve, como pela profundidade das suas palavras. Ele é acutilante, suave, terno, corrosivo e profundo, tão profundo que, às vezes, até dói. A sua escrita escorre como se respeitasse uma melodia, com as pausas sempre no sítio certo. Mas não é fácil de ler, é preciso confiarmos nele para o seguirmos. É preciso estarmos predispostos a remexermos naquilo que nos sensibiliza, naquilo que nos magoa... Só assim o conseguiremos desfrutar. 
Se estivermos para aí virados, o êxtase fica mais perto, garanto! 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Dos Castigos

Já disse aqui que não gosto de castigos?
Acho que sim. No entanto, penso que nunca será demais repeti-lo: Não gosto de castigos!
Não gosto de castigos corporais, psicológicos, ou mistos! Não gosto de castigos na sua generalidade, pronto!

E detesto punições!
Por isso, ainda detesto mais castigos aplicados como forma de punições.
Não admito que se castiguem/punam as crianças por errarem. Errar faz parte da aprendizagem. Errar é a parte mais importante da aprendizagem. Quem não erra não aprende, decora. É do erro que nascem as dúvidas, e quem não tem dúvidas não tem interesse em aprender. Não se pode destruir o berço da curiosidade, do gosto de aprender. Se se o destrói, destrói-se também a capacidade de aprendizagem.

Quem utiliza os castigos para punir os erros, não sabe ensinar; não quer alunos, quer máquinas! O mal, aqui, não está em quem aprende, mas em quem ensina. Se seguirmos a mesma lógica de quem castiga o erro, seriam esses "professores" que deviam ser castigados, não os alunos.
Mas quem ensina devia ter a humildade de o admitir quando não sabe ensinar e querer aprender a fazê-lo bem, ou, pelo menos, melhor. Senão, talvez seja melhor dedicar-se a outra actividade, que não a de ensinar.
Só aprende quem está predisposto a isso. Essa predisposição, na maior parte das vezes, depende da arte de quem ensina, e essa arte vem de dentro do professor, vem do gosto por aquilo que ensina, que transmite, e cativa, aos seus aprendizes. Sem ela, não há ensino, há um debitar de conceitos vazios e monocórdicos.

Castigar o erro é matar, não só a curiosidade e o gosto de aprender, mas também a criatividade e a imaginação.
Tal como dizia Einstein "Imagination is more important than knowledge. Knowledge is limited. Imagination encircles the world." 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O Espelho da Nação

Leiam ESTA NOTÍCIA e digam-me se é preciso dizer mais alguma coisa para caracterizar o Tuga?

Está, ou não, tudo dito?

Mammy - A Politicamente Incorrecta

Imagem DAQUI

Por mais que se esforce, não consegue ser politicamente correcta. Na verdade, não se esforça assim tanto...

Esta época natalícia é muito atreita a politiquices disfarçadas de espírito natalício, de bondade, de solidariedade ou de outras qualidades associadas a corações grandes. Se por um lado, promove algumas boas acções, por outro, também promove algumas hipocrisias desmedidas.
O coração, desta minha pessoa, apesar de grande (deve ter aproximadamente 20x25 cm, dada a sua constituição física ser acima da média) não consegue comportar falsos sentimentos, fica-se pelos verdadeiros, que já o deixam meio arrebatado.
Assim, os comportamentos "politicamente correctos" não se aplicam a esta pessoa, e ela, em certas ocasiões, acaba por personificar a incorrecção. Especialmente, quando a tentam asfixiar com politiquices. Este facto, fá-la passar a ser persona non grata em determinados ambientes, mas sinceramente este não é um motivo para que passe a ter noites menos bem dormidas.

Esta minha pessoa é aquela que não gosta de convívios só pelo convívio, que foge dos jantares de Natal e das trocas de prendas das empresas, que não dá presentes ao chefe com a intenção de ficar bem vista, que não se separa por sexos nas reuniões familiares, de amigos, ou de colegas (aliás, até costuma ser das que furam as separações sexistas), que não faz fretes em troca de uma boa imagem, etc, etc... Está-se realmente nas tintas para a correcção se ela não é parametrizada por sentimentos de afecto, justiça, educação ou paridade. Indo ainda mais fundo na sinceridade, o "politicamente correcto" causa-lhe repulsa, enjoa-a e, às vezes, até a enfurece.
Se há coisa que não lhe peçam é para lamber botas! Se algum dia lhe der para isso, será num qualquer devaneio sexual, e mesmo assim, é muito pouco provável.
Sabe que esta postura, se tiver que prejudicar alguém, é a ela que prejudicará, mas está-se pouco lixando para isso. Até hoje, tem aguentado os embates provocados pelas suas acções, e prefere-os à hipocrisia latente dos comportamentos politicamente correctos. Olá se prefere!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Resquícios da Quimio

Quando fiz quimioterapia, o J. tinha entre um e dois anos. A minha vinda dos tratamentos implicava ter a avó cá por casa a ajudar o pai a tratar de mim e dele, ver-me sempre na cama em sofrimento ou mal-estar, ser a avó a levá-lo ao infantário no dia seguinte e ser ele a ir dar-me um beijinho, tanto de boa-noite como de despedida de manhã.

Ontem, cheguei a casa com um torcicolo tal, que não conseguia fazer nada sem ajuda. E nada, quer mesmo dizer nada, inclusive virar-me na cama. 
A minha dor e sofrimento, assustaram o J.! Ver a mãe deitada, a avó por cá a ajudar-me e o pai a tratar dele sozinho, e também de mim, devem tê-lo reportado para aqueles seis meses, que eu pensava que não lhe tinham deixado grande mossa por ser tão pequenino. Mas, na verdade, eles ficaram lá meios adormecidos e arrumadinhos numa qualquer gaveta do seu ainda pequeno cérebro, mas lá. E resolveram reaparecer agora. 
O J. deu-me muitos beijinhos, só queria a mamã, perguntou-me várias vezes se ainda me doía, deitou-se ao pé de mim a fazer-me companhia, leu as bulas dos medicamentos, queria fazer-me uma massagem, enfim, estava tão desejoso de me ver bem outra vez, que denotava uma aflição pouco normal dada a pouca gravidade da situação.

A quimio é um tratamento doloroso que não deixa só marcas em quem passa por ela, mas também em quem, apesar da tenra idade, a vê acontecer a entes queridos. Malvada (bendita) quimio!

Imagem retirada da Internet

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Orelhudo

Tenho acompanhado a história da LUNA, desde o dia em que o Bagaço Amarelo nos informou que ela tinha desaparecido, até ao dia do seu reaparecimento.
Este desaparecimento fez-me viajar no tempo nove anos, quando o Orelhudo desapareceu.

O Orelhudo era um cão, que me apareceu à porta de casa, quando eu vivia no campo. Chegou com uma coleira de arame, cheio de medo de tudo e de todos, até do ar.
Quando o vi tentei aproximar-me para lhe dar uma festa, mas ele não me deixou sequer chegar perto. Fugiu de mim. Então, resolvi arranjar um recipiente com água e outro com comida, e afastei-me. Fiquei à "coca" para ver se ele ia comer. Foi, mas apenas depois de me ver bem longe. 
Passei a dar-lhe de comer todos os dias, sem me aproximar muito para não o assustar.

Nessa altura, a égua vivia comigo, numa boxe ao lado da casa, o que quer dizer que era eu quem tratava dela, e tratar dela significava, também, limpar a boxe. 
À medida que o tempo foi passando, o Orelhudo começava a arriscar aproximar-se de mim. Mas mal eu pegava na vassoura para varrer a boxe da égua, ele desaparecia. Fiquei a achar que aquele cão tinha sofrido maus-tratos e quem o mal tratava, batia-lhe com uma vassoura. Assim, se ele vinha para o pé de mim, eu largava a vassoura. Até que, ao fim de algum tempo, já lhe conseguia dar festas tendo a vassoura na outra mão. Escusado será dizer, que esta foi uma grande vitória para mim.

O Orelhudo nunca foi meu. Sempre o considerei livre. Nunca o prendi. Achava que ele era o seu próprio dono e que só assim seria feliz. Dava-lhe comida, levava-o ao veterinário para levar as vacinas (coisa que ele detestava, porque tinha que andar de carro e, acho, que esse ódio por andar de carro era porque tinha medo que o abandonasse a meio da viagem), dava-lhe banho, arranjei-lhe uma nova coleira, que não o magoasse, mas que o referenciasse como "cão com dono" a quem o visse a passear pela rua.

Num feriado de Carnaval, saí e só cheguei a casa à noite. Quando ia pôr a chave na porta, vejo o Orelhudo, encostado à porta, com uma pata partida e todo sujo de óleo. Tinha sido atropelado. 
Toca de o enfiar no banco do pendura do carro, que ele detestava, por isso foi o caminho todo a tremer como varas verdes, e ir à procura de hospital veterinário. Nessa altura só existiam urgências nos hospitais veterinários, e só existiam hospitais veterinários em Lisboa. Mas lá fomos nós, eu e ele, num Fiat Uno velhinho, em marcha de urgência até Lisboa.
É claro que gastei uma pipa de massa no hospital, que de barato não tinha nada, mas fizeram-lhe radiografias, ecos aos rins e puseram-lhe uma tala na mão partida. O cão deixou-se tratar lindamente, era muito um querido e percebia perfeitamente que aquelas maldades todas eram para ficar bom. Mais tarde, teve que mudar de tala e foi sempre muito cooperante com os veterinários.

Passaram-se alguns meses até à altura em que tive de mudar de casa. Vendi aquela e fui viver para um apartamento. Levar o Orelhudo para um apartamento sempre me pareceu uma ideia pouco sensata, porque achei que ele não se adaptaria e que tinha o direito de continuar a viver livre, tal como tinha vivido até ali. Deste modo, combinei com o novo dono da casa que eu iria lá todos os dias deixar comida ao Orelhudo, no lado de fora do portão da propriedade. E assim fiz, durante mais ou menos uma semana, porque depois ele deixou de aparecer. Continuei a ir lá, mas a comida mantinha-se intacta. Chamava-o e ele não aparecia. O Orelhudo tinha desaparecido!

Aqui, vem o meu grande arrependimento: não colei papéis à procura dele, não divulguei o seu desaparecimento, não palpei todo o terreno à sua procura, apenas ia lá e chamava-o. Se ele não vinha, era porque já tinha ido para outro lado e, tal como eu, tinha deixado de viver naquela casa. Pensei que o pior que lhe podia fazer era privá-lo da sua liberdade, o que seria inevitável se o fechasse num apartamento.

Este arrependimento persegue-me até hoje. Eu adorava aquele cão, mas em prol de uma liberdade, que se calhar, ele nem queria, acabei por deixar que desaparecesse e perdi-o para sempre.

Ainda hoje, sempre que passo em frente daquela casa, procuro-o com o olhar, mas nunca o voltei a encontrar.


sábado, 1 de dezembro de 2012

Um Marado, Convicto Que Podia Mudar o Mundo, Chamado Jesus

Como sabem não sou crente. Não acredito em deuses, nem em diabos, não me identifico com qualquer religião, por mais bonita que ela se enfeite, mas, apesar de poder parecer-vos estranho, acredito que, um dia, existiu este marado, convicto que poderia mudar o mundo, chamado Jesus. E acredito nisso, não por ter tido uma educação religiosa ou por me terem impingido versões demasiado fantasiadas da coisa, mas porque tenho noção que este mundo nunca esteve perto da perfeição, ou de ser um lugar idílico, e porque, felizmente, sempre foram aparecendo, ao longo da História, alguns loucos que achavam que poderiam mudar alguma coisa, por mais pequena que ela fosse, e porque talvez eu também tenha, ainda, uma réstia de esperança que há coisas que se podem mudar, se acreditarmos nelas com muita força.
E acredito na história de Jesus, tal como acredito na história de Galileu, Darwin, ou de qualquer outro louco que enfrentou o mundo de frente e de peito aberto. 
Mas a minha visão da história dele aproxima-se mais da do filme Jesus Christ Superstar do que da da Bíblia, porque o vejo enquanto humano e não enquanto ser divino. 

Se é verdade que a história de Jesus tem, ao longo de séculos, mudado corações de forma a tornar os seus portadores melhores pessoas, também não deixa de ser verdade que a distorção dessa mesma história tem endurecido outros e servido de mote para as maiores atrocidades cometidas ao longo da História (e, aqui, refiro-me às Cruzadas, à Inquisição e às, passadas e presentes, tomadas de posição do Papa e da Igreja, entre muitas outras tantas).

E é por ver Jesus como um homem "louco" que arriscou, com a própria vida, mudar o que, à partida, parecia imutável que, para mim, o Natal não é uma celebração religiosa; não é o mar de presentes e a hipocrisia consumista; não é a árvore de Natal, o presépio ou a Missa do Galo. Mas é uma merecida homenagem a este, e a todos os outros marados que, através das suas convicções e força anímica, acreditaram um dia que a mudança daquilo que não estava bem, era o caminho; que não se importaram de dar a vida pelas suas causas; que não hesitaram em tentar e em inovar, mesmo que para isso tivessem que remar contra muitas marés ou chocar as mentes mais (e, até, as menos) conservadoras e, sobretudo, que tiveram a ousadia de arriscar, sem medos, numa tentativa heróica de construir um mundo melhor.