segunda-feira, 30 de abril de 2012

Lucas

Entrei no comboio. O lugar que encontrei para me sentar era ao lado de uma senhora que lia um livrinho pequenino, dos de bolso, a menos de um palmo do nariz.
Sentei-me. Tirei o meu livro do saco e imitei-a, mas com o livro um pouco mais longe dos olhos.
Nos phones, ouvia Manu Chao. No livro, as crónicas de António Lobo Antunes.
Pelo canto do olho, vejo os lábios da senhora a moverem-se. Se tirasse os phones talvez a conseguisse ouvir.
Não tirei, mas espiei a margem superior do seu livrinho pequenino, de bolso.

"Lucas", li.

Voltei ao meu livro. Devorei a crónica "Jaime" com um sorriso nos lábios e uma lágrima indecisa no olho. Podia aquele Jaime ser o meu avô? Podia, mas não era, era outro, que emocionou tanto o autor, quanto o meu avô me emocionou a mim.

Não consigo ler Lobo Antunes noutro sítio, senão no comboio. As palavras dele têm que ter sempre como pano de fundo uma paisagem fugidia e o trepidar do comboio a embalar-me. Doutra maneira, não consigo.

A senhora rezava, sim ela lia a Bíblia em tom de reza, baixinho, só para ela. Havia um terço escondido numa das mãos... Seria medo da viagem? Ou do que a esperava à chegada? Ou nem sequer seria medo, mas a procura de algum conforto?

Olhei para nós...
As palavras do seu Deus comoviam-na e, no entanto, ela segurava-o nas mãos.

Vi-nos ali tão iguais...

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