segunda-feira, 30 de abril de 2012

O Menino Triste Anda Menos Triste

Hoje, o menino triste da escola do J. aproximou-se de mim, através das grades da escola e disse-me de sorriso rasgado:
-Olha, a mãe do J.!
-Olá! Tudo bem?- perguntei.
-Olá! Tudo bem!
E voltou saltinte para a brincadeira que tinha interrompido para me cumprimentar...
Hoje, os olhos dele brilhavam e o meu coração ficou contente!

Lucas

Entrei no comboio. O lugar que encontrei para me sentar era ao lado de uma senhora que lia um livrinho pequenino, dos de bolso, a menos de um palmo do nariz.
Sentei-me. Tirei o meu livro do saco e imitei-a, mas com o livro um pouco mais longe dos olhos.
Nos phones, ouvia Manu Chao. No livro, as crónicas de António Lobo Antunes.
Pelo canto do olho, vejo os lábios da senhora a moverem-se. Se tirasse os phones talvez a conseguisse ouvir.
Não tirei, mas espiei a margem superior do seu livrinho pequenino, de bolso.

"Lucas", li.

Voltei ao meu livro. Devorei a crónica "Jaime" com um sorriso nos lábios e uma lágrima indecisa no olho. Podia aquele Jaime ser o meu avô? Podia, mas não era, era outro, que emocionou tanto o autor, quanto o meu avô me emocionou a mim.

Não consigo ler Lobo Antunes noutro sítio, senão no comboio. As palavras dele têm que ter sempre como pano de fundo uma paisagem fugidia e o trepidar do comboio a embalar-me. Doutra maneira, não consigo.

A senhora rezava, sim ela lia a Bíblia em tom de reza, baixinho, só para ela. Havia um terço escondido numa das mãos... Seria medo da viagem? Ou do que a esperava à chegada? Ou nem sequer seria medo, mas a procura de algum conforto?

Olhei para nós...
As palavras do seu Deus comoviam-na e, no entanto, ela segurava-o nas mãos.

Vi-nos ali tão iguais...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Quando as Cabeças de Uns são os Degraus de Outros

O humilhador compulsivo é, na sua grande maioria, profundamente frustrado e também já foi, talvez em tempos, muito humilhado. Mas este facto não lhe dá legitimidade, nem desculpa, para utilizar as fraquezas dos outros como fonte de alimentação da sua fraca auto-estima.

O humilhador compulsivo aproveita o mínimo deslize, daquele que julga ser melhor do que ele, para se engrandecer e para se ver subir na escala por ele próprio delineada. No fundo, ele detesta-se, sente-se medíocre e a única forma que encontra para combater o ódio que nutre por si próprio, é rebaixando os outros, é denegrindo a imagem dos outros. 
Geralmente, ataca quem julga mais susceptível, apesar de melhor no seu entender, susceptível, para que a sua relativa e suposta grandeza seja observada por quem deseja impressionar e, por si próprio. Ridiculariza, despreza e corrói os sonhos e aspirações de alguns para se sentir poderoso e tirar do chão o seu amor-próprio quase inexistente.

Às vezes, escolhe crianças como vítimas da sua cruel humilhação, e escolhe-as porque são susceptíveis. E, sem sequer se aperceber, diminui-se, reduz-se a qualquer coisa ainda mais baixa do que aquilo que sente. No uso de uma autoridade exagerada e ridícula, vê a sua ascensão suprema, que na realidade não passa de um amontoado de complexos de inferioridade que ganham corpo e voz de gente.

Se, pelo contrário, tentasse aproveitar as qualidades que tem (porque os humilhadores compulsivos também têm qualidades, só não estão é conscientes delas) para se afirmar e para se aceitar, acabaria por se sentir melhor e escusaria de maltratar os outros injusta e impunemente.

Ele crê que só olhando os outros de cima, pondo-os para baixo, pode atingir um nível superior, o que não é de todo verdade, pois ele pode olhar os outros de frente se tiver consideração e se gostar do "eu" que tanto o revolta.

No entanto, e apesar da carapaça de ferro que ostenta, ele é extremamente frágil e, ao mínimo abanão, parte-se com facilidade.
Quando as cabeças dos outros, que ele pensa serem degraus, se viram, deparam-se com mil cacos para apanhar, que apanham, num derradeiro gesto de altruísmo e piedade. E o ser humilhador, que não mais precisa senão de colo e valorização, fica tal e qual um menino implorando por um pouco de amor...

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Amor-Perfeito

Se antes de ser mãe sonhei em vir a ser uma súper mãe ou situar-me o mais próximo possível da perfeição. Actualmente, tenho vindo a  mudar a minha visão relativamente ao perfeccionismo neste papel.

Hoje, acho importante sermos imperfeitas. Mostrar as nossas fragilidades, erros e autenticidade é essencial nas mães (e nos pais). 
Não me custa admitir que errei, nem dizer que não sei, afinal não sou nenhuma Deusa, sou humana, e penso que é crucial o meu filho ver-me como tal.
Sei que ele me toma como barómetro da gravidade das situações. Sei que ele vê em mim se tem ou não que se preocupar com determinados acontecimentos e, por isso, pode tornar-se necessário ocultar-lhe algumas emoções menos positivas que sinta, mas apenas para o proteger de preocupações desajustadas à sua idade.
Por vezes, consigo fazer este exercício... Outras vezes, ele decifra na minha expressão facial tudo o que me vai na alma. 

Num dia destes, disse-me:
- Mãe, porque estás com essa cara?
- Só tenho esta!
- Não, tens a a rir, a zangada e a assim!
E era verdade, a minha cara assim, era uma cara de preocupação, que ele já sabe tão bem distinguir de todas as outras minhas caras. Sou expressiva mesmo contra a minha vontade e ocultar emoções não é o meu forte, mas se algumas vezes sinto necessidade em evitar preocupá-lo com aquilo que me perturba, outras acho que ele deve estar consciente que existem coisas que nos fazem pensar, duvidar e até errar.

Não sei tudo, nem faço sempre o que é mais correcto, falho várias vezes e acho importante que ele tenha essa percepção para que não tenha uma imagem de mim como alguém infalível ou divino. Imagem esta, que ao mínimo descuido, se desmoronaria facilmente e me desacreditaria completamente perante os seus olhos, provocando-lhe uma desilusão profunda e de difícil recuperação. Tal como não acredito que mascarar-se demasiado a realidade aos olhos das crianças, com fantasias idiotas, contribua com algo de positivo para o seu crescimento e evolução, também não acredito que fomentar-se uma imagem de pais omnipotentes lhes possa proporcionar um crescimento mais saudável.
Penso que o meio-termo é o objectivo a alcançar. Talvez não seja sempre possível, talvez até seja o mais difícil de conseguir, mas acho que se os nossos filhos perceberem precocemente que somos humanos, que também falhamos, mas que as nossas intenções são sempre as melhores no que lhes diz respeito, poderão aceitar-nos com maior facilidade, sem ressentimentos, sem mentiras, com amor-perfeito, que afinal é repleto de imperfeições...

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Agamémnon - Vim do Supermercado e Dei Porrada ao Meu Filho

Mais uma vez, fui ao teatro e trouxe de lá uma história para pensar.
Não só sobre o conteúdo em si, pois o assunto que aborda já anteriormente preenchia as minhas dúvidas, exaltações, indignações, mas sobre a forma como parte do público encara o teatro.

A peça é pesada, mexe connosco, utiliza elementos tabu como crianças, comida, livros, palavrões. Elementos estes que não nos deixam indiferentes e fazem-nos pensar, fazem-nos remexer nas nossas vidas , interrogarmo-nos sobre o que andamos aqui a fazer e sobre o significado de um mundo industrializado demais, capitalista demais, onde apenas consumimos e não criamos nada, porque já está tudo criado, pronto a digerir o mais rapidamente possível e antes que arrefeça, pois mal arrefeça passa a ser inconsumível.

No final da peça, tivemos a oportunidade de ter uma conversa com o actor (Gonçalo Waddington), o encenador (John Romão) e a assistente de encenação (Solange Freitas). Fizeram-se perguntas, cujas respostas foram extremamente esclarecedoras para mim, porque me deram a conhecer outras perspectivas do que tinha acabado de ver. Mas alguns elementos do público, revoltados com a presença das crianças, da comida e dos livros, deixaram-nos perceber que devem ter-se enganado na porta e que o lugar para onde se tinham preparado para ir não era o teatro, talvez o cinema, onde assistiriam a uma comédia romântica sensaborona que os faria rir ou chorar por segundos e de que se esqueceriam no momento preciso em que entrassem no carro de volta às suas vidas insípidas.

Não sou especialista em teatro (já o disse aqui), mas cada vez, o aprecio mais. Cada nova peça a que assisto e que mexe comigo, faz-me sentir mais rica, cultural e humanamente mais rica. Gosto de vir cheia de dúvidas e de respostas e as respostas não precisam de ser àquelas dúvidas, podem ser a outras que já moravam na minha mente há algum tempo.

E choca-me, isso sim choca-me, que haja gente que sai do teatro igualzinha ao que era quando lá entrou, que não cresça nem um bocadinho, que não aproveite a experiência que acabou de vivenciar... 

Devo informar essas pessoas que, como eu, foram ver esta peça, mas que, por alguma razão que desconheço, não a viram realmente:

- O Teatro não nos deixa incólumes, deixa marcas... Marcas que, de preferência, serão para sempre! 
   Para a próxima, não digam que não vos avisei!

Imagem descaradamente roubada do perfil de
Gonçalo Waddington no Facebook

A quem interessar, esta peça está em cena até 28 de Abril, no Teatro da Politécnica.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Chuva

Sou mulher do Verão. Gosto do calor, de o sentir entrar-me pelos ossos adentro, de andar o mais despida possível, leve e com os músculos distendidos.
Detesto o frio. Fico encarquilhada, contraída, com demasiada roupa.

Mas a chuva seduz-me... Adoro andar à chuva, senti-la lavar-me a roupa, o corpo e a alma. 
Quando era pequena, perdia um guarda-chuva quase todas as semanas de Inverno e voltava para casa à chuva. Ficava encharcada, mas feliz. A sensação da roupa colada ao corpo, fazia sentir-me bem.

Tenho saudades de me molhar sem nem dó nem piedade, de enfrentar o caminho regada pelas lágrimas do céu, de pôr a língua de fora e bebê-las como se só elas pudessem matar-me a sede.
Tenho saudades de ter cabelo a pingar e de sujar a roupa na relva molhada, de me rebolar no chão, sem que alguém me olhe de esguelha ou me chame de louca. Tenho saudades dos pequenos prazeres que encostamos a um canto da nossa vida, porque crescemos e porque a idade adulta nos diz "já não tens idade para isso!".

Como eu gostava de tomar banho no mar em dias de chuva, sentir a água por todos os lados do meu corpo despido e mergulhar... Podia mergulhar no céu que se unia ao mar e no mar que me levava, a cada onda. Sentia-me limpa por dentro, como se a água entrasse no meu ser e o lavasse.

Tenho saudades da inocência e da ingenuidade de criança, tenho saudades da Vida verdadeira...

...e da Verdade da Vida.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A Língua e a Gente

Hoje, quando fui buscar o J. à escola, "apanhei" os meninos do pré-escolar a saírem e a serem entregues aos pais por uma senhora que penso que seja a auxiliar da educadora de infância (não sei qual é nome técnico).
A dita senhora pegava nos miúdos, um a um, e entregava-os aos respectivos pais. Até aí, tudo bem!

Chega a vez de um certo menino e ela, quando o entrega à mãe, diz a título de recado:
-Hoje devias de levar que portastestes mal!
Aquilo caiu-me tão mal! Além de estar, literalmente, a assassinar a nossa querida língua que não tem culpa nenhuma que o miúdo se tenha portado mal, estava a incentivar a mãe a bater-lhe e a ameaçá-lo indirectamente.
Mas a senhora não se ficou por aqui... Continuou a atirar em todas as direcções:
- Oh Nãoseiquantos, larga a árvore! Olha, que eu vou dizer à Iana que a estragastes!
Mais uma ameaça e, desta vez, acompanhada de chantagem! E a língua, coitada, já jazia inerte no chão e implorava para não a maltratarem mais.

E claro, eu fiquei a pensar (tens que te deixar dessa estúpida mania de pensares em tudo, mulher!) que o ensino e a educação daquelas crianças devem ser de altíssima qualidade e que o Ministério da Educação está a apostar forte em pessoal qualificado! 
Bravo!!!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Esta Coisa Que É Ser Mãe

O meu filhote está a crescer a uma velocidade inacreditável! Ele cresce tão rápido que eu já não o consigo acompanhar!

Isto de se ser mãe tem muito que se lhe diga e, quando somos mães de um só filho, parece-me que ainda é mais complicado. Cada etapa é uma incógnita, uma descoberta, não temos tempo para prever ou para nos preparamos para o que vem a seguir.

As mães (e pais) de mais do que um filho vão acumulando experiências que lhes vão dando algum know-how para os filhos seguintes, além de terem preocupações a dobrar, triplicar ou xxxar das que nós, mães de um único filho, temos. Elas (a partir do segundo filho) têm um conhecimento de causa, que nós nunca teremos. E, como a maior parte delas tem o segundo quando o primeiro ainda é pequeno, não passam por estas crises, porque o stress de ter mais do que uma criança para criar não as deixa.

Eu, que não programei o nascimento do meu filho e que o contacto que tinha com outras crianças não estava nada desperto para as suas características e necessidades, fui apanhada de surpresa. Como só tenho uma criança com que me preocupar (e o gato, e a égua), vou pensando, pesquisando e tentando perceber as várias etapas da vida do meu filho em particular e das crianças em geral.
Toda a beleza da descoberta do meu papel de mãe foi acompanhada pela insegurança de não saber o que fazer com aquela coisinha pequenina que me tinha caído nos braços. 
À medida que o meu filho foi crescendo, eu fui crescendo com ele, como mãe, mas essencialmente como pessoa. (Se ele soubesse o que tem contribuído para o meu crescimento, sentir-se-ia meu pai!)

Neste momento, tem-me sido particularmente difícil acompanhar o seu crescimento. 
Num abrir e fechar de olhos, ele já está a pôr perfume, todos os dias, debaixo dos braços como o pai põe o desodorizante. 
Da noite para o dia, ele vem falar-me de política como se fosse um entendido. 
Sem que eu me apercebesse, ele passou a considerar-se um rapaz e a sentir uma certa distância das crianças mais pequenas. 
Hoje de manhã, disse-me:
-O pai, às vezes, é um bocadinho tontinho, não é?
-Tontinho? Porquê?
-Ele, ontem à noite, disse-me "vá, faz lá ó-ó!"! Ó-ó é para os bebés. Eu já não sou bebé! Sou um rapaz!

Pois é, ele já é mesmo um rapaz. 
E, qualquer dia, eu vou entrar na casa de banho e ele vai estar lá... a fazer a barba!

Medo!!! 
Confesso que tenho um medo de morte da adolescência dele! 
O rapaz tem sido tão fácil de aturar, que acho que, quando ele chegar à adolescência, vai fazer todas as asneirolas a que nos tem poupado!


sábado, 14 de abril de 2012

A Incoerência que as Relações Reflectem

Talvez por ser do signo de caranguejo, talvez por ser uma romântica inveterada, talvez apenas por dar muita importância às relações e ao amor, presto especial atenção às relações alheias.

Ultimamente, tenho reparado que a grande maioria das pessoas mantém relações demasiado convencionais. Pessoas com ideias vanguardistas, que são, na sua generalidade, cultas, informadas e que lutam por ideais como a igualdade, a fraternidade e a não discriminação sexual, racial ou social, na intimidade são tão convencionais como quaisquer outras, cujos ideais sejam exactamente os opostos.
Tenho reparado que essas pessoas (que eu admiro pelas mais variadas razões) alimentam, e vivem, relações marcadamente sexistas, onde a mulher trata e controla tudo o que tem a ver com a casa e os filhos, e o homem fica encarregue da manutenção do carro e da bricolage. Estes casais, nas festas ou jantares, separam-se e, as mulheres juntam-se a um canto (normalmente na cozinha) a discutir receitas e marcas de roupa e cosmética, enquanto os homens se unem para falarem de jogos de futebol e política.
Faz-me um bocado impressão que pessoas tão avançadas no seu tempo em determinadas áreas da vida, sejam tão aborrecidas, convencionais e conservadoras noutras.
Parece-me incoerente o facto de não levarem o seu progressismo para a intimidade do lar, provoca em mim uma descrença na sua verdadeira essência e na originalidade e franqueza das suas ideias. Soam-me artificiais e plásticas quando lutam tão veemente pela igualdade entre homens e mulheres e depois, dizem cheias de orgulho, que são elas que escolhem a roupa que os maridos vestem, todos os dias, ou eles se vangloriam de não saberem fritar um ovo.
Se aceito, sem sequer esboçar um guinchinho para criticar, estas atitudes em pessoas da idade dos meus avós, em pessoas cujos ideais são marcados pela defesa da desigualdade entre pares ou de ideias fundamentalistas, estas mesmas atitudes em pessoas que, como eu, não suportam qualquer tipo de discriminação, parecem-me demasiado ilógicas.

Além de toda a incoerência latente destas relações, relativamente ao que as pessoas acreditam e defendem socialmente, pergunto-me o que será o amor para quem as mantém...

Para mim, o amor tem que ter obrigatoriamente partilha, e essa partilha estende-se às tarefas domésticas (tanto partilho com o meu parceiro o tratamento da roupa, como a lavagem do carro; tanto pinto eu a parede do quarto, como faz ele o jantar) e aos convívios entre amigos (tanto estamos os dois na cozinha a falar com as mulheres, como estamos os dois, na sala, a falar com os homens; tanto tem ele um bate-boca com a anfitriã, como tenho eu uma discussãozinha privada com o anfitrião). E não é por isso que nos fartamos um do outro, ou que deixamos de ter a nossa individualidade; e não é por isso que não cuidamos um do outro, ou nos amamos menos do que as outras pessoas.
Usamos em casa, aquilo que defendemos fora dela, sentimo-nos bem connosco próprios e um com o outro e, não quero dizer com isto, que sejamos melhores do que as outras pessoas (não somos!) ou que a nossa relação seja perfeita (não é!), mas pelo menos tentamos, a todo o custo, mantermo-nos coerentes com aquilo em que acreditamos.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

"As Manequins Não Passam de Cabides!"

Esta frase foi dita por um conceituado designer, cá da praça, numa aula do meu curso de manequim.
(Não vou dizer o nome dele, porque, como é famoso, podia gerar polémicas desnecessárias e a minha intenção não é essa.)

Esta frase provocou a indignação, se não o choque, de muitas das minhas colegas de curso. Como podem imaginar, a maior parte delas eram teenagers à procura de realizar o sonho de ser manequim que idealizavam um mar de rosas, colorido e deslumbrante.

Eu, um pouco menos teenager, porque mais velhita (tinha quase o dobro da idade da maioria delas) e porque menos crente nos encantos da profissão, concordei com ele. 
Se nos debruçarmos sobre o assunto, chegamos à conclusão que ele tinha razão. Talvez a maneira como o disse não tenha sido a mais correcta. Foi um pouco abrupto, atirou por terra os sonhos daquelas meninas que, ainda por cima, tiveram uma trabalheira enorme a convencer os pais a pagarem uma pipa de massa por aquele curso, fazendo-os acreditar que se tornariam na próxima Marisa Cruz. 

Mas ele estava coberto de razão! As manequins não passam de cabides e as manequins querem-se cabides! O desejo de qualquer designer é ter manequins que vistam as suas criações sem as ofuscarem. Quanto mais assexuadas, magras (para que a roupa que vestem, vistam também os manequins de montra), com boa pele (para ser facilmente trabalhada pelos maquilhadores) e bom cabelo (que aguente as tintas e os secadores dos cabeleireiros), melhor.
O principal interesse da moda é vender roupa, não é vender meninas! Por isso é a roupa que tem que brilhar, não são as meninas. 
E explicar isto a raparigas que fazem 3 horas de ginásio por dia, que comem uma maçã durante todo o dia e que vivem empoleiradas nuns saltos de meio metro, sem as magoar ou ofender? Difícil, não?

Sei que devem estar a pensar porque raio de carga de água, fui eu tirar um curso de manequim, se acho que não passam de cabides... Porque estes cabides ganham bastante bem! 
Eu também corria (quase) todos os dias, almoçava uma sopa e um café, jantava pouco mais e a única coisa doce que comia eram bolachas de aveia de tempos a tempos.
Com isto, consegui enfiar-me em roupa de tamanho 36 e nada mais. 
Se valeu a pena o esforço?
Não!
Engravidei antes da passagem de modelos de final de curso e nunca cheguei a ser manequim, nem a recuperar o meu rico dinheirinho.
Mas nem tudo foram espinhos e aprendi algumas coisas interessantes que hoje ainda me dão bastante jeito.

Se as minhas colegas me impressionavam, as meninas/mulheres que não têm no horizonte ser manequins, e que vivem amarradas a um estereótipo de beleza, que de beleza nada tem, ainda me impressionam mais... 
O culto do corpo esquelético e sem formas, que exige uma vida anoréctica, a privação constante de pequenos prazeres e litradas de suor despendidas sem paixão, para o manter, aflige-me, e muito!

Será que não percebem que, tal como um monte de banha, um monte de ossos não é bonito?

Atenção, não tenho nada contra quem é magra ou gorda por natureza, ou contra quem engorda ou emagrece por culpa de um sistema nervoso alterado, mas condicionar-se uma vida para se atingir um nível de beleza, que nem sequer é bonito... Sofrer-se a rodos em prol de algo tão ilusório, e palerma, como igualar-se a um esqueleto andante, definitivamente, ultrapassa-me!

Imagem retirada da Internet

quarta-feira, 11 de abril de 2012

De Volta à Minha Velhota

Este fim-de-semana, fomos visitá-la.

A minha velhota, em tempos foi uma égua cheia de energia, que trotava quase em passage quando estava excitada e galopava de cauda levantada fazendo jus a algum do sangue árabe que lhe circula nas veias.

Quando os meus pais ma compraram, com seis anos, por 400 contos (sim, ainda eram contos e já lá vão 17 anos), ela tinha acabado de chegar à idade adulta e, como jovem que era, assustava-se com tudo o que mexia. Ora era uma folhinha que abanava com o vento, ora era uma poça de água que reflectia o sol, ora era qualquer coisinha que só ela via, mas que devia ser deveras intimidadora...
A relação dela com as poças de água era tortuosa, pois fazia uma ginástica incrível só para não molhar o pezinho e eu, lá em cima, via-me grega para a conseguir levar a direito em dias de chuva.

Esta velhota ensinou-me a montar. Suportou a minha mão que se agarrava à boca dela, através das rédeas, numa procura incessante por equilíbrio, aguentou as minhas quedas, esperando por mim um pouco mais adiante, caiu comigo uma ou outra vez e tolerou todas as minhas nabices de cavaleira inexperiente. Acompanhou a minha evolução enquanto cavaleira e enquanto pessoa...

A minha égua está velha e cansada.
A idade está a roubar-lhe a energia, aquela energia que nos levava, às duas, pelos campos, que nos fazia saltar obstáculos, que me enchia os olhos de lágrimas ao vê-la galopar que nem uma doida ou rebolar-se no chão a seguir ao banho...
Ela, quando nova, não fazia fitas para entrar em atrelados. Adoptava os filhos das outras éguas, brincava com eles e ensinava-os a comportarem-se em manada e, quando era montada por crianças ou por cavaleiros com pouca experiência, sabia que tinha que andar com mais cuidado.

Esta égua só não foi um cavalo brilhante em equitação, porque quem a montava nada tinha de cavaleira brilhante. Gostar excessivamente de cavalos nunca me deixou ser boa cavaleira. Para isso eu teria que gostar um bocadinho menos deles e mais de montar, mas a minha paixão sempre foi o animal, não o desporto...

Hoje, guardo na memória cada cavalo que conheci como se de pessoas se tratassem e a minha velhota ficará sempre naquele grupo que reservamos para a família mais chegada ou para os melhores amigos.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Rogério

Rogério era um rapaz com trinta e poucos anos, cheio de vida, sonhos, esperanças e anos pela frente. Rogério não me era intimo, mas unia-nos a cruz da doença oncológica. 
Fui encontrá-lo no hospital, no mesmo hospital onde a minha mãe estava internada por doença oncológica. 
Rogério tinha um linfoma, mas ao contrário do meu, o dele era não-Hodgkin, pior do que o Hodgkin e no pulmão.
Quando visitava a minha mãe, visitava-o a ele também. Tentei fazê-lo crer que se podia curar. Tentei que acreditasse que não estava condenado e acho que ele acreditou, pois nunca o vi desanimado, mas sempre a olhar em frente com esperança, projectos e vida.
Rogério morreu com trinta e poucos anos, apesar dos muitos mais que tinha pela frente. Rogério não se curou e o cancro acabou por levar mais um de nós.

E eu apercebi-me que, na realidade, o tinha enganado...

Não Será?

Não será a loucura muito mais lúcida do que a própria lucidez?

quinta-feira, 5 de abril de 2012

... 3 ... 2 ... 1

Estou furiosa! O mais furiosa que possam imaginar!
Não sou partidária, apesar de simpatizar mais com alguns partidos políticos do que com outros, mas estou completamente e assumidamente contra as políticas do Ministério da Saúde português.
O pior que este governo podia ter feito, e fez, foi pôr um gestor à frente do Ministério da Saúde a dar cabo do SNS.
Este senhor quer matar-nos, sim matar-nos!
Não sei se não seria mais honesto da parte dele, arranjar umas câmaras de gás e atirar todos os doentes lá para dentro, do que andar a tirar direitos e apoios a quem deles necessita e que, ainda por cima, é ou está doente.
É desumano e vergonhoso!

O SNS não é uma instituição com fins lucrativos. Não se pode querer obter lucros com a saúde, a saúde é um direito da população! Fabricarem-se regras e normas para que as pessoas não possam usufruir do seu direito à saúde, é homicídio, ou melhor, genocídio!

Os médicos de família deixaram de ver exames ou de passar credenciais fora das consultas e, só se consegue marcar consultas para quando já se tiver morrido do mal que nos levou a precisar de ir ao médico. Isto, para as pessoas irem a médicos particulares e fazerem exames por conta própria, ou para morrerem de uma vez por todas, porque se não podem contribuir com trabalho (ou dinheiro) para o Estado Português (que, não sei se já repararam, mas agora já nem se chama Estado, passou a ser denominado Governo de Portugal), pelo menos não lhe dêem despesas.
Resumindo, para poupar!

Os médicos têm metas de produtividade. Produtividade, sim! E querem que eles produzam o quê? Que dêem o maior número de consultas no menor tempo possível, ou seja, que coloquem os doentes numa linha de montagem e lhes receitem um medicamento qualquer, de preferência um dos que não são comparticipados, que usem a menor quantidade possível de material, (como por exemplo, compressas, algodão, etc.) e os despachem para casa rapidamente e, se os doentes ficarem insatisfeitos com o tratamento administrado, melhor, pode ser que assim se decidam a desistir do SNS e resolvam fazer um seguro de saúde, continuando, claro, a descontar exactamente o mesmo para a Segurança Social.
Estas metas de produtividade contribuem para que os médicos deixem de olhar para os doentes com olhos de ver, porque ainda têm centenas para atender a seguir; para que evitem fazer tratamentos mais eficazes, com medo de gastar material em demasia; para que o seu cansaço se reflicta em decisões menos pensadas e, por vezes, até erradas.


E a causa de tanta insensibilidade é esta sociedade, a mundial, que está mais doente do que todos os doentes juntos, porque só pensa em Euros e Dólares (em ganhá-los, em produzi-los e em poupá-los) e descura a Humanidade e a Natureza, que são os verdadeiros, e únicos, factores que sustentam a Vida.

Se continuarmos assim, daqui a uns anos, quero ver quem é que vai cá ficar a usufruir de tantos Euros e Dólares...

Eu não vou ser de certeza, porque eu, como doente, sou um alvo a abater, nos próximos...

...  3  ...  2  ...  1

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Arte

Num destes fins-de-semana, fomos ao Museu Berardo tirar a barriga de misérias culturais. Queríamos ver a exposição do BES Photo.
Gostamos de fotografia, por isso, tudo o que são exposições da dita cuja, lá estamos nós, mas o J. anda a perder a paciência para tanta fotografia. Então, quando o informámos que íamos ver mais uma, disse:
-Não!!!! Não quero ir, já estou farto de ver fotografias!
Ao que nós respondemos:
-Mas nós não e como não podes ficar em casa sozinho, vens connosco!

E lá fomos nós, com ele todo chateado...
Quando chegámos, ficou mais animadito. Apesar de estar farto de fotografias, diverte-se sempre que vamos ao Museu Berardo.
Vimos a exposição de fotografia num instante, eu e ele, porque o pai demora mais um bocadinho, devido a ser o apreciador-mor da coisa.

De seguida, fomos ver a exposição permanente. Mal entrámos, o J. diz:
-Isto sim, já gosto de ver. Eu gosto é de arte!
Ainda tentei explicar-lhe que a fotografia também é uma forma de arte, mas não adiantou grande coisa, para ele, ver fotografias só vale a pena se o fotografado for (adivinhem) ...
... ele próprio.

Na exposição permanente, cada quadro colorido que observámos, ele dizia "olha, este ficava bem na nossa sala", "este punha-o no corredor", "quero este para o meu quarto".

Quando chegámos a uma escultura, instalação, ou lá o que é aquilo, que consiste num frigorífico todo amachucado por calhaus que lhe foram atirados (pode-se ver um vídeo que demonstra como chegaram àquela peça divinal), o J. pára e fica a ver.
-Gosto desta! - diz.
-Eu não, não acho piada nenhuma...
-Vamos ficar a ver.
Ficámos, um bocadinho, porque eu não tenho paciência para ficar dez minutos a ver dois gajos a atirarem pedras a um frigorífico e, ainda por cima, já tinha sido enganada uma vez em que aturei o vídeo até ao fim.
Seguimos para a próxima, e para a próxima, e para a próxima... Cada peça que víamos, o J. inventava uma utilidade para ela...
-Esta podia ser uma pista de carros... Aqui, podíamos pôr as pessoas a assistir à corrida, os carros andavam às voltas... Não era giro, mãe?
-E estas luzes? São giras não são, mãe?
-Gosto desta, é tão grande!

Seguimos para a próxima exposição, Propaganda de Guerra.
Explicámos ao J. o que tratavam os cartazes de propaganda de guerra, contámos-lhe o que foi a 2ª Guerra Mundial e apresentámos-lhe o Hitler. Ele, todo interessado, fazia perguntas atrás de perguntas...
-Se eu visse o Hitler, sabem o que lhe fazia? Dava-lhe um murro assim, outro assim e outro assim! Só me apetece rasgar estas fotografias todas dele!
O rapaz saiu da exposição transformado num verdadeiro membro da Resistência, pronto a combater contra o primeiro Nazi que lhe aparecesse à frente.

Realmente, a arte faz mesmo mal às criancinhas, dá-lhes informação, conhecimento, espírito crítico e transforma-as em pequenos demónios que até usam a cabeça para pensar sobre as coisas...
Acho muito bem que, neste país, não se aposte nada nas diversas formas de arte, nem na cultura de um modo geral. Caso contrário, correríamos o risco de torná-lo num país de gente que pensa e, quando as pessoas pensam são um perigo, porque até podem vir com aquelas ideias de revoltas ou outras assim do género...
E um governo consciencioso, deve temê-las, e muito!!!!

domingo, 1 de abril de 2012

Singularidades de uma Esquisitinha ou Esquisitices de uma Singularzinha

Já disse aqui que não gosto de abraços ou que me dêem cotoveladinhas enquanto falam comigo, mas o que eu ainda não disse, é que também detesto que se encostem a mim nas bichas do supermercado. 
Assim, vou dizer agora:

DETESTO QUE SE ENCOSTEM A MIM NAS BICHAS DO SUPERMERCADO!

Geralmente, quem se encosta a mim são aquelas senhoras que estão "cheias de pressa" para irem fazer o almoço ou o jantar, ou qualquer coisa tão importante quanto isso, e que acham que colando-se a mim vão chegar mais rápido a casa.

Pois não vão!

Desenganem-se senhoras, porque o melhor que vos posso oferecer ao colarem-se-me é, no dia em que a minha paciência pedir a demissão, levarem um olhinho negro para mostrarem ao marido quando chegarem a casa e, com isso, conseguirem um mês repleto de lamentações e histórias gratuitas para contarem às vossas amiguinhas igualmente autocolantes!

Se eu fosse um rapaz jeitoso, um trintão charmoso ou alguém cheio de dinheiro nos bolsos ainda compreendia os vossos avanços...
Mas não sou, sou uma gaja sem grandes atractivos que vos possam interessar (ou interessam? É que a minha experiência com homossexuais, diz-me que as lésbicas normalmente não se sentem muito atraídas por mim, porque sou grande como um homem, e os gays também não, porque apreciam anormalmente os meus namorados e, para eles, eu estou ali só a estorvar), que também não tem cheta ou jóias suficientemente caras que valham o esforço de as tentarem roubar...
Sinceramente, não entendo qual é a vossa intenção quando se colam, tão convictamente, a mim...

Devo avisar-vos, senhoras autocolantes, para depois não me espetarem com um processo em cima por publicidade enganosa, que podem empurrar-me à vontade, que eu não me vou despachar mais rápido, antes pelo contrário, se me empurrarem, eu começo a pôr as compras na passadeira em câmara-lenta, só para vos enervar; que podem chegar-se muito perto, que eu não vos vou saltar para o colo aos beijos e aos abraços; que podem até cheirar-me, mas informo já, que há dias em que não tomo banho e, at last but not least, que podem pôr-me a mão no bolso, que a única coisa que talvez encontrem por lá é lista das compras.

Cromas amigas, não sei se depois de tanta informação, continuarão a escolher-me para ser a caderneta à qual se desejam colar, mas caso eu não tenha conseguido dissuadir-vos de se me aderirem, relembro o olho negro e que a minha paciência está a um milímetro de se tornar subsidiodependente.

Por isso, "DESLARGUEM-ME"!



(Com tanta esquisitice a que me tenho dedicado a relatar, começo a achar que o nome deste blogue devia ser mudado...
Que vos parece "Singularidades de uma Esquisitinha" ou "Esquisitices de uma Singularzinha"?)