sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

As Aparências Iludem...

Como já devem ter reparado, não sou grande apreciadora de roupa, acessórios, produtos de maquilhagem e afins. 
No entanto, tirei um curso de manequim há uns anitos, por isso sei o que está correcto usar-se nas mais variadas situações, aprendi a andar de saltos altos como se estivesse numa passerelle (apesar de não apreciar acrescentar centímetros aos meus 1,80, nem dar muito nas vistas), tenho uma das mães mais arranjadas cá da praça, que é uma fervorosa apreciadora de uma aparência cuidada, conheço as regras de etiqueta, que me foram impingidas, pela minha avó, desde tenra idade, mas gosto mesmo é de me sentir o mais confortável possível. Deste modo, não invisto em roupas caras ou chiques, nem em tratamentos de beleza. Sinto-me melhor se não tiver os pés doridos, se tiver a cara lavada, se não tiver frio ou calor...

Porém, sei arranjar-me quando é preciso e, ultimamente tenho tido necessidade disso por estar em formação numa determinada área profissional. 
Neste últimos 15 dias, tenho-me vestido como "uma senhora" e tenho notado uma grande diferença na maneira como as pessoas lidam comigo. 

É incrível o poder da aparência nas relações interpessoais!

Eu sou precisamente a mesma pessoa, nem mais nem menos simpática, nem mais nem menos educada, nem mais nem menos bonita (ou feia, como quiserem). Sou eu, igualzinha ao que sempre fui, apenas com mais uns centímetros, um risco nos olhos, rímel e um fatinho politicamente correcto. As pessoas, que nunca me falavam na rua, apesar de me conhecerem há 500 anos, passaram a cumprimentar-me com uma espécie de vénia; os homens foram, de repente, atacados por uma onda de cavalheirismo e abrem-me as portas, dão-me passagem e pagam-me cafés; as mulheres falam-me com um excesso de boa educação e uma quase subserviência ridícula...
E eu, que detesto cavalheirismo por achar que se queremos igualdade temos mesmo é que ser iguais e não exigirmos patacoadas machistas como as que as boas maneiras impõem, que detesto relações fictícias e uma boa educação apenas baseada em estatutos sociais, ando-me a rir com esta parvoeira toda!
Mas rio-me sob uma tristeza imensa ao constatar que este pessoal só vê pacotes, cujo conteúdo não lhes interessa nada, e que ver para além do que lhes é introduzido olhos adentro não é definitivamente um dos seus objectivos. Ficam-se simplesmente à entrada da porta, deslumbrados com uma mansão que é, na realidade, uma casinha modesta ou vêem uma casinha modesta quando estão perante uma mansão! Têm opinião sobre tudo, e mais alguma coisa, como se tivessem entrado e vasculhado cada cantinho da casa e, cá de fora da porta, vão mandando bitates em tom de perito... E mandar bitates chega-lhes. Sentem-se importantes conhecedores de um redondo nada, não vêem nada nem querem ver, querem ser deslumbrados por qualquer coisa, nem que essa coisa não passe de uma miragem!

E uma profunda descrença invade-me... Descrença nas pessoas, descrença no mundo, descrença na verdade de cada um de nós e na verdade de todos nós juntos, descrença na Humanidade...

Mais uma vez, fico afligida com a superficialidade das pessoas e, mais uma vez, penso "menina, é este o mundo em que vives. É bem melhor que comeces a aceitá-lo, ou não passarás de uma infeliz sempre revoltada!".

5 comentários:

  1. Tem graça, porque nos últimos dias tenho pensado exactamente nisso. Ultimamente também me tenho arranjado mais, metido uns saltinhos e é impressionante a diferença de como somos tratadas ou da quantidade de vezes que levamos uma olhadela na rua. Realmente essa situação preocupa-me porque demonstra que muitas das vezes as pessoas moldam o seu modo de falar tendo em conta a apresentação da pessoa. Se o visual não lhe agrada então certamente não merece melhor tratamento, se está bem vestida, então aí sim vai ser tratada como uma rainha...Mas no final de contas a pessoa é a mesma, e ninguém se preocupa por perceber se a pessoa, ou melhor se o interior da pessoa vale a pena. O que interessa é a aparência e isso é uma pena em pleno séc. XIX...

    Beijinho*

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  2. Pretty in Pink,
    Estamos sintonizadas no mesmo posto! :)

    Quando as mentalidades não acompanham as outras evoluções, as coisas não podem correr muito bem...
    Isso tem-nos sido mostrado em várias áreas da vida, até que seja suficientemente claro para que os governos decidam fazer alguma coisa, ainda vai levar muito tempo, tempo demais. E depois há sempre o interesse de manter as pessoas de olhos bem fechados...
    :(

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  3. Primeiro que tudo, tens 1,80?! Que inveja!!!!!! Sou tão baixinha tenho 1,62:/ Mesmo assim não uso sapato alto ando demasiado ao dia para meter nessas coisas.
    Quero falar-te de uma recordação que tenho quando os meus pais estavam a fazer a casa. Estava eu na rua com a minha vizinha a espera do vendedor de cozinhas, quando aparece um homem numa super moto, vestido de cabedal que afinal era o vendedor de cozinhas e o comentário da minha vizinha foi:"Aquele é que é o vendedor?! Não tem nada aspecto disso, nem sei como consegue vender cozinhas". Não me lembro de ter respondido, lembro-me de me ter desmanchei a rir.
    Se fosse um homem cheio de dinheiro e famoso ninguém lhe diria nada e todos tratariam com respeito, mas como é uma pessoa como qualquer outra tem de seguir certas "regras". Sociedades...

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  4. Art and Life,

    Sociedades... É a nossa sociedade, infelizmente!
    Bjs

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  5. Art and Life,
    Sim, tenho 1,80cm, mas como podes ver aqui: http://sermaeetramado.blogspot.com/2011/12/das-alturas.html
    nem sempre o encarei como um facto muito positivo...
    :)
    Bjs

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Vá lá, digam qualquer coisinha...
...por mais tramada que seja...