segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A Malinha

Imagem retirada da Internet 

Ao contrário do mais comum dos mortais, o meu filho não precisa de ar para respirar, em vez de ar, ele respira basquetebol por todos os poros.

Ele sabe os nomes das estrelas da NBA antigas e actuais, os nomes dos clubes, o ano em que o Michael Jordan deixou de jogar, encesta com uma bola imaginária a cada cinco minutos, saltita entre o cesto e a bola minúscula que tem no quarto, o jogo da NBA da Playstation e os jogos de basquetebol que dão na televisão e no tempo livre que lhe resta, tem treinos, jogos e pede-nos para irmos com ele a um cesto que há na rua, aqui perto de casa.
Tirem-lhe o basquete e ele fica em hiperventilação.

Tem o seu futuro meticulosamente programado. Vai jogar na NBA quando tiver exactamente 21 anos. Para isso, vai primeiro estudar para a universidade de Alabama nos EUA, a fim de ser seleccionado como jogador dos Miami Heat na NBA.
Tudo muito bem pensado e fácil, fácil de se realizar...

Expôs-nos este seu projecto de vida com a simplicidade com que só uma criança de 7 anos pode ver a vida.
Começámos a fazer-lhe perguntas para vermos até onde ia a sua determinação...
-Como vais falar com os teus colegas de equipa nos EUA? Não sabes falar inglês...
-Mas estou a aprender. Já posso falar com eles sobre o tempo. It's sunny! Vês?
-E quando nos vens visitar? Vais ficar lá muito tempo...
-Eu venho cá em Outubro, na altura do Halloween, para não estar lá a ver aquela gente toda mascarada de monstros.
-Só nos vamos ver uma vez por ano?
-Sim, porque depois eu vou ter jogos e não posso vir cá.
-E como vais estudar para os EUA? Não temos dinheiro para isso...
-Levo a malinha!
-Qual malinha?
-Aquela malinha das notas!
Comecei a fazer uma busca mental de todas as malinhas dele, sem descobrir nenhuma que tivesse notas...
-Qual malinha das notas?
-Aquela das boas notas! Vou estudar muito para ter uma malinha cheia de boas notas!
-Ah! Estás a falar de uma bolsa de estudo?
-Sim! É isso!
-Para teres uma bolsa de estudo, vais ter que trabalhar muito...
-Eu sei e vou trabalhar... Até podia tirar cá um curso antes, de jornalista, por exemplo. Quanto tempo demora esse curso?
-Três ou quatro anos.
-Então não dá! Eu vou para a NBA aos 21 e antes tenho que estudar lá na universidade. Olha, não tiro o curso para ser jornalista.

Ficámos sem argumentos...

domingo, 29 de janeiro de 2012

Avôzinho


O meu avô:
É culpado de muitas coisas... É culpado de ter sido um pai ausente, é culpado de ter sido um negociante inveterado, é culpado de ter sido um patrão sem escrúpulos, mas, para mim, a sua maior culpa foi ter-se ido embora e ter deixado o mundo mais pobre.
De tantas culpas, as que ficaram na memória da maioria de nós, foi a de pai ausente para os filhos e a de avô magnífico para os netos que tiveram a oportunidade de privar com ele.

O meu avô ensinou-me:
A chamar "bicho, bicho, bicho" aos gatos para que viessem comer;
A encher os pneus da bicicleta;
Que as plantas precisavam de carinho para crescerem mais fortes;
Que todas as ferramentas tinham um nome;
Que os gatinhos recém-nascidos, rejeitados pelas mães, tinham que ser aquecidos artificialmente para não morrerem.

O meu avô:
Comia sopas de leite com Ovomaltine ao pequeno-almoço;
Conduzia como ninguém;
Fazia uma ginástica matinal que não era mais do que um espreguiçar energético, em tronco nu, na varanda;
Tocava viola para exercitar os dedos que se negavam a responder aos estímulos da sua mente;
Contava o dinheiro que fazia nas vendas numa espécie de ritual que eu adorava: endireitava os cantos das notas, virava todas para o mesmo lado, dava umas cuspidelas nas pontas dos dedos e dedilhava-as meticulosamente numa contagem quase religiosa.
A mão peluda do meu avô, a cheirar a sabonete e com o anel de pedra preta junto à aliança agarrou-me muitas vezes o braço... Numa delas, salvou-me a vida, ao evitar que eu caísse de costas de um muro com aproximadamente 8 metros.

O meu avô:
Fazia barulho a comer a sopa;
Não dispensava um copo de vinho tinto à refeição;
Era guloso;
Dormia a sesta todos os dias, estivesse onde estivesse, dormia até em pé, nas bichas das Finanças.

O meu avô:
Foi uma das pessoas mais importantes na minha infância;
Partiu sem que eu me conseguisse despedir, talvez por negação da hipótese da sua partida;
Teve uma morte lenta e o silêncio que se impôs nunca permitiu que se queixasse;
Sofreu por todas as culpas que lhe atribuem;
Faz parte de mim e vive dentro do meu coração...

Por vezes, chamo-o nos sonhos:
-Avôzinho, diz-me tu, úh úh, úh úh!!!!


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Da Blogosfera

Sou uma novata nestas andanças da blogosfera. Este blogue ainda não fez seis meses e, antes de o criar, não costumava andar a visitar blogues. Usava o computador para trabalhar, estudar e para pesquisar coisitas na Net, nada mais.
Entretanto, fiquei desempregada, abri uma conta no Facebook, outra no Twitter, outra no Google + e criei este blogue numa noite de insónias.
O que inicialmente serviu para me distrair, começou a tomar proporções maiores e interessei-me em tentar conhecer os mais variados tipos de blogues.

Esta, foi uma boa descoberta que me tem proporcionado ter uma visão mais alargada, apesar de um pouco simplista dada a minha ignorância na matéria, deste vasto mundo que é a blogosfera.
Nesta viagem bloguótica, tenho encontrado uns blogues maravilhosos, outros nem por isso; autores que escrevem brilhantemente e outros nem tanto... Nos textos dos autores que escrevem bem, por vezes, deparo-me com coisas interessantíssimas, outras vezes, deparo-me com ideias tão tristes, que desvirtuam a própria escrita. Em contrapartida, há autores que, não possuindo o brilhantismo da escrita, têm ideias geniais...
Enfim, por aqui há de tudo!

(Uma coisa que me tem feito um pouco de confusão é o sucesso dos blogues inteiramente dedicados a futilidades. Não sei se será porque as pessoas precisam das futilidades para se abstraírem da dura realidade que vivem, se será porque são mesmo fúteis. Entre uma e outra, prefiro acreditar na primeira opção!)

Sou leitora assídua de vários blogues, uns por gostar do que lá está escrito, outros por simpatizar com os autores, outros pelas duas razões e outros ainda só para ver "que raio de porcaria vão inventar desta vez". Confessar isto pode parecer-vos um pouco suicida, mas de facto não é, pois nunca comento o que acho uma porcaria, não sou daquelas leitoras que desatam a insultar o blogger, ou porque acham que o que disse é uma mentira descarada, ou porque não gostam dele por qualquer razão, ou ainda porque não têm mais nada para fazer senão azucrinar os outros.
Na realidade, é por ler muita coisa e, apenas comentar algumas que defendo sempre, com unhas e dentes, a liberdade de expressão. Acho que todos têm o direito de dizerem o que quiserem, desde que não prejudiquem ninguém e nós, leitores, só lemos o que queremos; se não gostamos, ou não lemos, ou discutimos o assunto civilizada e construtivamente.
Pessoalmente, gosto de discutir quando acho que vale a pena, quando acho que as diferenças entre mim e o interlocutor não são enormes, quando acho que depois da discussão se vai "fazer luz" para ambos os lados. Se não acho nenhuma destas coisas, remeto-me ao silêncio e, podem ter a certeza, quando eu me remeto ao silêncio, se não for porque não vi, não tive tempo ou não me apeteceu comentar, é porque estou convicta que não vale mesmo a pena perder tempo com aquilo que, para mim, é idiotice.

E é por tanto acreditar na liberdade de expressão e em que toda a opinião é válida, mesmo quando diferente da nossa, que vos informo:
Aqui, não me verão dizer mal só por dizer, criticar sem nenhum fim construtivo não é comigo, pois a maledicência é um feito de quem possui um carácter menor (e agora podem chamar-me convencida à vontade), o meu está um bocadinho acima. Ah pois está!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Menino Triste

Há um menino, que vejo todos os dias à porta da escola do J., que tem um olhar de uma tristeza, que me corta o coração...
Ele conhece-me e sorri para mim, esboça-me um sorriso tão triste, quanto o seu olhar... Apetece-me abraçá-lo, eu que não gosto de abraços, fico cheia de vontade de o abraçar e dizer-lhe "não fiques triste, eu gosto de ti", mas não abraço e não digo... Fico ali só a sorrir-lhe e a recalcar a minha vontade... Que triste que eu sou!

Quando o pai chega, ele desvia os olhos de mim, como se fosse uma vergonha olhar para outro lado que não o chão, e o braço do pai, pesado, sobre os seus pequenos ombros encaminha-o para longe da escola, dos olhares, dos amigos, de mim... Ele afasta-se, mas a sua tristeza cola-se-me à alma...
Sei que este menino é agressivo com os colegas, sei que se mete em brigas com muita facilidade e penso no que raio se passará para ele sentir aquela tristeza toda e deixá-la apoderar-se dele...

Cada vez que o vejo, tenho esperança que o seu sorriso já não seja tão triste... 

Mas todos os dias, o sorriso que me reserva é um grito mudo que me rasga por dentro e, em jeito de resposta, eu tento dizer-lhe baixinho, só com o olhar:

Gosto de ti!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Hélio

Ontem, o J. foi à festa de anos de uma colega. Quando o fomos buscar, vinha com um balão, que segundo ele, não largou durante a festa.
A curiosidade que o caracteriza, levou-o a perguntar-nos porque é que este balão ficava sempre no ar, não caia para o chão e quando o largávamos ficava colado ao tecto. Ao que lhe respondemos que este balão, ao contrário dos que ele estava habituado e que eram cheios de ar, estava cheio de um gás - o Hélio - que o fazia ficar no ar.

Satisfeita a curiosidade, o J. disse:
-Este balão é meu amigo!
-Sim? E como se chama o teu amigo? - perguntámos nós.
-Hélio! O Hélio vai andar comigo para todo o lado!
-Hummmm!!!

E foi verdade, o Hélio acompanhou-o durante o jantar, ficando colado ao tecto por cima dele, foi, amarrado ao seu pulso, para a casa de banho e esperou pacientemente que o J. fizesse o seu cocó e lesse o seu livrinho e, quando o J. se foi deitar ficou toda a noite junto à sua cama.

Mas durante a noite o Hélio foi perdendo o Hélio e foi descendo até ficar rente ao chão e quando o J. acordou, o amigo já não era o mesmo... Mas o J. continuou a passeá-lo pela casa e queria levá-lo para a escola. Não deixámos. 

O J. foi para a escola e deixou o amigo, à sua espera, em cima do armário para o gato não lhe chegar.

Agora o Hélio está a ficar murchinho... 
Só espero, que quando o J. chegar, não fique também murchinho por ver o amigo assim...

domingo, 22 de janeiro de 2012

Correcção

Afinal, cada ano de vida de um cavalo não corresponde a 4 anos dos nossos, corresponde sim a, mais ou menos, 3.
Como poderão ver neste quadro:



Cavalo

Ser humano
1 ano10 anos
4 anos17 "
10 "35 "
15 "50 "
20 "60 "
30 "80 "
33 "90 "

Quadro retirado DAQUI
A minha velhota estará perto dos 70 anos. No entanto, um cavalo vive em média 25 anos, podendo chegar aos 30.
Estava a fazê-la mais velha do que é...

A Minha Velhota

Ontem, fomos visitar a minha velhota. 
A minha velhota tem 23 anos. Não vos parece velha, pois não? Se vos disser que a minha velhota é uma égua e que cada ano, para um cavalo, corresponde a sensivelmente 4 anos dos nossos, talvez mudem de opinião... Se fizermos as contas, ela terá, mais ou menos, 92 anos. Velhinha, não?

Fui levar-lhe vitaminas, um cobrejão (manta) e desparasitante para que aguente o rigor do Inverno. Estivemos a limpá-la e a untar-lhes os cascos, demos-lhe guloseimas, beijinhos e abraços. 
O J. andou um bocadinho em cima dela, sem arreio, sem cabeçada, sem rédeas... Ela andou devagarinho atrás de mim com cuidado para ele não cair...


Tenho tantas saudades dos passeios que dávamos as duas, só nós as duas... 
Em manhãs, como a de hoje, lá íamos nós pelos montes e vales, a passo, a trote, a galope... Parávamos onde havia erva fresca, eu desmontava e sentava-me no chão a vê-la pastar... Era tão bom! Eram momentos só nossos... Tenho pena de nunca mais a poder montar! Ela está velhota e coxa, mas continua a minha amiga linda, que entende cada gesto meu, cada som, cada pensamento... Segue-me para todo o lado como se fosse um cão, lambe-me as mãos, deixa-me passar por baixo dela, coça a cara em mim como se eu também fosse um cavalo, coça-me as costas com os lábios... Quando a abraço por baixo do pescoço, ela carrega o queixo nas minhas costas como que a retribuir o abraço, a minha velhota... 

A minha éguita está velhota e, um dia, vou ter um desgosto, eu sei... Mas consola-me pensar que ninguém me tira o prazer de recordar os momentos que passámos juntas, que ninguém me tira a nossa história que é de amizade e de amor.


Correcção

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Kreativ Blogger? Me?


Pseudo do Pseudoblog ofereceu-me, muito simpaticamente, este selinho pela minha "brilhante" criatividade. Assim, não tenho outro remédio senão responder às seguintes perguntas acerca da minha "brilhante e criativa" pessoa.
Vamos lá a isto!
(Epá, agora tenho mesmo que ser criativa, senão estou tramada!)

1. Nome da minha música favorita?
Não é fácil, gosto de muitas, mas a Just Breathe dos Pearl Jam é uma música que está aqui (estou com a mão a ir de encontro ao lado esquerdo peito, não vêem?)

2. Nome da minha sobremesa favorita?
Esta ainda é pior do que a anterior. Sou muito gulosa, por isso qualquer porcariazinha que tenha chocolate ou doce de ovos (se tiver as duas coisas juntas, melhor!) me alegra o paladar.

3. O que me tira do sério?
Gente preconceituosa, por exemplo. É muito fácil tirarem-me do sério, não porque eu ferva em pouca água, mas porque sofro de parvoíce crónica.

4. Quando estou chateada?
Estou mesmo chateada e chateio os outros para não ficar chateada sozinha. 
Não, não é verdade, quando estou chateada falo pouco, penso muito (ainda mais do que normalmente), afasto-me das pessoas, mas toda a gente vê, pela minha cara, que estou chateada.

5. Qual o meu animal de estimação favorito?
Huuummmm, não sei... Vejam lá se adivinham... 
Como acertaram? Era tão difícil! Eu nunca falei aqui de cavalos!

6. Preto ou branco?
Preto sempre! Black is black!

7. Maior medo?
Que aconteça alguma coisa de mal ao meu filho! Pavor mesmo!

8. Atitude quotidiana?
Sofro de má disposição matinal, ou melhor, de péssima disposição matinal! Antes do pequeno-almoço não falem comigo para bem da vossa saúde mental!

9. O que é perfeito?
Perfeito, o que é isso? Nada, claro! Tal como o Pai Natal, a perfeição não existe!

10. Culpa?
Muitas, várias, de todas as cores e feitios.


Sete factos aleatórios sobre mim:

1-Detesto o acordo ortográfico e se, aqui em cima, a palavra "factos" não tivesse o "c", eu teria descrito os fatos que tenho no armário, garanto-vos!

2-Sou muito desarrumada, mas a minha desarrumação é organizada (se é que isso é possível).

3-Estou revoltada com a situação deste país, estou revoltada com este governo e com este povo inerte.

4-Só agora cheguei a meio dos "7 factos aleatórios sobre mim" e já não sei o que dizer mais...
Como vêem, sou extremamente interessante!

5-Finalmente comprei um creme para as rugas, porque o meu filho, numa manhã destas, disse-me "que horror, estás cheia de rugas!". Aquele "que horror" convenceu-me!

6-Tenho medo de aranhas.

7-Sou péssima a contar anedotas, nunca ninguém se ri.

A quem é que ofereço este prémio?
Ofereço-o aos blogues das seguintes pessoas:

Regras:
1. mandar o link para a pessoa que nos ofereceu 

2. preencher o formulário com as perguntas

3. oferecer a 10 blogs e informá-los por comentário ou e-mail

4.  partilhar 7 pensamentos aleatórios sobre nós

Mau Comportamento

Imagem retirada da Internet
Hoje em dia, fala-se muito do comportamento das crianças. Ouve-se dizer por aí, que os miúdos portam-se muito mal, que nunca estão quietos, que não conseguem estar sentados, que falam pelos cotovelos, que respondem mal aos professores, etc., etc....

Concordo com tudo isso, mas não posso deixar de me interrogar se eles se portarão pior do que os miúdos de há alguns anos atrás, ou se nós é que já não somos tão tolerantes, ou se não estaremos apenas mais atentos do que estavam os nossos pais e avós.
As crianças continuam a ser crianças, mas será que nós permitimos que elas sejam realmente crianças? Quantas crianças têm, actualmente, tempo para brincarem livremente? Quando digo livremente, quero dizer sem actividades orientadas e/ou programadas. Uma em cada cinco, uma em cada dez? Não faço ideia dos números, mas parece-me que não serão muitas. Não estaremos a exigir demais das nossas crianças? Não quereremos nós que elas adquiram uma quantidade enorme de competências para as quais elas ainda não estão preparadas? Não quereremos nós que elas saibam, inglês, música, ginástica, informática e que se portem bem em todas essas actividades, enquanto o que precisam realmente é de brincar?
O "nós" a que me refiro, somos os "nós" pais, os "nós" professores, os "nós" sociedade...

Para olharmos para os maus comportamentos das crianças de hoje, com olhos de ver, não nos podemos esquecer que, há alguns anos atrás, as crianças eram muito mais reprimidas pela presença dos adultos do que são as de agora. Talvez por isso os enfrentassem menos... Ter-lhes-iam mais respeito ou seria o medo que as impediria de os enfrentar?
As crianças de antigamente faziam menos asneiras, do que as de hoje ou tinham mais tempo e espaço para as fazerem sem ninguém saber?

Atenção, não quero, com isto, defender os maus comportamentos nem das crianças de agora, nem das de antigamente, não estou contra nem a favor de nenhuma das duas, só quero tentar entender se o mau comportamento aumentou realmente e, se aumentou, o que é que o motiva.

Penso haver alguns factores, que provocam os maus comportamentos, que são flagrantes e os quais enuncio:
-A falta de educação
-A falta de tempo para brincarem livremente
-A falta de actividades ou brincadeiras que lhes permitam gastar energias
-Os problemas psicológicos 
-Os problemas familiares

Começando pela falta de educação que, para mim, é o mais preocupante, não o vejo como um problema das crianças, vejo-o sim como um problema da sociedade. Como poderá uma criança ser educada, se os seus pais não sabem o que isso é?
Muitas pessoas não tiveram educação, como poderão elas transmiti-la aos filhos? Nesta nossa sociedade, a falta de respeito pelo outro impera, e se a educação não é mais do que o respeito pelo outro e o respeito não existe na sociedade como podemos querer que as crianças o tenham enraizado?

O segundo factor é incontornável. A falta de tempo para brincarem livremente obriga as crianças a acumularem energias que terão que libertar, mais cedo ou mais tarde, e enche-as de pequeninas frustrações e contenções, que todas juntas, são um peso enorme nas suas vidas, provocando reacções bruscas a estímulos aparentemente insignificantes e, consequentemente, provocando os tão odiados maus comportamentos.
Se não brincam livremente como podem elas ter capacidade de concentração no que quer que seja?

A falta de actividades ou brincadeiras que lhes permitam gastar energias está ligada ao segundo factor, mas por si só, também condiciona o comportamento das crianças. Estas, muito mais do que os adultos, precisam gastar energias e, actividades de sala de aula, em que estão sentadinhas o tempo todo, ou de tempos livres em que jogam Playstation ou vêem televisão, e em que apenas precisam de mexer os dedos, em nada contribuem para esse gasto de energia. Como no caso do segundo factor, essas energias terão que ser libertadas e, por vezes, são-no nas ocasiões menos próprias e através de "explosões" comportamentais.

Os problemas psicológicos podem ser dos mais variados e, quando não são entendidos como tais, podem ser confundidos com a falta de educação. Muitas vezes, estes são os mais difíceis de resolver e os que provocam mais maus comportamentos. Alguns psicólogos catalogam-nos de hiperactividade e receitam medicamentos às crianças. Serão, todos eles, verdadeiros casos de hiperactividade?

Por último, os problemas familiares, que podem gerar problemas psicológicos, ou reflectirem, apenas, os exemplos que as crianças têm em casa. Por exemplo, pais agressivos têm filhos agressivos com maior facilidade do que pais mais calmos, porque os filhos tendem a seguir os exemplos dos pais. Poderão as crianças ter a perspicácia necessária para analisarem os exemplos dos pais e perceberem se os devem ou não seguir?

E agora só mais uma perguntinha: 
Poderemos exigir, às crianças, que se comportem bem sem identificarmos e resolvermos, primeiro, os problemas que causam os maus comportamentos?
Eu acho que não e, por isso, os pais que dizem à boca cheia "ai do meu filho que se porte mal, se o fizer vou pô-lo de castigo" ou "não se podem admitir maus comportamentos, eles têm que saber comportar-se nas aulas, eles têm que aprender a estarem sossegados e a respeitarem as regras" sem antes sequer tentarem descobrir as causas desses maus comportamentos, assustam-me.

É óbvio que não se podem admitir maus comportamentos, mas nunca os mudaremos se não formos ao cerne da questão, se não resolvermos os problemas pela raiz.
Com soluções rápidas e aparentemente eficazes, como as dos castigos e ralhetes, só vamos conseguir uma falsa eliminação dos maus comportamentos, pois se a causa não for banida o problema continua lá e continua lá a crescer. Os maus comportamentos não existem só porque sim, existem porque algo se passa com a criança que pode, ou não, ter origem nela própria, mas tem obrigatoriamente que ser identificado e resolvido, caso contrário um dia, olharemos para os nossos filhos e veremos neles pessoas frustradas, revoltadas e, pior que tudo isso, infelizes.


Ah, não me esqueci dos maus comportamentos próprios das várias fases de um crescimento saudável, mas esses são de outro tipo, não deste.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O Meu Marido (blhac!)

Detesto a palavra "marido"!
Provavelmente, como algumas mentes mais entendidas e brilhantes dirão, tenho algum trauma de infância, de que ainda não me apercebi, ou então, como essas mesmas mentes brilhantes e chatas dirão, talvez a culpa seja de ser filha de pais separados, ter tido um pai pouco presente na infância e, por isso, a imagem que tenho das pessoas do sexo masculino ser um pouco distorcida e blá blá blá, blá blá blá, tenho um problema qualquer, super complexo, que só se resolverá com anos e anos em psicólogos e psiquiatras...
Ok, mentes brilhantes, tenho um problema e o meu problema é detestar a palavra "marido"!

Não gosto de dizer "o meu marido" e se viram, alguma vez, essa expressão aqui escrita é porque eu estava com muita pressa ou porque não me apeteceu esforçar para a contornar.
Desde sempre, eu e o pai do J., o meu marido (blhac!), referíamo-nos um ao outro como "o meu namorado/ a minha namorada". Ultimamente, temos optado por nos referirmos pelo nome próprio. Assim, fugimos ao marido /mulher e damos um ar muito mais adulto e responsável. Uau! Apenas utilizamos o "marido" e a "mulher" em ocasiões mais formais. Vemo-nos como namorados e não como marido e mulher. Possivelmente, somos um bocado infantis e queremos prolongar um estado mais imaturo da relação, sinceramente não sei... (Aposto que as mentes brilhantes defenderiam que a nossa relação não cresceu!)

O "marido / mulher" tem uma conotação pejorativa, pelo menos para mim, remete-me para um imaginário de responsabilidade, direitos e deveres, compromisso e mais uma data de coisas chatas que nada têm de romântico, amoroso ou apaixonante. Não que a nossa relação não tenha um pouco de tudo isso, é óbvio, que mal ou bem, também vai tendo, mas reduzi-la a uma quantidade de obrigações, é menosprezá-la. E eu não a quero menosprezar, pois é uma das minhas mais importantes relações e ele, o meu marido (blhac!), uma das pessoas mais importantes da minha vida.

Para mim, ser marido /mulher de alguém não é uma coisa boa (e aqui poderão voltar as mentes brilhantes, para me analisarem e concluírem que a separação dos meus pais foi definitivamente um trauma, do qual alguma vez recuperarei), é uma formalidade como outra qualquer em que duas pessoas assinam um contrato em que se comprometem a respeitar um determinado número de regras e onde o facto de se amarem é irrelevante. Na verdade, duas pessoas podem casar-se sem se amarem e duas pessoas que se amam podem viver maravilhosamente sem se casarem. O que quero dizer com isto, é que o casamento não garante nada em termos de amor, garante alguma coisa em termos financeiros e em termos de direitos e deveres, em caso de separação ou de desacordo entre as duas partes, mas no amor "não é perdido nem achado".

Como já disse aqui, casei-me por interesse e o meu interesse foi, caso o cancro me levasse embora daqui para fora, o pai do J. poderia administrar os poucos bens que estavam só em meu nome com maior facilidade e sem ter que lutar com uma quantidade estúpida de burocracias.

No nosso caso, o amor não se alterou nada com o casamento e o casamento também não veio trazer nada de novo ao amor. Eu sei que há por aí pessoas que pensam que o casamento lhes dá legitimidade para exigirem determinadas coisas ao seu marido /mulher, mas elas que se desenganem, pois, quando vão por esse caminho, estão a matar o amor e a transformá-lo em algo material e prático e, como todos sabemos, o amor não tem nada de material ou prático.

Com toda esta conversa, quero apenas dizer que o casamento ou o não-casamento não trazem amor, se ele não existir inicialmente, e que o amor deve estar sempre acima de qualquer casamento e não pode ser sustentado sobre uma base meramente contratual. Caso contrário, a sua elevada importância fica reduzida a uma porcariazinha burocrática.

É por isso, que o meu marido (blhac!) vai ser sempre o meu namorado, o meu amante ou o pai do J. e nunca, mas nunca, o vou ver como marido. (Mesmo que as mentes brilhantes me infantilizem, critiquem ou me passem um atestado de débil mental!)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Quem Tem Medo de Virginia Woolf?

Ontem, foi dia de teatro e fui ver  Quem Tem Medo de Virginia Woolf?
É uma peça forte tanto para os actores, que devem sair de lá completamente de rastos, quanto para nós, espectadores, pela intensidade dos textos e das emoções.
Está no Teatro Nacional D. Maria II até dia 29 de Janeiro.


Who's afraid of the big bad wolf,  big bad wolf,  big bad wolf...

E mais não digo... 
Vão, mas é ver peça, que vale a pena!

sábado, 14 de janeiro de 2012

Mãe, Eu Quero Pedir Para Desistir de Turma!

Ontem, o J. chegou a casa com lágrimas nos olhos e a repetir esta frase:
-Mãe, eu quero pedir para desistir de turma!
Preocupada, perguntei-lhe:
-O que é que aconteceu?
-Os meus colegas estão sempre a portar-se mal! O professor é tão querido e eles estão sempre a gozar com ele!
-Mas o que é que eles fizeram?
-Estão sempre a portar-se mal e a gozar com o professor!
É sempre difícil arrancar a história toda ao J, tem que ser a saca-rolhas ou então não sai nada.
-E o professor o que fez?
-Ficou triste! Quero desistir de turma!
-Não dá para mudares de turma, mas podes dizer aos teus colegas para não se portarem tão mal, se o professor é querido, deviam portar-se ainda melhor nas aulas dele.
-Mas eles não se portam e gozam com ele!
-Às vezes, os miúdos são um bocadinho assim, em vez de aproveitarem as pessoas mais fixes e tratarem-nas bem, fazem o contrário e abusam delas por serem simpáticas. Se mudasses de turma, isso também ia acontecer na outra turma, porque há pessoas assim em todo o lado, mas podes sempre dizer-lhes é que era melhor tratarem bem as pessoas mais simpáticas para elas se sentirem bem e continuarem a ser simpáticas.
-Mas eles não me ligam. Eles são maus!
-Eles não são maus, só ainda não percebem é que melhor serem queridos com as pessoas que são queridas para eles.
Ele estava tão decepcionado que eu já não sabia o que lhe havia de dizer mais...

Pois é, meu filho, estas são as primeiras de muitas decepções que vais ter com as pessoas (claro que não lhe disse isto, mas pensei).

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Amamentação

A Adelaide de Sousa, que é mãe de um menino de dois anos e meio, optou por amamentar o filho durante o tempo que ele quiser. 
(Poderão ver a reportagem da SIC AQUI)
Admiro a sua determinação, é necessário ter coragem para andar de maminha-sempre-pronta durante tanto tempo.
Eu dei de mamar ao meu filho até aos nove meses e já não foi nada fácil, quanto mais até "não se sabe bem quando" como a Adelaide. 
O período em que amamentei não foi, o que algumas mães chamam, "período maravilhoso" ou "melhor altura da maternidade", foi até bastante duro. Para terem noção do que me custou amamentar, posso dizer-vos que o meu peito gretava com tanta facilidade que, uma vez, depois de dar de mamar ao J., ele bolçou sangue, e o sangue era meu. Foi um susto que nem imaginam, porque pensei que era dele e que tinha algum problema no estômago.

(A única coisa realmente maravilhosa era estar com ele ao colo e vê-lo com um ar tão sereno e consoladinho).
Apesar de não ter sido um mar de rosas, sempre tentei levar a amamentação avante. Tirava leite quando estava no trabalho, mantinha-o refrigerado e congelava-o quando chegava a casa para, no dia seguinte, enviar para o infantário e, assim, ele beber do meu leite em vez do de lata. 
Algumas pessoas achavam esta minha atitude fundamentalista ou demasiado criteriosa, mas nunca me importei e continuei a fazê-lo enquanto achei que era benéfico.

Hoje, continuo a pensar que fiz bem, porque ao tirar o leite a meio da tarde, aliviava o peito e mantinha a produção de leite mais ou menos inalterada. Fazia-o por ele, mas também por mim. Fiz isto todos os dias até ele ter, mais ou menos, seis meses, depois disso, deixei de tirar leite e ele só bebia do meu quando estava comigo.
Com a introdução do leite artificial, ele deixou, progressivamente, de querer mamar. E, foi desta forma pacífica que deixei de amamentar... sem choros, sem tristezas, sem pena.

Confesso que me fazem confusão as mães que não querem dar de mamar aos filhos para não estragarem o peito, mas não me fazem menos confusão as que a eternizam. É claro que cada caso é um caso e cada mãe sabe de si e do seu rebento, mas se me permitem, há que encontrar o meio-termo para o bem de todos e, dar de mamar até ao um ano, no máximo, parece-me saudável tanto para a mãe como para o filho. 

E vocês o que acham?
Amamentar "nem pensar", amamentar qb, ou amamentar forever?

Do "post" Sensibilidade

Quero deixar aqui bem claro, que o post Sensibilidade nada tem a ver com a professora do J.. A senhora é uma óptima professora com uma vasta experiência, dedicação e SENSIBILIDADE quanto às necessidades de cada criança (que podia dar e vender a quem a tiver em falta). Tem feito tudo o que pode, e o que não pode, para melhorar um sistema educativo decrépito como é o que temos neste país.

Por isso, se dúvidas houveram quanto à pessoa de que falo, no dito post, ser a professora do J., fica desde já esclarecido que NÃO É A PROFESSORA DELE.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Desatino

Pai e filho tiveram desatino dos grandes, com direito a zanga e castigo. Mãe reteve-se na cozinha, que é o seu lugar. (Brincadeirinha, alguma vez, sou mulher do meu lugar ser a cozinha?!). Mas fiquei na cozinha, para não interferir e deixar o galo e o galinho entenderem-se sozinhos.

Pai foi para reunião de condomínio, mãe foi deitar filho.
Filho diz à mãe:
-Ainda bem que foste tu a vir deitar-me. Eu e o pai zangámo-nos.
-Eu sei.
-Quem é que tu achas que teve razão?
-O pai.
-Porquê?
-Porque tu, às vezes, não ouves o que te dizemos e precisas estar mais atento. Porque se te dizemos para ires lavar os dentes, para ires fazer xixi ou cocó, é para ires logo!
-Mas vocês nunca me dizem para ir fazer xixi...

És tramado, és!

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Sensibilidade

Eu não sou nenhuma especialista em crianças, mas sei distinguir uma criança de oito anos de uma de seis e sei perceber que as necessidades de uma, diferem das necessidades de outra, que a de oito tem uma capacidade de discernimento e compreensão que a de seis ainda não tem. Para isto, não é preciso ser-se nenhum expert em educação ou pedagogia, basta ter-se alguma sensibilidade.

É incrível como pessoas, que estudam para serem professoras, conseguem andar, anos a fio, a trabalhar sem se aperceberem que não podem exigir o mesmo a uma criança de seis anos que exigem a uma de oito. E pior, andam todos esses anos, convictas que são elas que estão certas, porque foram elas que estudaram e são elas que possuem o canudo que as certifica como especialistas na matéria. Mas o curso pode dar-lhes muitos conhecimentos, muita teoria, mas não lhes dá aquilo, que não têm por natureza - a sensibilidade. Esta, ou se tem ou não se tem. E se não se tem, há que procurar trabalhá-la dentro nós, especialmente se precisamos dela para fazer o nosso trabalho e, quem trabalha com crianças, definitivamente precisa ter alguma sensibilidade, caso contrário, nunca deixará de fazer um trabalho medíocre. 

O que mais confusão me faz nisto tudo, é estas pessoas, "doutoradas em educação", virem-me dizer que elas é que sabem como devem agir com o meu filho e ver, no semblante dos filhos delas, a tristeza da incompreensão e uma postura que reflecte uma exigência descabida à sua idade. E vangloriarem-se do trabalho miraculoso que fizeram com o meu filho, que na realidade não foi feito por elas, foi feito pela paixão que ele tem pela matéria em causa e pela maturidade que a idade lhe foi dando. Mas, a sensibilidade que escasseia, também as impede de verem isso e, de peito emproado, dizem "Como vê, o meu método é que está correcto" e vão felizes e contentes para casa, na certeza que a elas se deve aquilo que o seu método, isento de sensibilidade, apenas soube atrasar.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A Liberdade do Ser

Ainda hoje, o cheiro dos cavalos me inunda os olhos de lágrimas e o coração de felicidade...
Ainda hoje, sinto-os como o caminho que me conduz à liberdade... Eles são tão mais livres que nós... Mesmo fechados em boxes ou encerrados em pastos vedados, eles são livres!
Ainda hoje, encontro a paz deitada na palha, ao seu lado... ou num abraço que me deixa ouvir a música do seu coração, na cadência de uma respiração imensa, no movimento de um enxotar de moscas constante pelo bater decidido dos cascos no chão, e o silêncio...
E o som dos pés descalços num galope veloz, e o espojar sentido na terra batida, e o relinchar num grito de guerra e de amor, e a liberdade...
A liberdade de respirar a brisa e o vento, a liberdade de dar um coice para o ar numa explosão de alegria, a liberdade de viver sem amarras, a liberdade de ser sem ter que parecer coisa nenhuma... A liberdade que eu perdi algures no meio de um prado cheio de erva, flores e sol... A liberdade que eu perdi quando me tornei mais humana e menos animal... Essa, essa mesma liberdade, a liberdade do Ser...

...Sem ter que parecer coisa nenhuma...

Imagem retirada da Internet

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Pastores

Imagem retirada da Internet

A questão da popularidade tem-me intrigado o bastante para dedicar algum do meu tempo precioso a reflectir sobre as suas causas e consequências. Juntado a isto, o facto de estar desempregada e, por isso, ler muitas notícias e muitas cretinices, por exemplo no Facebook, fico meio alienada e dá-me para pôr o cérebro a funcionar, que, no final, resulta em "maravilhosas" dissertações como a que se segue:


A popularidade das figuras públicas, das figuras que, à força, pretendem ser públicas (como os meninos dos reality shows) e a popularidade dos ilustres anónimos que fazem carneiros, ups, desculpem, amigos, com muita facilidade, desconcertam-me. 

O facto de serem populares, a algumas pessoas (normalmente as que negam gostar de serem populares, por falsa modéstia) atribui-lhes um estatuto de credibilidade e excelência excessivo e podem dizer a maior das patacoadas que todos os seus tristes fãs dizem ámen e fazem-lhes vénias ou, então, como acontece no caso dos concorrentes da Casa dos Segredos, quando fazem qualquer coisa normalíssima, são imediatamente crucificados e expostos ao ridículo.
Qual é o problema de os meninos coçarem o rabo, tirarem macacos do nariz ou dizerem parvoíces? Toda a gente já coçou o rabo, tirou macacos do nariz e disse parvoíces. Ou não?
Pronto, têm razão, eles dizem parvoíces demais! É verdade! Mas não é necessário crucificarem-nos... Ou é? São parvos, ok, o que temos a fazer, se nos incomodam, é não ver a TVI quando eles estão por lá... Pois é, agora já não estão, mas estão nas capas de todas as revistas de fofoquices até esgotarem a bela imagem que lhes criaram, até já ninguém conseguir olhar para as suas fronhas catitas ou até a maledicência a seu respeito estar completamente esgotada! Não comprem as revistas, se não os querem ver. Mas a verdade é que as pessoas gostam de os ver, gostam de ter alguém com quem gozar, gostam de intrigas e tricas maléficas, gostam de alimentar polémicas e mostrarem que "não é nada comigo, não é nada comigo. Eu estou muito acima de tudo isto!".
Tretas!

Será que o público, tanto de uma das categorias de pessoas como da outra, não consegue encontrar o meio-termo entre a besta e o bestial? Será impreterivelmente necessário colocarem-nas num pedestal ou classificarem-nas abaixo de lixo?
Não consigo compreender a necessidade de se amar ou de se odiar tanto os ídolos... Não é possível atribuírem-lhes um estatuto mais humano, com defeitos e qualidades, com handicaps e dons?

E com isto, estou a voltar à história dos Carneiros, que tanto me afligem, mas hoje quero mesmo é focar-me nos pastores que, na realidade, não me afligem muito menos...

Neste país, basta dizer-se uma coisinha de jeito, que seja aprovada por alguém de renome, para o pessoal ficar todo: "Ahhhh!!!! Que inteligência suprema! Tchhhhh!!! Que maravilha!"
Depois, podem dizer-se todas as barbaridades, e mais algumas, que se continua a ser alguém "muito inteligente".
Ou então, diz-se uma parvoíce qualquer e passa-se a ser o estúpido para o resto da vida e, tudo o que se diz de seguida, já não é ouvido ou é adoravelmente gozado.
E depois, há quem saiba, tão bem, jogar com tudo isto a seu favor: A maravilhosa e profissionalíssima comunicação social, os esplendorosos governantes, o comentador televisivo de alto gabarito, o escritor reputado, a miúda/o mais gira da turma e tantos outros ilustres...

Para além de manipularem a opinião pública, acham-se os maiores, acreditam piamente que são os maiores e beijam-se e abraçam-se num deleite egocêntrico depressivo... E ai de quem lhes diz que estão errados, ai de quem lhes aponta uma gaffe, ai de quem os confronta com uma opinião contrária, ai do pessoalzinho que se atreve a olhá-los nos olhos por mais de dois segundos...
Este pessoalzinho é inevitavelmente e prontamente tramado! Caem-lhes em cima os pastores e os carneiros, que lhes fazem um moche magistral para depois se juntarem numa orgia intelectual repugnante!

Aos pastores e aos carneiros só lhes tenho mesmo a dizer:
Vão-se mas é catar (e pastar), seus idiotas!

Passarinho Verde

-Mãe, qual foi a primeira pergunta que fizeste ao pai quando o conheceste?
-Sei lá, já foi há tanto tempo...
-Foi "queres casar comigo"?
-Não! Achas? Eu nessa altura nem queria casar.
-Não querias? Então, foi "queres namorar comigo"?
-Ó J., achas que eu ia perguntar isso mal acabasse de conhecer o pai? Não sei qual foi a primeira pergunta que lhe fiz, mas deve ter sido qualquer coisa do tipo "que horas são"?
-A sério, que foi isso que lhe perguntaste? 
-Não sei, não me lembro... Mas deve ter sido qualquer coisa do género... Porque que é que queres saber isso? Queres perguntar alguma coisa a alguém lá na escola?
-Não, só quero saber...

Hummm, cheira-me que deve andar um passarinho verde a espreitar por aí...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Que Escola?

Imagem retirada DAQUI

Quando chegou a altura do J. ir para a escola, pensámos muito em que instituição o havíamos de matricular. Se teríamos capacidade para o inscrever numa escola que leccionasse um ensino alternativo que não fosse o oferecido pela escola pública. 
Não tenho nada contra as escolas públicas, antes pelo contrário, gosto delas por permitirem que uma grande heterogeneidade de pessoas se encontrem e contactem, ensinando as crianças a lidarem com um grande leque de personalidades, modos e filosofias de vida. 

Acho a maior parte das escolas particulares demasiado elitistas, longe da realidade e cheias de meninos mimados que saem de lá sem terem, praticamente, nenhum contacto com pessoas diferentes deles. 
Quando pensámos em matricular o J. numa outra escola, que não a pública, foi essencialmente porque não gostamos do sistema de ensino, porque este não valoriza as características individuais de cada aluno e, especialmente, porque este não ensina as crianças a pensar e apenas as incentiva a decorar conceitos sem que haja a necessidade de os entender. 
Pretendíamos que o J. frequentasse uma escola que lhe abrisse os horizontes, que lhe desse um panorama das escolhas que ele poderia fazer tanto profissionalmente, como culturalmente, mas que não o fechasse numa redoma de vidro que o excluiria da realidade. 
É óbvio que não encontrámos a escola dos nossos sonhos. Ela não existe senão nas nossas cabeças, por isso optámos por ele frequentar a escola pública e tentamos que sejamos nós a abrir-lhe os horizontes, dando-lhe a conhecer a maior oferta cultural possível, através de exposições, teatro, música, vistas a monumentos, a museus e a outros países, proporcionando-lhe diferentes experiências que vão desde a cozinha internacional até aos rituais e costumes de cada cultura.

Confesso que não tem sido fácil, pois é preciso ter algum dinheiro para usufruirmos de algumas dessas ofertas, mas tem sido muito recompensador, pois o J. valoriza a sua experiência de vida, orgulhando-se de conhecer e apreciar coisas que a maior parte das crianças da sua idade nem sonham que existem.
Não desejamos, com isto, criar um menino-prodígio, queremos apenas mostrar-lhe o mundo e dizer-lhe que pode seguir o caminho que quiser, sabendo que existem imensos por onde pode enveredar. Talvez lhe estejamos a dificultar a escolha, porque quando temos apenas dois caminhos é mais fácil escolher do que quando temos inúmeros, mas pensamos que a escolha, ou escolhas, que fará será em consciência e não por desconhecer que existem outras hipóteses. E o mundo não será, para ele, um lugar estranho, mas um lugar familiar em que se sentirá em casa e onde se poderá mover sem medos. 

Pode parecer-vos que sou uma sonhadora e com ideias demasiado utópicas... Provavelmente, estão certos!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Idade dos Porquês

Imagem retirada DAQUI
O J. está sempre a fazer perguntas e estamos a pensar seriamente em oferecer-lhe uma enciclopédia, pois já não temos capacidade para responder a tantas perguntas.

Sempre pensei que "a idade dos porquês" era por volta dos 3/4 anos, mas a dele tem-se prolongado e com 7 anos, continua a querer saber tudo e mais alguma coisa.

Sim, eu tenho alguma "culpa no cartório", pois habituei-o a perguntar e sempre tentei satisfazer as suas dúvidas. Neste momento, começa a tornar-se bem difícil responder a perguntas tão complexas como as que ele nos faz.
O cérebro dele trabalha a uma velocidade alucinante e a cada frase nossa, segue-se uma quantidade de porquês, aos quais nem nós sabemos responder. (Talvez tenhamos mesmo que recorrer a uma enciclopédia...)

Penso que esta capacidade de se interrogar será uma qualidade, mas não sei se o mundo estará preparado para isso, pois quem pergunta é entendido como quem não sabe e quem não sabe é mal visto.
Eu explico o quero dizer com isto:
Cada vez mais, se exige um conhecimento sólido sobre os mais variados assuntos e as pessoas tendem a inventar quando não sabem, porque admitir o desconhecimento é tão mal interpretado como admitir um erro. Sob o meu ponto de vista, é positivo admitir tanto o que não se sabe, quanto o erro, mas a sociedade de um modo geral, não concorda comigo e eu própria já fui mal interpretada por isso e sei que ele também será.
As pessoas têm medo de perguntar e têm medo de quem pergunta, porque sentem-se testadas e postas em causa.

Porque haverá tanta dificuldade em dar a conhecer aos outros o nosso desconhecimento? E porque haverá tanta dificuldade em aceitar o desconhecimento dos outros?
Ninguém sabe tudo, mas ter a honestidade de o demonstrar e a capacidade de aceitar isso nos outros, parece um calvário para a maioria das pessoas. E tal como o J. , volto a perguntar "porquê?".
Só a capacidade de nos interrogarmos, nos pode fazer evoluir... A Humanidade evoluiu assim, colocando questões e tentando encontrar-lhes respostas. Porque não podemos fazer o mesmo connosco, individualmente ou colectivamente? O que temos a perder? A admiração dos outros? De que serve admirarem-nos por algo que não nos pertence ou por algo que é falso?
Perguntar não é socialmente bem aceite, no entanto é através desta acção que conseguimos saber mais. Será que, realmente, queremos saber mais, quando nos abstemos de perguntar?

A mim, parece-me que não, parece-me que preferimos fingir que sabemos a saber verdadeiramente... Preferimos que os outros pensem que somos um poço de cultura e de conhecimento, a lutarmos para nos superarmos, para nos enriquecermos intelectualmente. E se não lutamos por nós, ficamos mais pobres, pobres de espírito, que é muito pior do que não ter dinheiro...

Eu vou tentar responder sempre ao J. e vou continuar a incentivá-lo a perguntar sobre tudo o que ele quiser, perpetuando, assim, a "idade dos porquês" até que seja ele a abandoná-la por sua própria iniciativa (ou não!), porque a maior pobreza que uma pessoa pode viver é a de não querer evoluir, é deixar-se estagnar a pensar que se chegou à meta do seu ser. E vou incentivá-lo, sabendo que ele vai sofrer, mas acreditando que este é um sofrimento que vale a pena!

2012

Eu sei que estou atrasada e espero que não me desclassifiquem pelo atraso, porque hoje só venho aqui, num instantinho, para vos desejar um ÓPTIMO ANO de 2012 e...

...amanhã falamos melhor, ok?