segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A Selva

Cometi a insanidade de ir às compras ao Continente em dia de Passagem de Ano. Eu, confessa apaixonada por compras, que se puder delegar essa tarefa a outrem dou saltinhos de alegria, vi-me sozinha e indefesa a aterrar em plena selva consumista.

Desde levar com encontrões distraídos dos chimpanzés saltitões, passando por ver hienas a atravessarem-se-me no caminho de braço estendido em direcção a uma qualquer iguaria tradicional da época (enquanto eu, alheia a tanta selvajaria, contemplava uma prateleira) até ter que me proteger de leões ferozes, de pá em punho, a escavarem a arca dos camarões congelados, como se não houvesse amanhã, aconteceu-me de tudo!

A vontade de fugir era tremenda. Estive quase a jurar que a minha Passagem de Ano ideal seria a comer cereais ao som das doze badaladas e que festejar o primeiro dia do Ano com uma caneca de leitinho com chocolate nas mãos. Esta seria a entrada no Ano Novo perfeita...
Só a consciência da maternidade me impediu de sair dali para fora a correr: o meu filho não podia passar dois dias a comer cereais por causa de uma mãe preguiçosa, que preferiu gastar o fim-de-semana na lãzeira a ir abastecer a despensa!

No preciso momento em que revia mentalmente o meu papel de mãe, sou assaltada pelos meus instintos assassinos mais recalcados: começo a imaginar-me de catana nas mãos a desbravar aquela selva cerrada como se disso dependesse a vida da minha cria.
Nesse instante, começo numa acelerada mutação e, repentinamente, vejo-me transformada numa leoa assanhada!

Mas em vez de satisfazer os meus desejos assassinos e desatar à catanada àquela bicharada toda, agarrei o meu cesto rolante com força e corri para as caixas a todo o vapor.
Afinal, já tinha conseguido recolher os alimentos suficientes para que o meu rebento não se transformasse num Cornflake gigante em apenas dois dias... A porcaria de um saquinho de passas, que havia encontrado desprezado numa bancada apinhada de animais famintos e o Champanhe a fingir, também já cá cantavam...

Podia retirar-me em grande, sem ter cometido nenhum homicídio e, levemente, flutuar rumo a uma meia-noite passada a engolir passas como se de doze comprimidos se tratassem, empurradas por um espumante manhoso que me estamparia trejeitos ainda mais manhosos na face.

2013, por favor, recebe com agrado, e abençoa, esta destemida exploradora de selva urbana!

domingo, 30 de dezembro de 2012

2013

Podia vir para aqui fazer uma revisão sobre o este ano que está, agora, a acabar e que teve mil e uma coisas más, especialmente neste país pequenino e triste que, cada dia que passa, fica mais triste. Mas não a vou fazer. 
Porquê?
Primeiro, porque não me apetece. Segundo, porque todos nós a vamos fazendo mentalmente, numa retrospectiva intencional ou... nem tanto assim... 

Quero apenas deixar-vos os meus votos sinceros de um óptimo

Imagem do Google 

com tudo o que vos 

FIZER FELIZ!

Ar Puro

No carro:

- O que se passa J.? A avó disse que não falaste quase nada, nestes dias.
- Não se passa nada.
- Mas tu és tão falador... E agora quase não falas... Passa-se alguma coisa? Se se passar, sabes que podes dizer, não sabes?
- Não se passa nada!
- Mas sabes que, se se passar, podes dizer, não sabes?
- Sei!
- Falar é bom, ajuda os problemas e as coisas que nos chateiam a irem embora!
- Eu sei!

Alguns minutos de silêncio...

- Eu não estou a gostar da minha vida agora!
- Não? Então? Porquê?
- Este mundo não vai durar muito tempo! O buraco está cada vez maior e as pessoas não se importam...
- Qual buraco? O do ozono? É desse que estás a falar?
- Sim! As pessoas não fazem nada para não estragarem o planeta e, assim, ele não vai durar muito tempo.
- Ainda falta algum tempo para o mundo acabar... E as pessoas, algumas pessoas, já fazem alguma coisa para preservar o planeta.
- Sim? O quê?
- Separam os lixos, inventam carros que não poluem tanto...
- Vamos arranjar um carro desses!
- Ainda são muito caros, senão arranjávamos.
- Nós, pelo menos, separamos os lixos todos!
- Pois separamos! Sabes porque é que é bom separarmos os lixos? Porque se não o fizermos, eles vão para as lixeiras (que são descampados, um grande campo sem nada) cheios de plástico e vidro que demoram centenas de anos a decomporem-se. O plástico, com o calor e a humidade, deita gases prejudiciais ao ambiente. O vidro se não se partir demora muitas centenas de anos a decompor-se.
- E agora já não há lixeiras?
- Há, mas têm menos plástico e vidro, e mais produtos biodegradáveis, como os restos de alimentos.
- Ah, mas nós separamos tudo!
- Vês, já estás a fazer alguma coisa para não estragares mais o ozono!
- Mãe, quero ir viver para o campo na Dinamarca! Vocês estão sempre a dizer que querem ir, mas nunca mais vamos...
- Não é assim tão fácil começar uma vida nova noutro país... Além disso, o pai, aqui, tem um trabalho mais ou menos seguro. Lá, vamos ter que arranjar outros trabalhos, o que é um bocado complicado, porque não sabemos falar a língua.
- Mas falamos inglês. Eles falam todos inglês.
- Mas há trabalhos em que é preciso falar dinamarquês, por isso nós temos muito menos hipóteses de arranjar trabalho lá do que os dinamarqueses ou do que alguém que saiba falar a língua. É difícil e teria que ser uma coisa muito bem pensada e preparada, antes de irmos.
- Então, vamos viver para um campo, aqui mesmo, em Portugal, onde o ar seja mais puro.

[Oh, J., se soubesses como é difícil termos "um ar mais puro" neste Portugal, tão poluído por este (des)governo.... Nem a separação de lixos ajuda a melhorar este ambiente!]

sábado, 29 de dezembro de 2012

Apetecia-me Escrever...

Sim, apetecia-me escrever qualquer coisa aqui, mas não consigo. Ando bloqueada, vazia talvez. Por mais que esprema, não sai nada, apesar do turbilhão de emoções em que tenho vivido. Choro por tudo e por nada. Especialmente, por nada. O nada invadiu-me, e ocupou o espaço que estava reservado à minha vontade de criar... de criar qualquer coisa, nada de especial, nenhuma obra de arte, mas aquela vontade de criar por criar, que vem associada às inquietações, às indignações e às sensações boas também. Sabem de qual estou a falar? Sabem, claro que sabem. 
E o vazio... O vazio que se instala a partir do nada é aterrador! Quero sair de mim e ir ali encher-me de qualquer coisa... mas o espaço está todo ocupado... de nada. E não consigo...

Melhores dias virão. Assim espero... 

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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Feliz Natal!

Só tratei das prendas e montei a árvore de Natal ontem, mas parece que ainda vou a tempo de festejar o Natal e de desejar, aos seguidores, leitores ocasionais e àqueles que caem neste blogue de pára-quedas, através de uma qualquer pesquisa no Google, como por exemplo "Macacos do Nariz", um:

Imagem retirada da Internet

domingo, 23 de dezembro de 2012

Gatinho Zen?

Como sabem, o Gatossoa cá de casa sofre de Stress Felino, problema este que o tem martirizado com infecções urinárias consecutivas e que nos tem martirizado, a nós, com as suas asneiradas e os seus comportamentos agressivos. 
Para as infecções urinárias, a veterinária já optou por mudar a marca da ração-especial-de-corrida para uma mais cara, sem que isso alterasse alguma coisa. Quanto ao comportamento só melhorou, um bocadinho, quando ele veio para casa ainda sob o efeito da anestesia que lhe deram para conseguirem fazer-lhe uma eco. Nesse dia, o Gatossoa era um doce: não nos mordia nem arranhava e ronronava como um motorzinho em pleno funcionamento.
Sugeri à veterinária que lhe receitasse um dose pequena de anestesia, que ele tomasse todos os dias, para que conseguíssemos viver em paz. Claro que ela negou terminantemente tal solução. Mas teve uma ideia que, espero, talvez seja brilhante: mudar a ração-especial-de-corrida para as infecções urinárias, para outra ração-especial-de-corrida para o stress felino. 
O Gatossoa, a partir de ontem, começou a comer uma ração chamada Calm. A Calm é cara p'ra  caraças, mas se eu tiver que dar 52,80€ de dois em dois meses para viver sem arranhões, mordidelas e a casa alagada de urina mal cheirosa, eu pago, e pago com um sorriso nos lábios! 

Avé Calm!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Telenovelas

Em casa da avó a ver uma telenovela, cujo nome desconheço...

Cena um
Uma fulana coloca um líquido (veneno ou sonífero) na bebida de um fulano.

J.- É por isto que eu não me interesso muito por mulheres!
Avó - Por isto porquê?
J.- Elas envenenam os homens!
Avó, em defesa das mulheres - Não são só as mulheres que envenenam os homens. Os homens também envenenam as mulheres. São pessoas más, que podem ser homens ou mulheres!

Cena dois
Um homem fala ao telefone, deitado na cama com outro homem.

J.- Ele é homemsexual?
Avó - Homossexual. Sim, é!
J.- Ele está a fazer sexo com o outro homem?
Avó - Não, agora está a falar ao telefone!
J.- Mas ele está todo nu, só com o lençol por cima... Ele fez sexo com o outro homem?
Avó - Se calhar fez...
Mãe, em pensamento, quase implorando - Não perguntes como, não perguntes como, não perguntes como....

Cena três
Um homem e uma mulher estão aos beijos. Este é o fulano que foi envenenado/dopado pela fulana. Ele beija-a na boca e no pescoço, antes de cair para o lado.

J.- Agora é que eles vão namorar... Ele está a beijá-la no pescoço. Hi hi hi hi! Mãe, tu deste beijos no pescoço do pai?
Mãe, a medo - Sim...
Avó - Deu e dá. A tua mãe dá beijos ao pai no corpo todo.
Mãe, em pensamento, quase implorando - Não perguntes em que partes do corpo, não perguntes em que partes do corpo,  não perguntes em que partes do corpo...

Cena quatro
A telenovela acaba sem sabermos se o homem morreu ou não.

J.- Oh, porra! Porque é que isto acaba assim? Isto devia ser como os filmes para sabermos já o que acontece no final! 
Avó - Amanhã já se sabe. 
J.- Oh! Não gosto nada de só poder saber se ele morreu amanhã!
Avó - As telenovelas são mesmo assim para as pessoas terem sempre vontade de ver o próximo episódio.
J.- Bah!

Aviso: O consumo excessivo de telenovelas, dos filhos na companhia das avós, pode ser prejudicial à saúde das mães!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A Obra de Arte

- Mãe, porque é que tu gostas de tudo em mim?
- Porque tu foste a melhor coisa que eu já fiz até hoje!
- Tu e o pai!
- Sim, eu e o pai. Foste a nossa obra de arte!
- Pois... O pai fez a tela, os pincéis e as tintas e tu fizeste o desenho!

Imagem retirada da Internet

Olhó Desafio Fresquinho!!!



Lost Lenore passou-me este desafio, que consiste em incentivar a leitura, através da apresentação de um livro de que tenhamos gostado. Como na maioria dos desafios, devemos passá-lo a 10 outros blogues. Mas como a minha indisciplina já é bem conhecida por estas bandas, ninguém se irá espantar se eu não o passar a ninguém em particular, mas a todos em geral. Por isso, quem estiver a ler este post considere que lhe passei este desafio. Pronto, está passado!

Agora, vamos ao livro:
Quarto livro de crónicas do António Lobo Antunes.
"E porquê o quarto e não o primeiro ou o terceiro?" perguntam-me vocês.
Porque eu não li o primeiro, nem o terceiro, só li mesmo o quarto. (Se não souberem o que me vão dar no Natal, podem aproveitar a deixa, ok?) 
Este Quarto livro de crónicas marcou-me para toda a vida!
Todas as crónicas deste senhor são maravilhosas, tanto pela forma como as escreve, como pela profundidade das suas palavras. Ele é acutilante, suave, terno, corrosivo e profundo, tão profundo que, às vezes, até dói. A sua escrita escorre como se respeitasse uma melodia, com as pausas sempre no sítio certo. Mas não é fácil de ler, é preciso confiarmos nele para o seguirmos. É preciso estarmos predispostos a remexermos naquilo que nos sensibiliza, naquilo que nos magoa... Só assim o conseguiremos desfrutar. 
Se estivermos para aí virados, o êxtase fica mais perto, garanto! 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Dos Castigos

Já disse aqui que não gosto de castigos?
Acho que sim. No entanto, penso que nunca será demais repeti-lo: Não gosto de castigos!
Não gosto de castigos corporais, psicológicos, ou mistos! Não gosto de castigos na sua generalidade, pronto!

E detesto punições!
Por isso, ainda detesto mais castigos aplicados como forma de punições.
Não admito que se castiguem/punam as crianças por errarem. Errar faz parte da aprendizagem. Errar é a parte mais importante da aprendizagem. Quem não erra não aprende, decora. É do erro que nascem as dúvidas, e quem não tem dúvidas não tem interesse em aprender. Não se pode destruir o berço da curiosidade, do gosto de aprender. Se se o destrói, destrói-se também a capacidade de aprendizagem.

Quem utiliza os castigos para punir os erros, não sabe ensinar; não quer alunos, quer máquinas! O mal, aqui, não está em quem aprende, mas em quem ensina. Se seguirmos a mesma lógica de quem castiga o erro, seriam esses "professores" que deviam ser castigados, não os alunos.
Mas quem ensina devia ter a humildade de o admitir quando não sabe ensinar e querer aprender a fazê-lo bem, ou, pelo menos, melhor. Senão, talvez seja melhor dedicar-se a outra actividade, que não a de ensinar.
Só aprende quem está predisposto a isso. Essa predisposição, na maior parte das vezes, depende da arte de quem ensina, e essa arte vem de dentro do professor, vem do gosto por aquilo que ensina, que transmite, e cativa, aos seus aprendizes. Sem ela, não há ensino, há um debitar de conceitos vazios e monocórdicos.

Castigar o erro é matar, não só a curiosidade e o gosto de aprender, mas também a criatividade e a imaginação.
Tal como dizia Einstein "Imagination is more important than knowledge. Knowledge is limited. Imagination encircles the world." 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O Espelho da Nação

Leiam ESTA NOTÍCIA e digam-me se é preciso dizer mais alguma coisa para caracterizar o Tuga?

Está, ou não, tudo dito?

Mammy - A Politicamente Incorrecta

Imagem DAQUI

Por mais que se esforce, não consegue ser politicamente correcta. Na verdade, não se esforça assim tanto...

Esta época natalícia é muito atreita a politiquices disfarçadas de espírito natalício, de bondade, de solidariedade ou de outras qualidades associadas a corações grandes. Se por um lado, promove algumas boas acções, por outro, também promove algumas hipocrisias desmedidas.
O coração, desta minha pessoa, apesar de grande (deve ter aproximadamente 20x25 cm, dada a sua constituição física ser acima da média) não consegue comportar falsos sentimentos, fica-se pelos verdadeiros, que já o deixam meio arrebatado.
Assim, os comportamentos "politicamente correctos" não se aplicam a esta pessoa, e ela, em certas ocasiões, acaba por personificar a incorrecção. Especialmente, quando a tentam asfixiar com politiquices. Este facto, fá-la passar a ser persona non grata em determinados ambientes, mas sinceramente este não é um motivo para que passe a ter noites menos bem dormidas.

Esta minha pessoa é aquela que não gosta de convívios só pelo convívio, que foge dos jantares de Natal e das trocas de prendas das empresas, que não dá presentes ao chefe com a intenção de ficar bem vista, que não se separa por sexos nas reuniões familiares, de amigos, ou de colegas (aliás, até costuma ser das que furam as separações sexistas), que não faz fretes em troca de uma boa imagem, etc, etc... Está-se realmente nas tintas para a correcção se ela não é parametrizada por sentimentos de afecto, justiça, educação ou paridade. Indo ainda mais fundo na sinceridade, o "politicamente correcto" causa-lhe repulsa, enjoa-a e, às vezes, até a enfurece.
Se há coisa que não lhe peçam é para lamber botas! Se algum dia lhe der para isso, será num qualquer devaneio sexual, e mesmo assim, é muito pouco provável.
Sabe que esta postura, se tiver que prejudicar alguém, é a ela que prejudicará, mas está-se pouco lixando para isso. Até hoje, tem aguentado os embates provocados pelas suas acções, e prefere-os à hipocrisia latente dos comportamentos politicamente correctos. Olá se prefere!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Resquícios da Quimio

Quando fiz quimioterapia, o J. tinha entre um e dois anos. A minha vinda dos tratamentos implicava ter a avó cá por casa a ajudar o pai a tratar de mim e dele, ver-me sempre na cama em sofrimento ou mal-estar, ser a avó a levá-lo ao infantário no dia seguinte e ser ele a ir dar-me um beijinho, tanto de boa-noite como de despedida de manhã.

Ontem, cheguei a casa com um torcicolo tal, que não conseguia fazer nada sem ajuda. E nada, quer mesmo dizer nada, inclusive virar-me na cama. 
A minha dor e sofrimento, assustaram o J.! Ver a mãe deitada, a avó por cá a ajudar-me e o pai a tratar dele sozinho, e também de mim, devem tê-lo reportado para aqueles seis meses, que eu pensava que não lhe tinham deixado grande mossa por ser tão pequenino. Mas, na verdade, eles ficaram lá meios adormecidos e arrumadinhos numa qualquer gaveta do seu ainda pequeno cérebro, mas lá. E resolveram reaparecer agora. 
O J. deu-me muitos beijinhos, só queria a mamã, perguntou-me várias vezes se ainda me doía, deitou-se ao pé de mim a fazer-me companhia, leu as bulas dos medicamentos, queria fazer-me uma massagem, enfim, estava tão desejoso de me ver bem outra vez, que denotava uma aflição pouco normal dada a pouca gravidade da situação.

A quimio é um tratamento doloroso que não deixa só marcas em quem passa por ela, mas também em quem, apesar da tenra idade, a vê acontecer a entes queridos. Malvada (bendita) quimio!

Imagem retirada da Internet

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Orelhudo

Tenho acompanhado a história da LUNA, desde o dia em que o Bagaço Amarelo nos informou que ela tinha desaparecido, até ao dia do seu reaparecimento.
Este desaparecimento fez-me viajar no tempo nove anos, quando o Orelhudo desapareceu.

O Orelhudo era um cão, que me apareceu à porta de casa, quando eu vivia no campo. Chegou com uma coleira de arame, cheio de medo de tudo e de todos, até do ar.
Quando o vi tentei aproximar-me para lhe dar uma festa, mas ele não me deixou sequer chegar perto. Fugiu de mim. Então, resolvi arranjar um recipiente com água e outro com comida, e afastei-me. Fiquei à "coca" para ver se ele ia comer. Foi, mas apenas depois de me ver bem longe. 
Passei a dar-lhe de comer todos os dias, sem me aproximar muito para não o assustar.

Nessa altura, a égua vivia comigo, numa boxe ao lado da casa, o que quer dizer que era eu quem tratava dela, e tratar dela significava, também, limpar a boxe. 
À medida que o tempo foi passando, o Orelhudo começava a arriscar aproximar-se de mim. Mas mal eu pegava na vassoura para varrer a boxe da égua, ele desaparecia. Fiquei a achar que aquele cão tinha sofrido maus-tratos e quem o mal tratava, batia-lhe com uma vassoura. Assim, se ele vinha para o pé de mim, eu largava a vassoura. Até que, ao fim de algum tempo, já lhe conseguia dar festas tendo a vassoura na outra mão. Escusado será dizer, que esta foi uma grande vitória para mim.

O Orelhudo nunca foi meu. Sempre o considerei livre. Nunca o prendi. Achava que ele era o seu próprio dono e que só assim seria feliz. Dava-lhe comida, levava-o ao veterinário para levar as vacinas (coisa que ele detestava, porque tinha que andar de carro e, acho, que esse ódio por andar de carro era porque tinha medo que o abandonasse a meio da viagem), dava-lhe banho, arranjei-lhe uma nova coleira, que não o magoasse, mas que o referenciasse como "cão com dono" a quem o visse a passear pela rua.

Num feriado de Carnaval, saí e só cheguei a casa à noite. Quando ia pôr a chave na porta, vejo o Orelhudo, encostado à porta, com uma pata partida e todo sujo de óleo. Tinha sido atropelado. 
Toca de o enfiar no banco do pendura do carro, que ele detestava, por isso foi o caminho todo a tremer como varas verdes, e ir à procura de hospital veterinário. Nessa altura só existiam urgências nos hospitais veterinários, e só existiam hospitais veterinários em Lisboa. Mas lá fomos nós, eu e ele, num Fiat Uno velhinho, em marcha de urgência até Lisboa.
É claro que gastei uma pipa de massa no hospital, que de barato não tinha nada, mas fizeram-lhe radiografias, ecos aos rins e puseram-lhe uma tala na mão partida. O cão deixou-se tratar lindamente, era muito um querido e percebia perfeitamente que aquelas maldades todas eram para ficar bom. Mais tarde, teve que mudar de tala e foi sempre muito cooperante com os veterinários.

Passaram-se alguns meses até à altura em que tive de mudar de casa. Vendi aquela e fui viver para um apartamento. Levar o Orelhudo para um apartamento sempre me pareceu uma ideia pouco sensata, porque achei que ele não se adaptaria e que tinha o direito de continuar a viver livre, tal como tinha vivido até ali. Deste modo, combinei com o novo dono da casa que eu iria lá todos os dias deixar comida ao Orelhudo, no lado de fora do portão da propriedade. E assim fiz, durante mais ou menos uma semana, porque depois ele deixou de aparecer. Continuei a ir lá, mas a comida mantinha-se intacta. Chamava-o e ele não aparecia. O Orelhudo tinha desaparecido!

Aqui, vem o meu grande arrependimento: não colei papéis à procura dele, não divulguei o seu desaparecimento, não palpei todo o terreno à sua procura, apenas ia lá e chamava-o. Se ele não vinha, era porque já tinha ido para outro lado e, tal como eu, tinha deixado de viver naquela casa. Pensei que o pior que lhe podia fazer era privá-lo da sua liberdade, o que seria inevitável se o fechasse num apartamento.

Este arrependimento persegue-me até hoje. Eu adorava aquele cão, mas em prol de uma liberdade, que se calhar, ele nem queria, acabei por deixar que desaparecesse e perdi-o para sempre.

Ainda hoje, sempre que passo em frente daquela casa, procuro-o com o olhar, mas nunca o voltei a encontrar.


sábado, 1 de dezembro de 2012

Um Marado, Convicto Que Podia Mudar o Mundo, Chamado Jesus

Como sabem não sou crente. Não acredito em deuses, nem em diabos, não me identifico com qualquer religião, por mais bonita que ela se enfeite, mas, apesar de poder parecer-vos estranho, acredito que, um dia, existiu este marado, convicto que poderia mudar o mundo, chamado Jesus. E acredito nisso, não por ter tido uma educação religiosa ou por me terem impingido versões demasiado fantasiadas da coisa, mas porque tenho noção que este mundo nunca esteve perto da perfeição, ou de ser um lugar idílico, e porque, felizmente, sempre foram aparecendo, ao longo da História, alguns loucos que achavam que poderiam mudar alguma coisa, por mais pequena que ela fosse, e porque talvez eu também tenha, ainda, uma réstia de esperança que há coisas que se podem mudar, se acreditarmos nelas com muita força.
E acredito na história de Jesus, tal como acredito na história de Galileu, Darwin, ou de qualquer outro louco que enfrentou o mundo de frente e de peito aberto. 
Mas a minha visão da história dele aproxima-se mais da do filme Jesus Christ Superstar do que da da Bíblia, porque o vejo enquanto humano e não enquanto ser divino. 

Se é verdade que a história de Jesus tem, ao longo de séculos, mudado corações de forma a tornar os seus portadores melhores pessoas, também não deixa de ser verdade que a distorção dessa mesma história tem endurecido outros e servido de mote para as maiores atrocidades cometidas ao longo da História (e, aqui, refiro-me às Cruzadas, à Inquisição e às, passadas e presentes, tomadas de posição do Papa e da Igreja, entre muitas outras tantas).

E é por ver Jesus como um homem "louco" que arriscou, com a própria vida, mudar o que, à partida, parecia imutável que, para mim, o Natal não é uma celebração religiosa; não é o mar de presentes e a hipocrisia consumista; não é a árvore de Natal, o presépio ou a Missa do Galo. Mas é uma merecida homenagem a este, e a todos os outros marados que, através das suas convicções e força anímica, acreditaram um dia que a mudança daquilo que não estava bem, era o caminho; que não se importaram de dar a vida pelas suas causas; que não hesitaram em tentar e em inovar, mesmo que para isso tivessem que remar contra muitas marés ou chocar as mentes mais (e, até, as menos) conservadoras e, sobretudo, que tiveram a ousadia de arriscar, sem medos, numa tentativa heróica de construir um mundo melhor.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A Minha Teoria Sobre As Pedradas e As Bastonadas

Só alguns dias passados sobre os acontecimentos, consigo reflectir com a necessária clareza de espírito para articular uma teoria sobre tudo o que se passou em frente à Assembleia da República, naquele dia fatídico das pedradas e das bastonadas.
Depois de muito ler, ver, ouvir, conversar e tentar compreender, já sem o calor da emoção, me atrevo a escrever o que penso sobre este assunto.
Lembro-vos que eu sou pela Teoria da Conspiração, e alerto-vos para este facto, porque no final pode parecer-vos que sou uma louca paranóica, por isso não se assustem, ok?

Assim, aqui vai:

Segundo me parece, as pedras foram atiradas aos polícias maioritariamente por putos que passaram o dia a beber uns copos, que gostam de arranjar merda em todo o lado, que adoram parecer bad boys em fúria, e por pessoal (putos, ou não) que estava lá apenas para "avacalhar" qualquer digna tentativa de contestação.

O reais manifestantes, quando se deparam com tamanha selvajaria têm atitudes variadas: uns afastam-se para marcar a diferença dos desordeiros; outros aproveitam para também atirarem uma pedrinha ou outra e, há também quem, heroicamente, tente fazer parar o arremesso de pedras, pondo-se entre os snipers das pedras e o corpo policial.

A polícia aguenta o embate sucessivo de calhaus durante demasiado tempo. E aqui, começa a minha teoria, no demasiado tempo do arremesso de pedras que a polícia suportou:

Dada a dimensão da greve geral, a voz que dá ordem à polícia para avançar, terá que ser a do Ministro da Administração Interna, portanto uma voz "superior". Esta voz, só se pronunciou após os manifestantes terem descascado a calçada quase toda. E porquê?

Eis a minha explicação: Porque queria os agentes policiais nervosos e raivosos e porque pretendia justificar uma acção policial excessiva através da clara violência dos manifestantes! (Todas as estações de televisão tiveram oportunidade de registar o arremesso de pedras, todas as famílias portuguesas puderam, através das imagens nos telejornais e das fotos nos jornais, ver a quantidade de pedras arremessadas.) Objectivo primeiro: check!

E agora perguntem-me, porque queria o MAI justificar tal carga policial?
E eu respondo: Porque queria assustar os reais manifestantes, as pessoas que estavam ali por uma causa real e legítima, de maneira tal, que tivessem medo de ingressar em próximas manifestações! Objectivo segundo: check!
Se não fosse esta a intenção do MAI, teria permitido que os polícias à paisana tivessem circundado os manifestantes agressivos e prendido quem merecia ser preso. Mas não o fez, e preferiu mandar prender gente ao calhas e os putos que estavam no Cais do Sodré, a uma distância considerável dos distúrbios. 
Isto para quê? Para assustar os pais dos ditos putos, que na próxima manifestação os vão segurar em casa com medo que sejam presos outra vez.
E perguntam-me vocês, e muito bem por sinal, "mas para quê tanta violência? Porque é que os polícias bateram em toda a gente, manifestantes ou não?".
Porque, primeiro, estavam no ponto rebuçado da agressividade, estiveram uma hora e tal a levar com calhaus; segundo, porque os mandaram limpar a área, portanto tirar dali tudo o que mexesse; terceiro, porque o objectivo também era eles darem umas bastonadazinhas a inocentes para que estes inocentes se virassem contra a polícia. Objectivo terceiro: check!

E agora a pergunta final: Porque quereria o MAI que os inocentes se virassem contra a polícia?
Porque a polícia andava a manifestar-se muito; porque o grande perigo para o governo é as forças policiais e as forças armadas virarem-se contra ele; porque é alimentando a desordem e a desunião de um povo que se o incapacita. Objectivo quarto: check!


Observaçãozinha à parte, que até podia ser a leitura dos pensamentos da voz "superior": 
Entretenham-se filhos, a dizerem mal uns dos outros, a arranjarem quezílias aí em baixo, enquanto nós vos usurpamos os direitos, roubamos o dinheiro e vos atiramos com mais austeridade para que, por aqui, possamos continuar a beber o nosso uísquezinho bem velhinho e a andar em carros topo de gama, pagos com os vossos impostos, que nos conduzirão a cargos muito bem pagos, mal saiamos do governo!

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Vou Contar-vos Um Segredo #5

Sabem porque é que tenho andado um pouco desaparecida por estas bandas?

My Baby já chegou, por isso...

Imagem retirada da Internet

... tenho andado a namorar!

domingo, 25 de novembro de 2012

#12 Músicas Que Entranham

Estas músicas pertencem à banda sonora do filme Jesus Christ Superstar, compilada num CD duplo maravilhoso.
Este foi o meu primeiro CD e ainda o oiço vezes sem conta...

Por favor, atentem a estas três músicas! Tão extraordinariamente actuais, e lindas, lindas demais!





quarta-feira, 21 de novembro de 2012

"Já Não Gosto de Ti!"

Ouve-se uma mãe dizer à filha pequenina de três anos:
- Se não dás um beijo à tia, já não gosto de ti!
- Pois, as meninas, que não dão um beijinho às tias, são feias! - reforça a tia.

"Já não gostas de mim, mãe? E então, para onde foi aquele amor incondicional que ainda há bocadinho sentias por mim? Isto do amor é assim? Tão depressa se ama, como se desama?
E tu, tia? Estava, mesmo agora, tão linda com este vestido, mas, só por não querer dar-te um beijo, já sou feia? Buááááá!!! Não quero que não gostes de mim, mãe! Não quero ser feia, tia!"


Porque se fazem estas chantagenzinhas emocionais com as crianças? Porque se põem em causa coisas tão importantes quanto o amor parental? Porque se lhes dá a entender que a beleza delas se esfuma com um mero comportamento menos cordial?

Porquê?

Imagem retirada da Internet

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Escarafunchar as Entranhas

Ao longo dos anos, tenho visto crescer em mim um fascínio pelo ser humano. Se há alguns anos, era muito penoso relacionar-me com pessoas, esta tendência tem vindo alterar-se lentamente, mas mesmo assim, a alterar-se.

Para mim, a relação com os animais é mais do que um simples contacto entre Homem e Animal, pois eles são a minha ligação à terra, são a minha fonte de paz e são quem me faz sentir em plena comunhão com a Natureza e com a vida.
Nunca tive muita necessidade em me ver cercada de pessoas, preferia tê-las suficientemente longe para que não importunassem a minha paz com a sua desconcertante complexidade.

Sinto-me em casa no meio de um pasto rodeada de cavalos, ou dentro de uma boxe, deitada na palha, desfrutando o silêncio que é apenas interrompido pela respiração do animal e pelo bater dos cascos no chão, num enxotar de moscas constante. Vivo um passeio a cavalo pelos montes, como quem tem apenas aquele instante para respirar, e respiro, inspirando a beleza que os meus olhos vêem e expirando todas as enfermidades da vida.
E o cheiro, oh o cheiro, sempre o cheiro, dos cavalos que me inebria de felicidade e me transporta para o imaginário da liberdade plena!
Quando os cavalos eram a minha profissão, ficava horas colada aos seus corpos, abraçava-os de tal forma que conseguia ouvir-lhes o coração e sentir-lhes o cheiro em simultâneo... Não dava pelo tempo passar... Sentia-me bem ali e ali pertencia...

Depois de deixar o trabalho com cavalos, tive um emprego perto do Campo Pequeno e, no caminho para lá, tinha que passar pela praça de toiros. As quintas-feiras eram dias de touradas, e à hora que eu passava, já lá estavam os camiões com os cavalos dos toureiros. O ar ficava inundado com o cheiro dos animais, não sei se toda a gente o sentia, mas eu sentia-o tão bem ao ponto de me saltarem lágrimas dos olhos perante um odor que, para mim, é de liberdade total, à qual eu já não pertencia, à qual eu já não pertenço...

Não sei se conseguirei descrever por palavras o que é praticamente isento de palavras, mas o relacionamento entre mim e os animais, por não ter palavras, é essencialmente sensitivo. Posso dizer que falar é supérfluo e os abomináveis mal-entendidos não existem, tudo é claro, limpo, sincero, profundo... Relacionamentos destes com pessoas são raros, pois é preciso termos uma proximidade e intimidade muito grande com alguém, para que consigamos atingir um grau semelhante ao de quase telepatia. 

Talvez desde o momento em que fui mãe, ou talvez desde o momento em que tive que me afastar dos cavalos por ter mudado de profissão (não sei bem qual o momento preciso, mas penso que estes dois foram marcantes) comecei a interessar-me pelas pessoas, senti necessidade de me aproximar delas e de as estudar.

Hoje, estou mais próxima das pessoas e mais longe dos animais, não sei se isso será bom, porque não continuo a ver as pessoas como melhores do que os animais, apesar de já conseguir encontrar nelas mais algum interesse.

Enquanto os animais são precisamente aquilo que parecem, as pessoas parecem sempre diferentes do que são. A personalidade dos animais está estampado neles, e é espelhada em nós, nunca é camuflada por acções ou atitudes propositadas para nos confundir. A personalidade das pessoas está escondida por debaixo de várias capas. Ao passo que, vemos os animais como são, às pessoas, temos que as descobrir no meio de um amontoado de máscaras complexas e ambivalentes.

Se, há uns anos, eu não me aproximaria das pessoas com medo do que ia encontrar, hoje eu aproximo-me intencionalmente delas, só para encontrar o que está escondido, só para perceber porque está escondido, e gosto, gosto muito, de lhes escarafunchar as entranhas da alma para depois, no final, encontrar a essência, que é, enfim, nada mais do que o animal que todos temos em nós.

domingo, 18 de novembro de 2012

O Bichinho d' "Os Cinco"

Imagem retirada da Internet
Há já algum tempo, comprei um livro d' Os Cinco e um d' Uma Aventura para que o J. começasse a ler livros diferentes do costume.
Na realidade, ele não lhes ligou nenhuma. Leu um bocadinho de cada um, mas nunca mais lhes pegou. Até hoje...

Hoje, resolvi começar a ler-lhe o livro d' Os Cinco. Li-o a partir do segundo capítulo, porque ele já tinha lido o primeiro.
Quando acabei de ler o capítulo, ele diz:
- Mãe, não pares de ler! Lê o próximo! Quero saber como é o preceptor deles!
E lá lhe li o terceiro.
- Agora, vamos dormir!
- Oh não, não pares! Quero saber se eles encontraram uma passagem secreta! - diz, todo ansioso.
- Tens que dormir. Amanhã, lemos mais!
- Então, põe o livro na minha mochila, pões?
- Sim, ponho.
- Quero saber o fim. Oh, que chatice ter de esperar até amanhã!
- Pois... Eu tinha-te dito que estes livros eram assim, com suspense até ao fim. Eu, quando os li, li-os todos de seguida, e eles são vinte e três.
- Tchiiiii! O que é suspense?
- É querermos ler sempre mais, porque estamos desejosos de saber o que vai acontecer a seguir. Estes livros são todos assim.
- E têm coisas assustadoras?
- Não, mas às vezes, ficamos sem saber se eles se vão safar ou não. Mas fica descansado, que eles safam-se sempre.
- Ah, boa!

E lá consegui pegar-lhe o bichinho d' Os Cinco!

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Das Bastonadas

Tenho lido e ouvido por aí, leia-se Facebook e televisão, relatos de gente indignadíssima com "os polícias que batiam em toda a gente sem verem se eram homens ou mulheres!"
Sem verem se eram homens ou mulheres??? Vivem em que século, hã?
Expliquem-me lá qual é a diferença em baterem em homens ou em mulheres, se fazem favor!

Que fiquem indignados por baterem nas pessoas em geral, até compreendo. Ou por baterem em crianças e velhinhos(as) indefesos, ainda compreendo mais, precisamente por serem indefesos. Mas em mulheres?!?!

Por favor, já não somos nem indefesas, nem nenhumas donzelas à espera que os príncipes encantados nos venham salvar!

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Acne Juvenil

Hoje, após a história da noite, estou a dar umas festinhas na cara do J. e digo-lhe:
- Estás com umas borbulhinhas aqui na cara!
- Estou? Não estou nada.
- Passa lá a mão aqui...
- Ah, pois estou! Se calhar são daquelas dos meninos grandes...
- Quais?
- Aquelas que os meninos grandes costumam ter!
- O quê? Borbulhas da puberdade?
- Sim! - responde, sem conseguir esconder o orgulho.
- Ehhhhh! Não, J., ainda é muito cedo para isso.
- Mas podem ser, não podem?- pergunta, esperançoso.
- Não, ainda és muito novo para teres borbulhas dessas!
- Ohhh!
- Porquê? Gostavas que fossem?
- Eh eh eh eh! Sim! Porque é que eles têm essas borbulhas todas?
- É da transformação do corpo... São as hormonas que, ao trabalharem mais, dão esses problemas de pele, a que se chama acne juvenil!
- Acne juvenil?! Tu também tiveste dessas borbulhas?
- Tive!
- E apareciam-te nos braços, nas pernas, na cara?
- Não, só aparecem na cara. A mim, apareciam-me mais na testa!
- Ehhhh! Também quero dessas, da testa!
- Queres?!?!?
- Sim! As da testa querem dizer que estou a ficar mais inteligente!
- Porquê?
- É o cérebro a transformar-se!
- Ah ah ah ah ah!!! Não, J., as borbulhas não aparecem nos sítios que se estão a transformar! Aparecem normalmente na cara e na testa. E essas borbulhas não têm piada nenhuma, até são bem nojentas!
- Porquê?
- Porque deitam pus!
- Então? Sai o pus e entra a inteligência! Ah ah ah ah!!! 

Os Porcos

Prezados leitores, começo por vos pedir desculpas, por este ser um post repleto de desprezo explícito, onde poderão encontrar palavras menos agradáveis e, até, portadoras de um certo azedume. O desprezo não será por vocês, claro, mas por uma espécie que me causa uma certa espécie.
Devo informá-los que o post é propositadamente ofensivo, pois contém em si o nojo, de dimensões planetárias, que nutro por certos animais.

Feitos os necessários esclarecimentos, aqui vai:

O porco é um animal que me agrada pouco. Hoje em dia, já quase não faz parte da minha alimentação. Como-o, sem grande satisfação, se não tiver mais nada para comer e alguma fome. 
Este animal roliço de quatro patas, nariz a imitar uma tomada eléctrica e cauda em forma de saca-rolhas  até é razoavelmente suportado por mim, especialmente, porque não me cruzo com ele todos os dias, e se me cruzasse, o máximo que o poderia ouvir dizer seriam uns " oic, oic" ou "ronc, ronc".

Pelo contrário, existe um outro tipo de porco que não consigo suportar, nem à lei da bala.
Esta tipologia suína é aquela, cujos espécimes arrotam palavras ofensivas a tudo o que é fêmea.
Munido de uma clara insatisfação sexual, de uma libido fracassada e de um, óbvio, atraso mental, este animal só consegue vislumbrar as mamas e os cus das fêmeas, avaliando-as, às fêmeas, pelo tamanho, forma ou exposição destas partes dos seus corpos. Para lá de mamas e cus, este porco não vê mais nada. (Podendo aqui concluir-se que também sofre de uma elevada deficiência visual).
Por mais que se camufle, enfiando-se em fatinhos Haute Couture e tomando banho em perfumes, cuja alquimia é bem mais cara do que a essência do próprio suíno, este animal quando se agrupa em varas consegue produzir mais porcaria do que o outro animal, o do nariz a imitar tomadas.
Em varas, costumam grunhir mais e mais alto, do que sozinhos, e sempre qualquer coisa do tipo "aquela gaja tem um par da mamas!", "aquele cu é uma bomba!", "se eu tivesse aquela gaja, comia-a assim ou assado!".
Claro que isto não passam de grunhidos e grunhidos de porcos reles não chegam aos céus.
Geralmente, estes porcos se não são impotentes, estão lá muito perto. E se, por um qualquer estranho acaso, têm a oportunidade de se aproximarem das ditas mamas ou cus, ficam tão acagaçados que todos eles tremem que nem varas verdes.
Apesar de não terem capacidade de materializarem o que grunhem, estes suínos insistem nestes grunhidos. E, a cada fêmea avistada, dedicam um som cada vez mais nojento.
A importância destas vocalizações de pocilga, está na tentativa de afirmação perante os restantes elementos da vara. Cada um deles, tenta, a todo o custo, evidenciar-se mais porco do que os outros.
Na verdade, há sempre algum que o consegue e que passa a ficar conhecido como o porco-mor. O porco-mor tem como função escolher as fêmeas a serem avaliadas. Mas, talvez por esse mesmo motivo, juntamente com o facto de ser o mais nojento de todos, este porco não tem sorte nenhuma com as fêmeas e, além de ser o mais nojento, é também o mais frustrado.

Agora, acabe-me a mim colocar uma questão que me parece pertinente neste contexto:
Porque se dedicam estes porcos a produzir tanto esterco, se nem sequer se propõem a aproveitá-lo na produção de biogás?
Hummm?

domingo, 11 de novembro de 2012

Ainda a Merkel... E Agora a Sério...

Não acho que a Merkel seja culpada do que estamos a viver hoje, neste país.
A culpa é nossa! É nossa por termos elegido, ou deixado que fosse eleito, um governo que põe a aparência  de bom aluno perante a Alemanha e o resto da Europa, à frente do bem-estar do seu povo; É nossa, porque continuamos a deixar que nos atirem com mais austeridade, a cada dia que passa; É nossa, porque só nos manifestamos quando já estamos com a corda ao pescoço, e paramos de nos manifestar assim que nos dão um rebuçado; É nossa, porque não nos conseguimos definir enquanto povo uno, e nos culpamos e batemos uns aos outros, mal achamos que podemos tirar daí algum proveito próprio; É nossa, porque, apesar de tudo, gostamos sempre de agradar mais aos estrangeiros do que a nós próprios; E é nossa, porque só sentimos, realmente, que temos algum valor, quando é alguém de fora que o diz.

E a Merkel?
A Merkel está a defender os interesses do seu país, está a tentar assegurar que ele continue a ser uma das grandes potências europeias.
Se isso é o mais correcto? Se isso é uma postura digna da Chanceler de um país que integra uma parceria, cujo nome é União Europeia?
Não! Mas, infelizmente, é assim.

Para o bem e para o mal, só nós podemos mudar o nosso futuro. Se quisermos, claro!

Angela Merkel em Portugal

Amanhã, teremos a visita da Angela Merkel.
Que tal aceitarmos uma destas sugestões do Ricardo Araújo Pereira para a recebermos?



sábado, 10 de novembro de 2012

A Casa do Azeite

Ela veio do sul. Carregada com uma mala cheia de paixões desastrosas, tristezas, amarguras, dúvidas e sonhos, partiu para uma terra desconhecida em busca da realização profissional, e de um caminho que a levasse à sua construção enquanto pessoa, à sua identidade.
Com dezanove anos, 12º ano completo e provas específicas feitas em cima do joelho, recuou três anos no seu percurso académico em busca de um sonho. Amargurada pela indecisão, quanto ao que queria fazer na vida, decepcionada com o meio citadino, escolheu um refúgio rural, onde estivesse rodeada de animais, ar puro, céu e planícies infinitas. 

Ele veio do norte. Carregado com uma mochila de incertezas, pureza e juventude, partiu atrás dos resultados dos testes psicotécnicos, feitos recentemente: trabalho ao ar livre. 
Ele tinha apenas dezasseis anos, um 9º ano completo à custa de muita insatisfação, uma vida familiar pouco calorosa e um desejo enorme de liberdade e, repleto de sonhos.

Ele desceu e ela subiu, para se encontrarem bem no centro do país. 
Quem os conhecia não diria que se apaixonariam. Mas apaixonaram...

Um dia, travaram conversa, por acaso... Falaram dos testes, que ambos tiveram que fazer para entrar na escola. Ela, com todo o conhecimento fresco de um 12º ano em Letras acabado de fazer, começou a divagar e a intelectualizar o conteúdo de um teste de Português básico. Ele, achou-lhe piada. 

Começaram a encontrar-se mais vezes, por acaso...

Enquanto esperava pela hora do jantar na cantina da escola, ela ia assistir aos jogos de futebol ou basquetebol onde ele jogava. Por acaso...
Normalmente, ficava sozinha a pensar na vida. Sentada no muro que delimitava o campo, estudava, ou fingia que estudava, e punha os sonhos em dia. 
Ele, atlético e apaixonado por desporto, jogava como se não houvesse amanhã. Quebrava todos os limites do seu corpo, na tentativa de encontrar novos limites para quebrar. Ela, achava-lhe piada.

Encontravam-se cada vez mais. Às vezes, conversavam. Outras, não.
Nalguns dias, eram os desgostos amorosos dela que falavam mais alto e virava-lhe as costas, e fingia que não o via, olhava através dele ou ia-se embora. Ele ficava confuso, a pensar no que lhe teria feito para merecer tanto desprezo. Mal ele sabia que o que tinha feito era ter tocado no coração despedaçado dela, que se defendia.

No Natal, ele mascarou-se de Pai Natal sem ela saber.
Ela, confusa por não o avistar na festa da escola, mas tentando disfarçar que o procurava com o olhar, deixou-se ficar à conversa com as colegas. Ele, foi ter com ela. Deu-lhe uma prenda, sem proferir uma só palavra, que ela recebeu, sem perceber de quem era a mão que lhe estava estendida. 
Quando ele se preparava para se afastar, ela reconheceu-o, pelas botas. Aquelas botas de trabalhador do campo, com sola de pneu de camião, eram inconfundíveis. O Pai Natal só podia ser ele. E era!

O tempo foi passando e eles começaram a conversar mais. Por acaso...

Até que um dia, ela teve que mudar de casa. Foi viver, juntamente com uma amiga, para uma casa que a padeira da aldeia tinha para alugar. A casa era por cima de um lagar de azeite, e cheirava a azeite.
A amiga quase nunca estava lá. Passava mais tempo em casa do namorado, do que na dela. Por isso, ela passava a maior parte das noites sozinha.

Ele morava com vários colegas, numa espécie de república, mas acompanhava-a a casa antes de ir para a dele. Ficavam na conversa, em casa dela, até à meia-noite, hora a que começava a sair o pão quentinho na panificadora. Mal davam as doze badaladas no sino da igreja, lá estavam eles à espera do pão. Levavam-no para a casa do azeite e deliciavam-se com ele, e um com o outro.

Certo dia, após encherem a barriga de pão e o peito de contentamento, fez-se tarde para ele ir para casa. Então, ele não foi. E ficou...
Deitaram-se no colchão, que estava no chão da sala e que fazia de cama da amiga ausente, e conversaram durante toda a noite, unidos pelas testas que se tocavam ao mesmo tempo que sentiam o calor da respiração um do outro.

Só de manhã, quando o Pintas (o cão que acompanhava quase todos os alunos à herdade da escola e que dormia num tapete que ele e ela tinham posto do lado de fora da porta da casa do azeite) se levantou para ir levar os alunos à escola, já o sol iluminava o chão da sala, é que os lábios deles finalmente se tocaram, num beijo de um amor profundo, que ali acabara de nascer.

#9 Músicas Que Entranham

Esta música é para ti, que estás aí nesse outro lado do mundo. Em memória das noites e dias seguidos que passámos ao som deste, e de uns outros tantos CDs, que tocavam ininterruptamente, enquanto nós descobríamos de que é que era feito o amor. 


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Gay Pride???

Começo já por avisar, antes que me comecem a atirar pedras, que tenho tanto de homofóbica, quanto de racista, ou seja, nada!

Tenho amigos de todas as cores e feitios: Uns são brancos, outros são pretos, outros são amarelos às risquinhas; Uns são homossexuais, outros são bissexuais, outros são heterossexuais; Tal como uns preferem peixe, outros adoram carne e ainda outros são vegetarianos; Ou uns têm filhos por opção e outros não têm, também por opção; Ou uns gostam de sair à noite e outros preferem ficar em casa aos serões; Ou uns apreciam passar férias na praia, outros no campo e outros na cidade; Ou  ainda, uns são de esquerda, outros de centro e outros de direita. 
Na verdade, não sou daquelas pessoas que têm muiiiiitos amigos. Tenho alguns, poucos, mas variados.
Em nenhuma ocasião, "escolhi" amigos baseada nas suas opções de vida ou preferências. Tal como o amor, a amizade ou acontece, ou não acontece. 
Para mim, os meus amigos serem gays, lésbicas, ou bissexuais, tanto se me dá, como se me deu! Não tenho qualquer intenção em dormir com eles (são só meus amigos, lembram-se?), por isso não me preocupo com quem, ou como, eles preferem dormir. Isso, é lá com eles!

Agora, se houvesse alguém em quem estivesse amorosamente interessada, essa já seria uma questão a ter em conta: Se a pessoa fosse do sexo masculino e gay, as minhas hipóteses seriam quase nulas, o que me entristeceria bastante. Se fosse bissexual, significaria que a concorrência seria largamente ampliada, o que talvez me dificultasse um pouco a conquista, ou me tornasse numa ciumenta paranóica, ou talvez não acontecesse nada disso e corresse tudo bem.
O que pretendo dizer com esta conversa toda, é que as preferências sexuais dos outros apenas me interessam, se eu estiver sexualmente interessada neles. Nos restantes casos, só me preocupam, se isso os incomodar a eles e precisarem de mim para desabafar ou para os ajudar de qualquer forma.

Por todas estas razões, e mais algumas, a existência de uma Comunidade LGBT incomoda-me. E incomoda-me, porque me soa a auto-discriminação. Vejo-a como se as pessoas com orientações sexuais diferentes da maioria, se enclausurassem num núcleo fechado à restante comunidade e lá de dentro gritassem por liberdade, estando a chave da cela dentro dos seus próprios bolsos. 
A organização de um Festival de Cinema LGBT é um exemplo disso. Para que é que serve este festival? A orientação sexual dita os filmes que uma pessoa vê? As pessoas que gostam de alguém do mesmo sexo ou de ambos os sexos só vêem filmes sobre este tema? Não têm outros interesses? Não são pessoas tão completas, e complexas, quanto as que gostam de alguém do sexo oposto? 

Não me lixem! Não acredito que vivam obcecadas com esta temática. 

A vida é mais do que com quem se dorme! 
Claro que devem lutar por direitos iguais, claro que têm direitos iguais e devem reivindicá-los. Mas não é do lado de fora da barricada, abanando o braço, e dizendo "hei, estou aqui, pertenço aqui, mas devia estar aí!" que se consegue essa reivindicação. 
É dentro da barricada, juntamente com todos os outros guerrilheiros, mostrando que se é igual, apesar das diferenças, e provando que a sexualidade não é louvor nem desprimor na forma como se guerreia. 
O direito à diferença não se conquista, demarcando-a. Conquista-se, impondo-a num meio onde só há iguais. Mostrando que essa diferença, não pode ser motivo de discriminação; que cada um tem o direito de amar quem quiser; que, como tudo, a sexualidade é livre, desde que não atente contra a liberdade dos outros; que é a sexualidade que faz parte da pessoa e, não o contrário, a pessoa fazer parte da sexualidade, e que é a pessoa inteira que tem que se respeitar com toda a complexidade que a diferencia de todas as outras.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Hey...

Hoje, vinha aqui falar-vos de homo, bi e heterossexualidade...
Mas fica para amanhã!

Entretanto, vai uma musiquinha?



Da Amostra ao Universo, Passando Por... Uma Passadeira

Imagem retirada da Internet!

Como sabem, tenho-me dedicado à observação da espécie. 

Tal Charles Darwin, em pleno século XIX, tenho observado a espécie de forma atenta e analítica. O problema é que, pertencendo eu à espécie observada, não sou totalmente isenta nas minhas análises. No entanto, aventuro-me, na mesma, a este exercício. 
Já vos disse que sou uma aventureira? Não disse? Pois... Na verdade, não sou nada aventureira! 
Seria incapaz de subir o Evereste. Tenho cagufa, muita cagufa! 
Mas na minha cabeça, já subi muito mais alto do que o Evereste, já subi até vários Everestes, e tenho pretensões de continuar a subir muitos mais.

É por ter esta capacidade de subir Everestes, dentro do meu cérebro (tal João Garcia a escalar massa cinzenta pegajosa) que me aventuro na observação da minha própria espécie. Por isso, e  por ser esta, por mais incrível que pareça, a espécie que me é mais estranha. 
Com este estudo, pretendo ir, aos poucos, desvendando alguns dos enigmas que me têm intrigado, ao longo de vários anos inserida neste habitat (meio) hostil.
Porque, infelizmente, não sou aventureira, só me aventuro a viajar dentro desta cabecinha loira: É mais seguro, confortável e tem a vantagem de se poder voltar atrás, ou desistir, em qualquer momento da expedição.

Ultimamente, concentrei-me na observação de vários espécimes de peões a atravessar passadeiras.

Pareço-vos louca? Fixe, já que não sou aventureira, pelo menos que seja um pouco louca para animar esta vidinha da treta que, quase, todos vamos tendo um pouco.

Depois da extenuante e atenta observação destes seres, consegui recolher cinco amostras que me parecem bastante reveladoras de algumas das características mais vincadas da espécie em estudo.

Eis as amostras:

- O peão distraído - este peão não pára quando avista a primeira lista branca da passadeira. Na realidade, ele não vê, sequer, a passadeira. Continua a andar como se o passeio não tivesse acabado. Enquanto anda, fala ao telemóvel ou conversa com o colega do lado, sem reparar nas várias travagens ruidosas que vão acontecendo à sua volta.

- O peão importante - este peão, geralmente, pára antes de abordar a passadeira. Pára, empina o nariz e atravessa-a lentamente com ar superior. Olha alguns condutores fixamente nos olhos, como quem diz "olha bem para a minha cara, quando eu te aparecer à frente, vais ter que ficar aí, quietiiiinho".

- O peão "espera aí, que eu estou a atravessar a rua" - este espécime é o mais engraçado! Pára, mas logo a seguir, avança com passo decidido para a passadeira. Não olha para os carros, que esperam pacientemente que ele volte a colocar o pezinho no passeio. Anda o mais devagar que consegue. É capaz de parar a meio, se estiver para aí virado, só para sentir o prazer de fazer alguém esperar por ele. Também o podemos chamar de " peão sádico", se nos apetecer. O nome assenta-lhe bem, e ele aprecia-o bastante.

- O peão cuidadoso - este peão, ainda muito longe do fim do passeio, olha para um lado e para o outro, cheio de medo. Mal se aproxima da passadeira, cai numa hesitação irritante. Põe o pé, tira o pé. Põe o pé, tira o pé. Quando finalmente se decide a atravessar a estrada, é porque já é noite escura, a estrada está deserta e não se vê vivalma. Faz todo o percurso a hesitar e a olhar para todos os lados, com medo que lhe saia um carro até de dentro de um caixote do lixo.

- Por fim, temos "o peão que não é peão" - como o nome indica, este peão não é peão. Ele não quer atravessar a estrada. Ele não está ali, bem à bordinha da estrada e em frente à passadeira, a fazer nada. Gosta de ver os carros passarem e abrandarem quando o avistam. Por vezes, pisa a passadeira, só para os confundir. Pode passar horas ali, na esperança que algum se estampe por sua causa. É propenso a meter conversa com quem por ali passa, preferindo sempre quem segue com a intenção de atravessar a estrada na SUA passadeira.

Conclusão do estudo: Amigos, a única conclusão que posso tirar deste estudo, é que qualquer um destes peões me irrita solenemente e, não fossem as consequências que poderiam advir de um acto tão odioso quanto o que vou referir a seguir, os atropelaria a todos. Um por um!

Estavam à espera de uma conclusão inteligente, não era? Não se esqueçam que aqui, a Mammy, é loira e o brilho incandescente de tal melena não deixa passar as ondas ultra-sónicas do conhecimento. Para fora, claro, que cá dentro sobem-se Everestes.


PS: Pronto, lancem-me lá olhares fulminantes por vos ter feito ler, até ao fim, este texto de piiiiiiiiiiiiii! Eu mereço, eu sei que mereço!

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Ah Ah Ah Ah Ah!!!

Hoje, fomos ver a exposição do Riso e gostámos bastante.

O J. ficou em frente de uma televisão onde passavam imitações de vozes de figuras públicas, protagonizadas por vários actores conhecidos, e não queria sair de lá. Estava fascinado! As suas preferidas foram a do Bruno Nogueira, a do Duque de Bragança e a do Barack Obama. 
Pudemos ver alguns sketches dos Gato Fedorento, do Mister Bean, dos Monty Python e ele, finalmente, pôde conhecer, ao vivo, os seus "senhores que mexem a cabeça", leia-se "bonecos do Contra-Informação".

Vale a pena ir visitar esta exposição. Além de nos dar perspectiva diferente sobre o riso, também tem alguns ateliers de fim-de-semana e workshops para crianças, adultos e famílias, que me parecem interessantes. E as entradas são gratuitas!
Dêem lá uma espreitadela AQUI.

domingo, 4 de novembro de 2012

Mãe, Tu Já Tiveste Um Cancro?

Pela primeira vez, o J. fez-me esta pergunta directamente e eu respondi-lhe tão directamente quanto ele perguntou:
- Já!

Já tínhamos falado, anteriormente, sobre cancros, especialmente sobre o da mama que é o mais divulgado na televisão. Também já tínhamos falado sobre a cicatriz que tenho no pescoço e que foi feita por me terem retirado um gânglio para análise. 

Ontem à noite, nas nossas conversas pré-sono, ele quis saber mais. 
- Onde? - perguntou.
- No sistema linfático. Tive um linfoma.
- Toda a gente tem? 
- O quê?
- Sistema linfático.
- Sim.
- E o que é?
- É tipo o sistema circulatório, só que lá circula a linfa, que tem as defesas do organismo, os glóbulos brancos.
- E onde está?
- Circula por todo o corpo.
- Como soubeste que tinhas um cancro?
- Apareceram-me umas bolinhas no pescoço. Uns gânglios maiores do que o costume.
- Onde é que há mais cancros?
- No pulmão, nos intestinos, na mama, no fígado, no pâncreas. Há quase em todo o corpo.
- E no mamilo?
- É o da mama, que pode aparecer no mamilo.
- E no coração?
- Acho que também pode haver tumores no coração, mas penso que só aparece quando são metástases. Ou seja, quando um outro cancro se espalha pelo corpo e aparece também no coração.
- Conheces mais alguém que tenha tido cancro?
- Sim, a avó B. teve no pulmão e no intestino.
- E linfoma, conheces mais alguém que tenha tido um?
- Sim, a tua outra avó B.
- Hummm!

E resolveu dormir, nada preocupado, pois o cancro é doença corriqueira nesta família!
Valha-nos isso, a não preocupação dele, e ainda estarmos cá todas para lhe contarmos as nossas histórias de doentes oncológicas!

#8 Músicas Que Entranham


sábado, 3 de novembro de 2012

Vou Contar-vos Um Segredo #4

Mas vou dizer muito baixinho, quase em surdina:
Às vezes, vejo a Casa dos Segredos.

Vá lá, não se vão já embora!

Vejo a Casa dos Segredos, numa perspectiva analítica. 
Está melhor assim?
Quero tentar entender o que estão aquelas pessoas a fazer dentro de uma casa, onde vivem às ordens de uma voz, que as manda fazer as coisas mais vis e de baixo carácter, que já pude contemplar num programa de televisão, recebendo em troca a vida enxovalhada nas revistas e troças intermináveis por parte da apresentadora do programa e do púbico em geral. 
Tornarem-se marionetas nas mãos da produção de um programa televisivo, e da opinião pública, em troca das suas vidas desfeitas, é assustador, se atendermos à psicologia da coisa.
Acreditam que, por muito que me esforce, não consigo compreender?
Será que aqueles meninos e meninas acreditam mesmo que vão ter uma carreira brilhante, quando saírem, e  depois de tudo aquilo o que permitiram que lhes fizessem e o que se propuseram a fazer? 
Será que a miragem da fama e do dinheiro é assim tão nítida para os enganar tão bem?
Não, não quero acreditar que seja burrice pura! Não existe gente tão burra a esse ponto!
Se em programas anteriores, acreditei que eram apenas mentes vazias que ali estavam, neste não creio que sejam. Vejo estratagemas demasiado elaborados para mentes vazias e estratégias altamente rebuscadas para um só neurónio.
Não pode ser só burrice. Tem que haver outra coisa mais forte e poderosa. Princípios invertidos, deformações cerebrais, doenças psicológicas ou mentais, qualquer coisa do género...
A burrice, sozinha, não desce tão baixo. É preciso que esteja associada a algo mais para ir tão fundo. Por isso, tem que haver mais qualquer coisa!

Mas a minha análise não se fica só pelos concorrentes do programa... (Já vos tinha dito que gosto de analisar pessoas, não tinha?) Dou-me, também, ao trabalho de tentar analisar os vários apresentadores, os membros da produção e os diversos públicos do programa.

Quanto aos apresentadores e produção, a dúvida que me assiste (gostaram? Esta foi à Hélio no skate!) é o que os motiva a tamanha crueldade. Crueldade com os concorrentes e crueldade com eles próprios. Será SÓ o dinheiro? Se for devem ganhar MESMO muito bem! Se não for... Não sei, desisto!

E os públicos? Sim, os públicos, porque este programa não tem um único público, tem vários.
Tem o público que é fã, que admira os concorrentes, que os defende ou ataca conforme a situação, que compra as revistas e que vive intensamente o que se passa dentro daquela casa. 
E tem o público que passa toda a duração das galas a mandar larachas ou a gozar desmesuradamente, nas redes sociais, com tudo e todos os que por lá passam.

O primeiro público, penso que terá a ver com as suas vidas desenxabidas. Precisam de as ocupar e arranjar algo que as movimente. Estes são os que melhor compreendo. Compreendo mesmo! Acredito que precisem de preencher o espaço vazio que têm nas suas vidas com qualquer coisa, e nada mais fácil do que agarrarem-se às vidas dos outros. Atenção: digo isto, sem, sequer, uma ponta de escárnio!

O outro público, o das larachas e gozos desmesurados, parece-me que a única explicação plausível, que terá para ver todas as galas do princípio ao fim, é a inveja rancorosa de "quem desdenha, quer comprar". 

E aqui, pára abruptamente a minha capacidade de compreensão! 

Se muito dificilmente consegui vislumbrar uma explicação para todas as outras personagens desta história, a inveja das presentes, ultrapassa-me completamente. (E não é que rimei?!)
Teria que voltar ao princípio, e conseguir analisar convenientemente os concorrentes, para que fosse capaz de um estudo aceitável sobre quem os inveja.

Portanto... Fim de análise!

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Revisitar o Membro Que Partiu

Já passaram dois meses desde que a égua partiu. O tempo passa a correr. Tenho saudades do cheiro dela... 
Como o das pessoas, o cheiro de cada cavalo é único. Uns cheiram mais a palha, outros ao couro dos arreios, outros a ração, outros a feno, outros ainda a estrume. E há os que cheiram a tudo isso junto! 
A minha égua cheirava tanto... a ela. 
Se me vendassem e me dessem 100 cavalos para cheirar, acredito que reconhecê-la-ia imediatamente. O cheiro da sua pele era um, o da respiração outro, mas completavam-se num único, no DELA.

Deixei as botas que calçava no dia em que ela me deixou, sujas na varanda, durante quase todo este tempo. Só para lhes sentir o cheiro, o dela, quando por lá passava. Queria perpetuar a sua presença através do cheiro. Queria senti-la ainda viva, ali, nas botas.

Há pouco, limpei-as e calcei-as de novo. Desde então, não calço outra coisa.

E há pouco também, comecei a sentir uma enorme vontade de voltar a montar a cavalo. 
Já não monto há séculos. Desde que ela deixou de poder levar-me no dorso, montei alguns, poucos, cavalos. Nessa altura, fazia parte do meu trabalho montá-los. Nenhum deles era como ela, com nenhum consegui uma conexão tão perfeita: Onde me encaixasse na perfeição; onde a minha mão fosse a boca dele; onde os seus movimentos ditassem a vontade das minhas pernas; onde conseguisse prever tão bem qual a folhinha ao vento que o ia fazer assustar-se, ou o sítio por onde não iria querer passar.

Quando deixei de trabalhar com cavalos, deixei também de montar. Apesar de ter a  possibilidade de o fazer, nunca mais quis. 

Agora, voltei a querer. Não sei bem porquê. Talvez por ela já não estar cá e eu já não sentir que estou a trair a nossa amizade, construindo amizade com outros. Não sei. Talvez seja uma razão parva, mas penso que é um pouco por isso.

No fundo, acho que tenho é saudades de a montar a ela; que quero encontrar, noutro cavalo, a sintonia que nós as duas conseguíamos. 
Sei que não é possível, mas ando tentada a experimentar. Para revisitar o tempo em que ela estava bem e eu sempre com ela. Para revisitar a miúda dos cavalos que deixei lá bem atrás. Para revisitar a égua que era já tão parte de mim, quanto um braço ou uma perna, e que levou para longe um pedaço deste meu coração.