terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O dom da palavra

Penso as relações com abertura, sinceridade, frontalidade. Não consigo sustentar amuos, mal-entendidos, palavras por dizer.
Sei que às vezes sou bruta nesta forma de agir, que a minha frontalidade fere e incomoda, que às vezes ofende. Mas os silêncios piedosos, as incompatibilidades por resolver e as dores caladas são sempre mais cruéis, porque aquilo que não se verbaliza fica a doer para sempre, a escarafunchar-nos por dentro e ergue muros difíceis de transpor entre o que somos e o que o outro pensa e sente que somos.
A palavra, por mais dura que seja, vem dar espaço ao entendimento, à compreensão do outro, à partilha de emoções, ao fortalecimento das relações.
Calar a dor não a destrói, pelo contrário, amplifica-a. Fá-la gritar-nos aos ouvidos a sua presença e trá-la à superfície sempre que estamos mais frágeis.

Há entendimento sem palavras, que há. Às vezes, esse é o mais forte e profundo, porque prescinde de quase tudo, bastando-nos existir para percebermos o outro e para que o outro nos perceba. Mas, infelizmente, é raro, porque depende de uma comunicação quase telepática entre as pessoas, que nem sempre existe.

A palavra abre-nos ao outro, revela-nos, torna-nos conscientes de nós próprios e do que sentimos e dá-nos, entrega-nos ao outro - a palavra sincera, que vem de dentro, não a que nos sai por comodismo ou gentileza, mas aquela que vamos buscar às inseguranças e medos, às incertezas, às fragilidades. Essa palavra que nos torna débeis e confronta as debilidades do outro, mas que, ao mesmo tempo, nos impõe a força para ultrapassarmos os obstáculos daquilo que sentimos, daquilo que o outro sente e que, no final, vem amenizar tudo, apaziguar e fortalecer as relações. Esse é dom da palavra.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Aridez

Sinto um desapego crescente pelos objectos. Talvez por isso me distancie de tudo o que é compras e o consumismo me aflija tanto...
Vai longe o tempo em que havia muito que me fazia falta. Hoje, não sinto falta de coisa nenhuma. Não desejo nenhum presente de Natal ou de aniversário. Nada me encheria as medidas ou ocuparia os espaços que trago vazios. E tenho vários, nos quais os objectos nunca caberiam.

Todos os anos, a minha mãe obriga-me a escolher qualquer coisa que me ofereça. Escolho um creme para a cara que não compraria se não mo oferecessem. Há já vários anos que é isso que me cai no sapato vindo dela e me dura o ano certinho de cara apresentável.

Ficaram para trás os velhos tempos em que usava produtos de maquilhagem.
A base, o batom ou as sombras ainda tenho as da altura do curso de manequim, de há uns 15 anos. Tenho-os ali, dentro de uma bolsinha que nunca uso, para o caso de um dia me apetecer ou precisar. Nunca precisei, nem me apeteceu. Prefiro a cara limpa de gorduras e cores. Um risco nos olhos e rímel nas pestanas chegam para me tornar numa outra, mais arranjadinha e senhora como a vida por vezes me impõe.

Hoje, fui com a minha mãe comprar o tal creme do ano. A funcionária da perfumaria que nos atendeu perguntou o que punha na cara. Nada, não ponho nada. Vi o espanto crescer-lhe na expressão. Nem base? Não, nada, só creme hidratante, quando o tenho ou quando não é Verão e a transpiração mo leva do rosto num instante.

Já no corpo é a mesma coisa, só creme hidratante e só quando me apetece algum besunte que me alivie as escamas da pele seca.
Toda eu, sou seca de pele. Escamo e arranho, mas prefiro-o ao óleo dos cosméticos, ao sebo escorregadio dos produtos e ao cheio excessivo que alguns trazem.

Talvez a secura me venha de dentro para me proteger dos exageros nos gastos... Talvez esta secura em crescendo seja a capa que me separa daquilo que me é fútil, estranho, insignificante... Talvez a aridez da idade me tenha vindo limpar dos supérfluos, assim como que a preparar-me para o fundamental e para aquilo que me poderá encher os imensos vazios que habitam este deserto sedento de oásis...

Ou talvez eu seja mesmo só desleixada e desprovida de afeição pela matéria...

Vá-se lá saber...

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Só para variar

Ando cansada. Tão cansada que não me apetece fazer nada. Só me apetece embrenhar-me no meio da natureza e ficar por lá, embrenhada. Já só me faz sentido olhar o céu, sentir os cheiros que dançam no ar e revolver a terra com as unhas. Tudo o resto me parece falso, inútil, fútil.

Não suporto o espírito natalício que me rodeia. Irritam-me as pessoas com a sua caridadezinha natalícia, com a adoração pelas crianças que só vem nesta época, com a falsa solidariedadezinha, com a fome consumista. Irritam-me as pessoas com as suas vidas de aparências e de alegrias exibicionistas.
As luzes de Natal que iluminam ruas vazias parecem-me cada vez mais artificiais. Não há gente para elas. E a que há não está realmente lá. As pessoas já não saem, não vivem, não conversam. Fingem que fazem imensas coisas e tiram fotos. Sugam tudo para dentro dos telemóveis e ficam-se por aí.
Parece que não há nada para fazer e nunca houve tanto para fazer. Apesar de certos locais se encherem, quem por lá anda, segue só numa solidão atroz. Na Era da comunicação não há comunicação e o que se comunica é vazio, plástico, fingido.

Já não aguento o exibicionismo. Estamos cheios de exibicionismos. Queremos mostrar tudo, mas damos tão pouco... Não nos damos aos outros, não abrimos o coração para os deixarmos entrar. Pelo contrário, fechamo-nos. E por lá nos deixamos ficar cerrados a sete chaves. Somos intolerantes, cobardes e cruéis e exibimos a nossa intolerância, cobardia e crueldade da mesma forma que exibimos a nossa caridadezinha, solidariedadezinha e alegriazinha.

Foda-se, para onde foram as pessoas de verdade? Onde se esconderam? Porque escolheram viver nestas fogueiras de vaidades?
Onde estão as conversas profundas, os choques de ideias, o pensamento crítico, o afecto puro e despojado de interesses? Para onde foi o amor, a amizade, o apego?

Vivemos à superfície. Porquê, porra? Porque abdicámos de mergulhar na vida, quando podia ser tão mais fácil irmos ao fundo de nós próprios, dos outros e das coisas que nos circundam?
Temos tudo tão perto: conhecimento, informação, meios de chegar aos que estão longe, voz... E, no entanto, distanciamo-nos. Recolhemo-nos em quotidianos insalubres, estéreis e débeis e ficamos a padecer alegremente das nossas vidas doentias.

Preciso de ar, sinto-me a afogar no rol de mentiras que é a existência humana. Preciso de contemplar o céu, de sentir os cheiros que dançam no ar e de revolver a terra com as unhas. Preciso de um pouco de verdade. Só para variar...

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A cama

Sentou-se na beira da cama e descalçou os chinelos um a um. Encostou-os geometricamente lado a lado à parede em frente, mesmo por debaixo da janela.
Rodou sobre as nádegas e enfiou as pernas dentro da cama. Abriu o livro, abandonado há já três dias, e retirou o marcador de metal da página 57 que leu por quatro vezes sem reter uma palavra. Desistiu. Voltou a marcar a página 57 e a abandonar o livro por tempo incerto.
Deixou-se deslizar para dentro dos lençóis e aninhou-se, como de costume, na posição fetal virado para a esquerda.
Fechou os olhos e tentou silenciar os pensamentos.
Faltava-lhe o calor do corpo dela a aquecer-lhe as costas. As dobras dos joelhos não tinham o toque dos joelhos dela, as plantas dos pés sentiam a falta dos peitos dos pés dela, o calor da sua respiração na cova que lhe separava os omoplatas já não estava ali para lhe eriçar os pêlos. Faltava o som do ar que saía e entrava nos pulmões dela a um ritmo certo e lhe sossegava as ideias até as calar num sono profundo. O braço que lhe envolvia o ventre, acabando numa mão fria a rodear-lhe o pulso era agora apenas uma sensação fantasma.

Rodou para o lado contrário e apalpou a cama vazia a seu lado. Estava tão gelada que o frio lhe percorreu o corpo por inteiro.

Durante trinta anos, aquele lado da cama fora ocupado pelo corpo da mulher que o envolvia todas as noites. Agora a sua ausência enchia o espaço que outrora fora de amor e protecção, tornando-o insuportável.
O vazio do aconchego que lhe precedera o sono até ao fim da vida da mulher, tomou conta da cama e atirou-o para fora como se lhe tivesse dado um empurrão.

Foi ao armário buscar um cobertor e enroscou-se no sofá da sala.
Deixara de pertencer, para sempre, àquela cama.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Ao toque das notificações

Wall-E

Há consenso quando se diz que as crianças andam a abusar dos smartphones; que não largam os aparelhómetros e que já quase não socializam umas com as outras.

Se nos olharmos ao espelho, por sinal um exercício deveras enriquecedor que devíamos experimentar mais vezes, também nós, pais, abusamos dos smartphones e deixamos que eles invadam a nossa vida e nos roubem o tempo que é dos nossos filhos.
Ah, ok, nós temos desculpa, porque é o e-mail do chefe que chegou, ou o da escola dos filhos com o agendamento da reunião de pais, ou porque "postámos" uma coisa muito gira nas redes sociais e precisamos urgentemente saber se os nossos amigos do Facebook ou do Instagram gostaram. Sim, nós temos sempre desculpa.

Todos estamos abusivamente ligados ao mundo virtual, de tal forma que praticamente vivemos dentro dele. Transferimos as amizades para um espaço conjunto imaginário que preferimos ao contacto presencial com as outras pessoas. Já não precisamos de ir ao café à noite, ou ao bar, para nos encontrarmos com os amigos. Dentro da caixinha que não largamos por um minuto estão lá todos. Para quê sair de casa e apanhar o frio do fim de tarde ou o bafo do fumo dos cigarros dos bares, se conversamos com quem queremos através do telefone em pijama e chinelos no conforto do lar?

Quando temos o azar de ter de sair de casa, captamos cada momento com a máquina fotográfica do aparelho sempre em riste. Registamos tudo para provarmos aos outros e a nós próprios que ainda vivemos alguma coisa. E incluímos os filhos nos nossos delírios. Mandamos os miúdos enquadrarem-se com os quadros da exposição, com o pôr-do-sol na praia, com a maior árvore de Natal da Europa ou com as flores do jardim, mas não lhes respondemos às perguntas, não respiramos em conjunto a brisa do mar ou rebolamos na areia, não lhes explicamos porque o pintor pintou aquele quadro ou o que se festeja no Natal. Introduzimos apenas os miúdos no aparelho para os exibirmos, e à nossa falsa felicidade, nas redes sociais. Porque a vida deixou de ser vivida para passar a ser apenas mostrada. Mostramos aquilo que gostaríamos de ser, mas não conseguimos ser nada em concreto.

Como podemos ter legitimidade para criticar as crianças? Como podemos ter autoridade para as proibirmos de abusar dos telemóveis que nós próprios lhes oferecemos e que até nos dão muito jeito quando queremos jantar no restaurante sossegados sem que nos interrompam com mil e uma perguntas ou quando os queremos contactar a qualquer hora quando estão na escola?

Não me parece que tenhamos nem legitimidade nem autoridade.
Somos o primeiro exemplo que os nossos filhos seguem e somos o pior exemplo que poderiam seguir.

"Ah e tal, mas o mundo do trabalho exige que estejamos sempre ligados à Internet!". Sim, exige, porque nós deixámos e continuamos a deixar cada dia um pouco mais. Porque deixámos o trabalho invadir o nosso espaço privado e porque somos preguiçosos e seguimos sempre o caminho aparentemente mais fácil.

É mais fácil receber o e-mail do chefe do que o ouvir; é mais fácil receber a convocatória para reunião de pais por e-mail do que ter de assinar um papel que nos enviem para casa; é mais fácil ligar para o telemóvel dos nossos filhos do que ligar para a escola e pedir que os chamem; é mais fácil ter os filhos com as cabeças dentro de um ecrã do que lhes responder às perguntas que têm para nos fazer durante o jantar.

Hoje, temos crianças incapazes de socializar, crianças que vivem dentro dos seus telemóveis, assim como os pais vivem dentro dos deles.
Os nossos filhos são o espelho ao qual viramos a cara para não nos enxergarmos e que vamos deixando que se percam dentro de um ecrã, no mesmo ecrã em que vivemos comandados pelo toque das notificações.

Será que algum dia os iremos encontrar fora do ecrã? Será que eles saberão viver fora do quadradinho? No que nos estamos todos a tornar?

sábado, 3 de dezembro de 2016

Ensino e aprendizagem

Na turma do meu filho há um miúdo repetente que tem 15 ou 16 anos. O meu filho está no 7º ano, o que quer dizer que o miúdo já deve ter chumbado uns três ou quatro anos.
No outro dia, dizia-me ele:
- Sabes, mãe, acho que se vê quem são os meus professores bons pelas notas do B.?
- Então?
- Acho que o B. vai ter muito boa nota a Educação Visual e o professor é dos melhores que temos.
- Porque achas que uma coisa está relacionada com a outra?
- Porque ele consegue estar atento às aulas e faz trabalhos muito bons, ao contrário de nas aulas das outras disciplinas.

Esta conversa com o meu filho, fez-me pensar que hoje, o ensino e o sucesso escolar dependem demais da qualidade dos professores.
Haver alunos que chumbam vezes sem conta está demasiado nas mãos dos professores porque o sistema de ensino não funciona. Se houvesse uma maior abertura às necessidades, expectativas e características de cada aluno, em vez de se "encarneirar" toda a gente, talvez houvesse menos miúdos a chumbar e a chumbar menos vezes.
Não acho que se deva baixar o nível de exigência, de maneira nenhuma, mas parece-me imperativo que a forma de ensino e as matérias leccionadas interessem aos aprendizes. E quando digo "interessem", não digo que as matérias se cinjam a jogar minecraft ou até que o meio para se transmitir o conhecimento deva ser a partir das novas tecnologias (acho até que a introdução das novas tecnologias nas aulas começa a ser um pouco excessiva), quando digo "interessem", quero dizer que vão de encontro às características e interesses dos alunos e, especialmente, lhes incutam uma certa sede por mais conhecimento.

Se o colega do meu filho se interessa por desenho, porque não se chega a ele através do desenho para lhe ensinar matemática, português ou outra disciplina qualquer?
Porque as turmas são gigantes e porque o ensino é descabido quando insiste que todos os alunos aprendam da mesma maneira. Assim, só mesmo a mestria de um muito bom professor para conseguir ensinar alguma coisa. E como os professores são pessoas, com todas as suas qualidades e defeitos, não podemos ter o ensino dependente da mestria de cada um deles. Antes pelo contrário, o ensino tem de funcionar independentemente das características de quem o lecciona. Tem de haver um sistema (ou vários) que amplifique as formas de ensinar de maneira a que ele chegue aos diferentes alunos, sem uniformizar as pessoas, tanto alunos quanto professores. É o método, ou melhor a amplificação dos métodos, que deve possibilitar o acesso aos ensinamentos por todos.
O processo de aprendizagem deve ser estimulante para que os alunos gostem de aprender, porque só gostando de aprender se aprende realmente.
Se os alunos sentirem curiosidade pelas coisas e se sentirem impelidos a expandirem o leque de conhecimentos, vão aprender com maior facilidade. E o que aprenderem vai ficar-lhes para sempre. Esta sede de conhecimento e gosto pela aprendizagem até os ajudaria a assimilarem matérias que lhes são menos interessantes ou aborrecidas, porque o processo em si já os estimularia.

Pelo contrário, vejo que se pretende que os aprendizes "marrem" matérias para as despejarem nos testes. As aulas são maioritariamente monocórdicas e não incentivam à participação activa dos alunos, ao questionamento, à visão crítica e à reflexão. Há até quem não permita que se duvide ou se perspective os assuntos tratados.
Percebo que a questão "tempo" seja um factor preponderante na ausência dos debates abertos nas aulas, mas não pode ser determinante. Afinal, quer-se que os alunos aprendam ou não?
Eu acho que não e isso preocupa-me sinceramente, porque quando se tem um sistema de ensino que não tem como objectivo primordial a aprendizagem é sinal que esse sistema não está a funcionar, que é obsoleto e que deve ser rejeitado. Mas não o vejo ser rejeitado, nem por professores, nem pelos pais que fazem manobras e contorcionismos para adaptarem os alunos e os filhos a algo que não lhes serve, nem servirá nunca. Vejo professores preocupados com o andamento das aulas dadas e com o cumprimento dos programas e pais fixados nos resultados dos testes e no bom aproveitamento às disciplinas como se isso chegasse como prova dos conhecimentos adquiridos.

Se fizéssemos perguntas aos alunos sobre matérias dadas no ano anterior, aposto que a maior parte deles não saberia responder correctamente, mesmo que tivessem tido boas notas. Aprenderam o que lhes ensinaram? A mim, parece-me que não.
Já se perguntássemos ao B., colega do meu filho, sobre um desenho que ele tenha feito no ano anterior, aposto que ele saberia responder correctamente. Porquê? Talvez porque só se sabe o que se quer verdadeiramente saber e porque quando damos alguma coisa a alguém, essa pessoa tem de estar aberta a recebê-la.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A "panne"

Era tarde. Os candeeiros altos com luzes amarelas iluminavam a rua. De tempos a tempos, um carro aparecia devagar. Rodava a uns 30 km/h para parar e fazer inversão de marcha.

Ela esperava dentro de um Volkswagen amarelo. Estava sentada ao volante com a cabeça encostada à cabeceira do banco. Quase não se movia, apenas oscilando o olhar entre um novo carro que se aproximava e o vazio. Olhava o carro e voltava a encostar-se como se a espera não pudesse ser interrompida. Nem o movimento junto ao Honda cinzento lhe quebrou a serenidade. Conferia os automóveis que chegavam e marcavam o prolongamento da sua espera.
Nada havia que a inquietasse. Trazia a tranquilidade aos ombros que a prendia ao banco e a mantinha impávida.

As pessoas do Honda falavam alto e gesticulavam. O carro tinha empanado e não conseguiam fazê-lo voltar a mover-se.
Eram três. Dois homens e uma mulher. Ela, no lugar do condutor, rodava a chave e carregava no acelerador, enquanto eles, decididos e enérgicos, empurravam o veículo. Mas nada, o bicho não havia maneira de voltar a andar.
Faziam barulho e praguejavam e a mulher do Volkswagen nada, como o Honda. Só os carros que apareciam de vez em quando a faziam dar sinais de vida.

Ao fim de quinze minutos de empurrões inúteis, o Honda roncou e, num solavanco, pôs-se em marcha com os dois homens a correr-lhe atrás.

Mal o Honda traçou a linha do horizonte, a mulher do carro amarelo ergueu a cabeça, rodou a chave e partiu.

Foi-se a serenidade e a espera.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Matar o tempo

Estou à espera de consulta.
Entram e saem pessoas dos gabinetes: doentes, médicos, assistentes.
Há quem fale ao telefone; quem passeie os dedos no ecrã do telemóvel; quem veja televisão; quem leia revistas.

Pego no meu caderninho e escrevo. Observo as pessoas e desenho-as no papel. Uma força intrínseca obriga-me a transcrever momentos, como se uma fome insaciável me impelisse a sugar a alma dos outros que só cessa em forma de palavras. Preciso perpectuá-las por escrito para que não me fujam da memória.

- Sr. Diogo Sousa! - chama a assistente do gabinete quatro.
O Diogo, de uns 15 anos acabados de fazer, lá segue para o gabinete quarto de phones nos ouvidos e telemóvel na mão. A mãe acompanha-o com ar preocupado, o mesmo ar preocupado que todas as mães têm quando vão ao médico com os filhos.

- Nº 47!
E a senhora da senha 47 dirige-se ao balcão.

Cruzam-se conversas em burburinho. O casal que está ao meu lado fala de trivialidades. Matam o tempo, aqueles dois.
A recepcionista recebe dinheiro e marca novas consultas.
E eu escrevo com pressa para que o tempo até à minha consulta não me falte à escrita. A caneta desliza no papel numa caligrafia estranha. Escrevo-os a todos, até ao senhor que hesita aproximar-se do balcão...
Dá dois passos e detém-se junto à parede, onde encosta o ombro e ali fica, à espera, como todos nós.
Esperamos a nossa hora que, a uns, tarda em chegar.

A mim falta-me o tempo que não quero matar, mas que tento estender até que as palavras me faltem. Até acabar esta minha escrita.

Chamam-me ao consultório. Guardo o caderno, arreliada, e passo pelo senhor encostado à parede. Queria-o inteiro no meu no papel. Fica pela metade. Hoje.

sábado, 5 de novembro de 2016

Os TPC e os pais

Esta semana, a notícia de uns pais espanhóis que iniciaram uma greve aos TPC gerou mais discussão em volta dos trabalhos de casa.
Vou voltar a este assunto, de que já falei aqui várias vezes, e volto, porque me revolve o estômago deparar-me com lutas destas, ao contrário e egoístas.

Os pais espanhóis revoltaram-se contra os TPC de fim-de-semana, porque, segundo os mesmos, "invadem o tempo das famílias" e "violam o direito ao recreio, à brincadeira e a participar nas actividades artísticas e culturais". 

Ora, se os miúdos têm algum tempo para fazer trabalhos de casa, esse tempo será aos fins-de-semana, certo? E quanto aos TPC durante semana, não há revolta? Ah, ok, os dias de semana não dão para irem passear e fazer outras actividades com as famílias, mas dão para os miúdos irem ao futebol, à música, à ginástica ou ao inglês e estas actividades não lhes roubam tempo nenhum para o recreio ou para as brincadeiras, pois não? Ah e tal, são artísticas e culturais e dão muito jeito para ocupar os miúdos mais umas horinhas por dia para os pais poderem respirar.

As crianças também são crianças durante a semana, não são? Ou durante a semana são adultos pequeninos que devem ter os mesmos (ou maiores) horários que os adultos grandes lá de casa? 
Não precisarão de tempo para brincar ou simplesmente para não fazerem nada todos os dias? 
Ah não, claro que não, crianças desocupadas é que nunca! Se não têm nada para fazer, elas gritam, saltam, correm e fazem perguntas, muitas perguntas. Enfim, dão uma trabalheira do caraças! E para trabalho já basta o emprego dos pais! Não é?

Na notícia do Expresso, o presidente da Confederação Espanhola de Associações de Pais e Mães dos Alunos (Ceapa), José Luis Pazos alega ainda que “as escolas estão a delegar nas famílias tarefas que não devem”. 

Ora, aqui surge-me a dúvida se são as famílias que estudam nas escolas e trazem trabalhos para fazer em casa ou se são os alunos. 

Se são as famílias, parece-me muito bem que, também elas, devam fazer os TPC. Se são os alunos, não vejo qual é o tormento para as famílias ou quais são as "tarefas que não devem". 
Se os pais assumissem que quem tem de fazer os trabalhos de casa são os filhos e se se deixassem de competiçõezinhas entre si (fazendo os TPC das crianças para que elas sejam as melhores), não vejo onde isso lhes acrescentaria novas tarefas. 

Os trabalhos de casa, volto a afirmar, servem para os alunos consolidarem conhecimentos e para promover o trabalho autónomo
Autónomo quer dizer independente, livre. Alunos são os estudantes, aqueles que recebem ensinamentos, formação, instrução. Não vejo onde estão os pais nesta fórmula.

Depois das notícias sobre o caso espanhol, seguiu-se a dos pais portugueses que querem os TPC feitos na escola que, quanto a mim, não me parece totalmente descabido, mas longe, muito longe, de ser o ideal.

Quanto à conversa do presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) que diz que há o perigo de os TPC serem um factor discriminatório, já a acho completamente disparatada, pois o senhor justifica-o com o facto de haver pais que podem ajudar os filhos e/ou pagar a explicadores, e outros não. 
Voltando ao início, os TPC são para os alunos fazerem sozinhos, ou não?

O que me parece preocupante nesta questão não são os TPC em si (que, não sendo em quantidades industriais, são úteis para a percepção dos conhecimentos adquiridos por parte dos alunos), mas o tempo que as crianças não têm e o facto de os pais se auto-assumirem ajudantes nesta tarefa. 

Na maioria dos casos, o tempo que as crianças não têm não é totalmente ocupado com trabalhos de casa, mas com mil e uma actividades extra-escolares e, voilà, com a própria escola. Ou seja, a maior parte da vida das crianças é dentro da escola e não fora dela e é esse tempo que se tem de diminuir, não os TPC em doses homeopáticas.Tem que se aumentar as horas livres para a brincadeira, fantasia, imaginação e auto-descoberta das crianças, sem que alguém as esteja sempre a ensinar como brincar, fantasiar ou imaginar coisas. 



Mas isso já não interessa nada aos pais tão preocupados em ter de ajudar com os TPC, pois, na escola, os filhos estão à guarda de alguém que lhes permite adquirir uma catrefada de competências para o futuro e exigente mercado de trabalho e, além disso, também estão resguardados da vida real e perigosa. Assim, o tempo na escola até é um tempo que dava jeito aumentar, pois tiraria um peso de cima dos ombros dos pais que poderiam trabalhar mais e desfrutar de algumas actividades lúdicas sem o encargo dos filhos e seus TPC.

Com filhos pequenos até compreendo a existência de locais onde as crianças estejam protegidas e mais resguardadas, apesar de achar que o ideal seria elas estarem num sítio onde pudessem brincar ao ar-livre sem actividades programadas, onde houvesse quem olhasse por elas, mas não lhes orientasse as brincadeiras, deixando-as livres na relação umas com as outras. Esse sítio até poderia ser uma espécie de escola, mas sem a clausura que a actual lhes impõe. 
Acredito que teríamos crianças mais autónomas, responsáveis e capazes de sociabilizar.

Quanto aos miúdos maiores, começarem a sair de casa sozinhos, apanharem transporte para a escola, preparem pequenas refeições, irem para a rua brincar com os amigos, não me parece nenhum sacrilégio ou negligência parental. Antes pelo contrário, acho que lhes faz falta; que é uma forma de irem conquistando, as poucos, a sua independência; que os põe em contacto com o mundo e que os ensina a moverem-se pelas estradas da vida.

Se me desse para fazer greve a alguma coisa, seria aos intermináveis horários escolares, à acumulação de actividades extra-escolares que prendem os miúdos a cadeiras e mesas em salas fechadas e que lhes exigem comportamento irrepreensível, inactividade física, silêncio e que os transformam em autómatos e carecidos de imaginação, criatividade e autonomia. 

Esta sim, seria uma greve pelas crianças! A outra é pelos pais.

domingo, 30 de outubro de 2016

Supermercado milagroso

Amanheci em desalento. A noite havia sido pouca, levantei-me irritada e sem sono que, há já vários dias, andava em falta, chorei, discuti. Não saí de casa até à hora em que fui ao supermercado. 
No espelho, antes de sair, vi-me velha e cheia de rugas, cabelo estranho, olheiras, olhar triste e cansado.
O fim do dia prometia não destoar do seu início, ainda mais por ter de ir às compras que detesto.

Já no supermercado, na secção dos laticínios, encontrei dois chineses em busca de leite gordo. Olhavam as prateleiras desorientados e pediram-me socorro. Procurei o que pretendiam e ajudei-os a distinguir as várias qualidades de leite para que numa próxima ocasião não precisassem do auxílio de ninguém. Agradeceram-me muito e levaram o produto que pretendiam.

Na secção dos congelados, uma senhora abalroou-me o carrinho de compras. Pediu-me imensas desculpas e devolvi-lhe um sorriso acompanhado por um "não faz mal".

Na padaria, esqueci-me de tirar a senha e a freguesa que me seguia tirou-a por mim e entregou-ma, antes de tirar a dela. Agradeci-lhe e trocámos algumas palavras enquanto esperávamos que nos atendessem. Acabou por me aconselhar um novo bolo que assenti e levei para casa.
Na caixa, a funcionária, que já me conhece, travou uma animada conversa comigo e despedimo-nos a rir.

Saí do supermercado melhor do que entrei (o que é raro em mim), mas perseguida pela dúvida se a minha aparência desgraçada teria contribuído para que as pessoas me tratassem melhor ou se simplesmente estavam mais simpáticas naquele dia.

Quando me reencontrei com o meu homem, recebeu-me com um "estás cada vez mais nova e bonita" que estranhei por achar precisamente o contrário.

Sim, parece que, ao contrário de todas as expectativas, há dias maus que acabam bem!