quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Facebook lovers

DAQUI

Chegam ao restaurante de mãos dadas como nos tempos em que ele ainda não tinha a barriguinha que lhe força os botões da camisa e ela as duas camadas de base em tonalidades diferentes que escondem os traços que o tempo lhe foi desenhando no rosto.
Ele afasta a cadeira para ela se sentar num gesto que reproduz o cavalheirismo dos filmes românticos de Hollywood. Ela senta-se com olhar meloso, encarnando a personagem feminina da trama, e ajeita a saia que lhe aperta as formas agora mais arredondadas.

Num silêncio premeditado, o frente-a-frente impõe-se. Afinal é dia dos namorados e o romantismo é a palavra de ordem.
O gesto automático tira o telemóvel do bolso da camisa dele que só acaba quando o objecto é pousado sobre a mesa. Está ansioso, mas não quer lhe notem a inquietação. Afinal, é só mais um dia dos namorados.

A voz sai-lhe tão melosa quanto o olhar que ela lhe dirige:
- Estás linda! - semicerra os olhos como que a comprovar a veracidade das suas palavras.
Aponta-lhe a objectiva do telemóvel, ainda com olhos lânguidos para não quebrar o feitiço do amor e conseguir arrancar aquele momento único. Ela ajeita-se depressa para uma posição esteticamente mais aceitável, pousando o queixo sobre os nós dos dedos.
Um clique e um sorriso, dois cliques e um segundo sorriso.
- Deixa ver! - pede para aprovar o disparo - a primeira está melhor! - afirma.
Ele envia a fotografia da companheira para o seu Facebook, juntando-lhe uma frase de romantismo inegável "Vim jantar com o meu amor. Não sou um sortudo?".
E os likes, corações e comentários não param de aparecer em sonoras notificações. Sorriem um para o outro extasiados com o som que lhes alegra os dias.
- Olha, o Zé gostou! Diz que sou mesmo um sortudo e para te tratar bem!
Ela responde-lhe com o sorriso que imortalizou no rosto para este dia e com um pestanejar repetido.

O empregado chega e entrega uma ementa a cada um. O restaurante é de requinte e o menu é composto apenas pelos mais requintados pratos, ou não fosse hoje dia de extravagâncias.
É a vez dela. Tira o telemóvel da mala a cheirar a mofo e fotografa as letras clássicas que adoram a ementa encadernada a cabedal.
Rapidamente envia a fotografia para o seu perfil, antecedida pela frase "Vejam só o que vou comer com o meu amor!". E uma enxurrada de comentários, que se dizem invejosos, atacam-lhe o telefone.

Fazem o pedido ao empregado que lhes serve um vinho branco fresco.
Unem os copos e fotografam o tilintar dos copos numa jura de amor eterno.
No prato dela aparece uma rosa vermelha e um cartão que o empregado deixou quando trouxe o vinho. Ela cheira a rosa e lê o cartão.
- Oh, que lindo! - diz, com uma lágrima a espreitar-lhe no olho direito - És um querido!
Regista o momento da rosa no prato e do cartão aberto e deixa-o no seu mural do Facebook ao lado da fotografia dos copos elegantes a chocarem. "Sou ou não sou uma sortuda?", diz ao mundo para que não duvide da sua felicidade.
Ele beija-a por cima da mesa, depois de desviar a vela que lhes ilumina o amor e acertar o telemóvel na direcção dos lábios que se tocam.
Envia a imagem captada pelo Iphone para o seu mural: António a sentir-se feliz com Maria no restaurante Love Lounge "O meu eterno e grande amor! Feliz Dia dos Namorados para todos os meus amigo!", acrescenta, perpetuando-lhes o sentimento e distribuindo-o pelos amigos.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Quero morar aí dentro

Quero ser o sangue que te percorre de lés a lés. Por dentro.
Invadir-te os órgãos e dar-lhes vida.
Quero sarar-te as feridas e oxigenar-te por inteiro.
Entrar nesse coração a cada segundo e viajar pelos cantos mais recônditos desse teu ser.
Quero morar aí dentro. Para sempre.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Deixem-se de merdas!!!!

Já vos falei da minha opinião quanto ao ensino em Portugal. Sim, já falei vezes demais sobre este assunto, mas como não me conformo, vou continuar a falar. Nem que seja para as paredes!

A revolta é tão grande que me sinto continuamente a viver num mundo à parte. Como se houvesse uma bolha em volta dos pais, professores e escola de onde eles não conseguissem sair de maneira nenhuma. Sim, a bolha rodeia-os a eles, não a mim! Parece que estão sempre a martelar na mesma tecla, cultivando um sistema completamente obsoleto, centrado em resultados, bons comportamentos, teorias da treta, como se não vissem para além do que lhes é imposto, como se não vissem o óbvio: que os alunos só aprendem se quiserem aprender; que o que interessa não são os fins, mas os meios para atingir os fins; que os bons resultados são o resultado (desculpem o pleonasmo) da vontade e não da imposição.

Merda para estas mentes fechadas em caixinhas minúsculas! Merda para eles, é o que tenho a dizer! Continuem a formar gente deformada e depois venham-se queixar:
"Ai, o meu filho tem más notas e não aprende nada nas aulas.... A culpa é da escola e dos professores!".  - Uma merda!!! A culpa é tua que o obrigas a estudar em vez de lhe abrires a mente à descoberta!

"Ai, os alunos não se sabem comportar na sala de aula e não estão com atenção... A culpa é dos pais!".  - Uma merda, a culpa é tua porque não lhes sabes impor respeito ou interessá-los pela matéria que leccionas!

"Ai, os alunos são mal comportados e tiram notas baixinhas... A culpa é dos professores que não querem fazer nada e dos pais que não sabem educar os filhos!"  - Uma merda, a culpa é tua que entretens os professores em actividades burocráticas de merda em vez de lhes dares tempo e espaço para prepararem aulas minimamente interessantes e que andas a aplicar castiguinhos da treta aos alunos que não lhes adiantam nada na compreensão dos seus comportamentos menos correctos, nem no respeito pelos outros!

Sim, como dizia José Mário Branco no seu famoso FMI, "a culpa é de todos e a culpa não é de ninguém!"

Uma merda, pá! Se querem mudar alguma coisa, façam por isso, em vez de andarem a atirar culpas para cima uns dos outros! Dêem o exemplo aos vossos filhos e alunos, mostrem como se pode construir um presente, um futuro, um mundo, uma vida melhor para todos. Instruam-se, vão aprender a serem melhores profissionais, melhores pais, melhores pessoas! Lutem, caraças! Lutem! Lutem! Lutem para serem melhores, para evoluírem! Não se deixem ficar agarrados ao telemóvel a ler notícias de Facebook e a ver vídeos de gatinhos! Vejam tudo isso, mas vejam mais além! Vejam longe, procurem o horizonte e não se deixem parar por ele que a mudança não é uma miragem. A mudança acontece, é só querermos e mexermo-nos para isso!

Deixem-se de merdas!
Se querem mesmo mudar alguma coisa, podem começar por assinar esta petição, que pode ser o princípio dessa mudança, ou podem fazer outras, mas mexam-se e deixem-se de queixinhas e de culpar o próximo! Movam pessoas, digam coisas, indignem-se, juntem-se, gritem, mas, por favor, deixem-se de merdas!!!!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Às mijadoiras

Respeito quem anda de roupa suja, rota, rasgada ou descosida.
Respeito igualmente quem traz a pele suja; quem cheira a sono ou suor; quem exagera nos perfumes ou quem não os usa de todo; quem não lava a cara, os dentes ou os pés.
Respeito quem se veste com roupas estranhas, desajustadas, excessivamente grandes ou pequenas.

Só não respeito quem mija para fora das sanitas e não limpa o seu mijado. E digo "mija" de propósito, porque esta gente não faz xixi, não urina, mija!
As mijadoiras dizem-se muito limpinhas e que mijam de rabinho no ar para não conspurcarem o dito cujo. No entanto, conspurcam tudo à volta. É que os seus reais rabinhos no ar impedem que o mijo que lhes sai das entranhas acerte dentro sanita... E, porque são muito limpinhas e têm nojo do próprio mijo, deixam-no espalhado por todo o lado, para que a próxima o limpe.

Não, não são limpinhas, minhas queridas, são mesmo porcas!

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A miúda

Um dia conheci uma miúda no IPO (na verdade, nunca a conheci pessoalmente, mas de vista). Tínhamos a mesma médica e encontrámo-nos algumas vezes na "sala de chuto" do hospital. Devia ter uns dezasseis ou dezassete anos e tinha a vivacidade própria dessa idade.

Num dia em que tínhamos quimioterapia à mesma hora, ela chegou atrasada. Vinha com uns três ou quatro amigos da mesma idade e queimada do sol.
Era Verão, um daqueles dias abrasadores de Verão, e a miúda tinha ido à praia antes de ir para ali. Tudo normal se ela não estivesse em tratamentos de quimioterapia, já que as pessoas nesta situação não devem apanhar muito sol, porque ficam sujeitas a queimaduras mais facilmente. Mas miúda, na frescura dos seus dezasseis ou dezassete anos, não quis saber e foi para a praia com os amigos.
Claro que a nossa se médica zangou e ralhou com ela, o que não quebrou aquela alegria de viver, nem a galhofa com os amigos.
Invejei essa alegria várias vezes... O alheamento à gravidade da situação, a inocência, a inconsciência... Até nos momentos mais dolorosos, em que vomitava durante a quimio, aquela miúda mantinha a leveza que só a pouca idade permitia...

Lembro-me dela muitas vezes. Hoje, terá quase trinta anos, uns vinte e sete ou vinte e oito anos... Lembro-a como se lembram os companheiros de cancro, em que a pergunta que primeiro nos vem à cabeça é "Será que ainda está viva?".

Gostava tanto que sim...

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O dom da palavra

Penso as relações com abertura, sinceridade, frontalidade. Não consigo sustentar amuos, mal-entendidos, palavras por dizer.
Sei que às vezes sou bruta nesta forma de agir, que a minha frontalidade fere e incomoda, que às vezes ofende. Mas os silêncios piedosos, as incompatibilidades por resolver e as dores caladas são sempre mais cruéis, porque aquilo que não se verbaliza fica a doer para sempre, a escarafunchar-nos por dentro e ergue muros difíceis de transpor entre o que somos e o que o outro pensa e sente que somos.
A palavra, por mais dura que seja, vem dar espaço ao entendimento, à compreensão do outro, à partilha de emoções, ao fortalecimento das relações.
Calar a dor não a destrói, pelo contrário, amplifica-a. Fá-la gritar-nos aos ouvidos a sua presença e trá-la à superfície sempre que estamos mais frágeis.

Há entendimento sem palavras, que há. Às vezes, esse é o mais forte e profundo, porque prescinde de quase tudo, bastando-nos existir para percebermos o outro e para que o outro nos perceba. Mas, infelizmente, é raro, porque depende de uma comunicação quase telepática entre as pessoas, que nem sempre existe.

A palavra abre-nos ao outro, revela-nos, torna-nos conscientes de nós próprios e do que sentimos e dá-nos, entrega-nos ao outro - a palavra sincera, que vem de dentro, não a que nos sai por comodismo ou gentileza, mas aquela que vamos buscar às inseguranças e medos, às incertezas, às fragilidades. Essa palavra que nos torna débeis e confronta as debilidades do outro, mas que, ao mesmo tempo, nos impõe a força para ultrapassarmos os obstáculos daquilo que sentimos, daquilo que o outro sente e que, no final, vem amenizar tudo, apaziguar e fortalecer as relações. Esse é dom da palavra.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Aridez

Sinto um desapego crescente pelos objectos. Talvez por isso me distancie de tudo o que é compras e o consumismo me aflija tanto...
Vai longe o tempo em que havia muito que me fazia falta. Hoje, não sinto falta de coisa nenhuma. Não desejo nenhum presente de Natal ou de aniversário. Nada me encheria as medidas ou ocuparia os espaços que trago vazios. E tenho vários, nos quais os objectos nunca caberiam.

Todos os anos, a minha mãe obriga-me a escolher qualquer coisa que me ofereça. Escolho um creme para a cara que não compraria se não mo oferecessem. Há já vários anos que é isso que me cai no sapato vindo dela e me dura o ano certinho de cara apresentável.

Ficaram para trás os velhos tempos em que usava produtos de maquilhagem.
A base, o batom ou as sombras ainda tenho as da altura do curso de manequim, de há uns 15 anos. Tenho-os ali, dentro de uma bolsinha que nunca uso, para o caso de um dia me apetecer ou precisar. Nunca precisei, nem me apeteceu. Prefiro a cara limpa de gorduras e cores. Um risco nos olhos e rímel nas pestanas chegam para me tornar numa outra, mais arranjadinha e senhora como a vida por vezes me impõe.

Hoje, fui com a minha mãe comprar o tal creme do ano. A funcionária da perfumaria que nos atendeu perguntou o que punha na cara. Nada, não ponho nada. Vi o espanto crescer-lhe na expressão. Nem base? Não, nada, só creme hidratante, quando o tenho ou quando não é Verão e a transpiração mo leva do rosto num instante.

Já no corpo é a mesma coisa, só creme hidratante e só quando me apetece algum besunte que me alivie as escamas da pele seca.
Toda eu, sou seca de pele. Escamo e arranho, mas prefiro-o ao óleo dos cosméticos, ao sebo escorregadio dos produtos e ao cheio excessivo que alguns trazem.

Talvez a secura me venha de dentro para me proteger dos exageros nos gastos... Talvez esta secura em crescendo seja a capa que me separa daquilo que me é fútil, estranho, insignificante... Talvez a aridez da idade me tenha vindo limpar dos supérfluos, assim como que a preparar-me para o fundamental e para aquilo que me poderá encher os imensos vazios que habitam este deserto sedento de oásis...

Ou talvez eu seja mesmo só desleixada e desprovida de afeição pela matéria...

Vá-se lá saber...

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Só para variar

Ando cansada. Tão cansada que não me apetece fazer nada. Só me apetece embrenhar-me no meio da natureza e ficar por lá, embrenhada. Já só me faz sentido olhar o céu, sentir os cheiros que dançam no ar e revolver a terra com as unhas. Tudo o resto me parece falso, inútil, fútil.

Não suporto o espírito natalício que me rodeia. Irritam-me as pessoas com a sua caridadezinha natalícia, com a adoração pelas crianças que só vem nesta época, com a falsa solidariedadezinha, com a fome consumista. Irritam-me as pessoas com as suas vidas de aparências e de alegrias exibicionistas.
As luzes de Natal que iluminam ruas vazias parecem-me cada vez mais artificiais. Não há gente para elas. E a que há não está realmente lá. As pessoas já não saem, não vivem, não conversam. Fingem que fazem imensas coisas e tiram fotos. Sugam tudo para dentro dos telemóveis e ficam-se por aí.
Parece que não há nada para fazer e nunca houve tanto para fazer. Apesar de certos locais se encherem, quem por lá anda, segue só numa solidão atroz. Na Era da comunicação não há comunicação e o que se comunica é vazio, plástico, fingido.

Já não aguento o exibicionismo. Estamos cheios de exibicionismos. Queremos mostrar tudo, mas damos tão pouco... Não nos damos aos outros, não abrimos o coração para os deixarmos entrar. Pelo contrário, fechamo-nos. E por lá nos deixamos ficar cerrados a sete chaves. Somos intolerantes, cobardes e cruéis e exibimos a nossa intolerância, cobardia e crueldade da mesma forma que exibimos a nossa caridadezinha, solidariedadezinha e alegriazinha.

Foda-se, para onde foram as pessoas de verdade? Onde se esconderam? Porque escolheram viver nestas fogueiras de vaidades?
Onde estão as conversas profundas, os choques de ideias, o pensamento crítico, o afecto puro e despojado de interesses? Para onde foi o amor, a amizade, o apego?

Vivemos à superfície. Porquê, porra? Porque abdicámos de mergulhar na vida, quando podia ser tão mais fácil irmos ao fundo de nós próprios, dos outros e das coisas que nos circundam?
Temos tudo tão perto: conhecimento, informação, meios de chegar aos que estão longe, voz... E, no entanto, distanciamo-nos. Recolhemo-nos em quotidianos insalubres, estéreis e débeis e ficamos a padecer alegremente das nossas vidas doentias.

Preciso de ar, sinto-me a afogar no rol de mentiras que é a existência humana. Preciso de contemplar o céu, de sentir os cheiros que dançam no ar e de revolver a terra com as unhas. Preciso de um pouco de verdade. Só para variar...

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A cama

Sentou-se na beira da cama e descalçou os chinelos um a um. Encostou-os geometricamente lado a lado à parede em frente, mesmo por debaixo da janela.
Rodou sobre as nádegas e enfiou as pernas dentro da cama. Abriu o livro, abandonado há já três dias, e retirou o marcador de metal da página 57 que leu por quatro vezes sem reter uma palavra. Desistiu. Voltou a marcar a página 57 e a abandonar o livro por tempo incerto.
Deixou-se deslizar para dentro dos lençóis e aninhou-se, como de costume, na posição fetal virado para a esquerda.
Fechou os olhos e tentou silenciar os pensamentos.
Faltava-lhe o calor do corpo dela a aquecer-lhe as costas. As dobras dos joelhos não tinham o toque dos joelhos dela, as plantas dos pés sentiam a falta dos peitos dos pés dela, o calor da sua respiração na cova que lhe separava os omoplatas já não estava ali para lhe eriçar os pêlos. Faltava o som do ar que saía e entrava nos pulmões dela a um ritmo certo e lhe sossegava as ideias até as calar num sono profundo. O braço que lhe envolvia o ventre, acabando numa mão fria a rodear-lhe o pulso era agora apenas uma sensação fantasma.

Rodou para o lado contrário e apalpou a cama vazia a seu lado. Estava tão gelada que o frio lhe percorreu o corpo por inteiro.

Durante trinta anos, aquele lado da cama fora ocupado pelo corpo da mulher que o envolvia todas as noites. Agora a sua ausência enchia o espaço que outrora fora de amor e protecção, tornando-o insuportável.
O vazio do aconchego que lhe precedera o sono até ao fim da vida da mulher, tomou conta da cama e atirou-o para fora como se lhe tivesse dado um empurrão.

Foi ao armário buscar um cobertor e enroscou-se no sofá da sala.
Deixara de pertencer, para sempre, àquela cama.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Ao toque das notificações

Wall-E

Há consenso quando se diz que as crianças andam a abusar dos smartphones; que não largam os aparelhómetros e que já quase não socializam umas com as outras.

Se nos olharmos ao espelho, por sinal um exercício deveras enriquecedor que devíamos experimentar mais vezes, também nós, pais, abusamos dos smartphones e deixamos que eles invadam a nossa vida e nos roubem o tempo que é dos nossos filhos.
Ah, ok, nós temos desculpa, porque é o e-mail do chefe que chegou, ou o da escola dos filhos com o agendamento da reunião de pais, ou porque "postámos" uma coisa muito gira nas redes sociais e precisamos urgentemente saber se os nossos amigos do Facebook ou do Instagram gostaram. Sim, nós temos sempre desculpa.

Todos estamos abusivamente ligados ao mundo virtual, de tal forma que praticamente vivemos dentro dele. Transferimos as amizades para um espaço conjunto imaginário que preferimos ao contacto presencial com as outras pessoas. Já não precisamos de ir ao café à noite, ou ao bar, para nos encontrarmos com os amigos. Dentro da caixinha que não largamos por um minuto estão lá todos. Para quê sair de casa e apanhar o frio do fim de tarde ou o bafo do fumo dos cigarros dos bares, se conversamos com quem queremos através do telefone em pijama e chinelos no conforto do lar?

Quando temos o azar de ter de sair de casa, captamos cada momento com a máquina fotográfica do aparelho sempre em riste. Registamos tudo para provarmos aos outros e a nós próprios que ainda vivemos alguma coisa. E incluímos os filhos nos nossos delírios. Mandamos os miúdos enquadrarem-se com os quadros da exposição, com o pôr-do-sol na praia, com a maior árvore de Natal da Europa ou com as flores do jardim, mas não lhes respondemos às perguntas, não respiramos em conjunto a brisa do mar ou rebolamos na areia, não lhes explicamos porque o pintor pintou aquele quadro ou o que se festeja no Natal. Introduzimos apenas os miúdos no aparelho para os exibirmos, e à nossa falsa felicidade, nas redes sociais. Porque a vida deixou de ser vivida para passar a ser apenas mostrada. Mostramos aquilo que gostaríamos de ser, mas não conseguimos ser nada em concreto.

Como podemos ter legitimidade para criticar as crianças? Como podemos ter autoridade para as proibirmos de abusar dos telemóveis que nós próprios lhes oferecemos e que até nos dão muito jeito quando queremos jantar no restaurante sossegados sem que nos interrompam com mil e uma perguntas ou quando os queremos contactar a qualquer hora quando estão na escola?

Não me parece que tenhamos nem legitimidade nem autoridade.
Somos o primeiro exemplo que os nossos filhos seguem e somos o pior exemplo que poderiam seguir.

"Ah e tal, mas o mundo do trabalho exige que estejamos sempre ligados à Internet!". Sim, exige, porque nós deixámos e continuamos a deixar cada dia um pouco mais. Porque deixámos o trabalho invadir o nosso espaço privado e porque somos preguiçosos e seguimos sempre o caminho aparentemente mais fácil.

É mais fácil receber o e-mail do chefe do que o ouvir; é mais fácil receber a convocatória para reunião de pais por e-mail do que ter de assinar um papel que nos enviem para casa; é mais fácil ligar para o telemóvel dos nossos filhos do que ligar para a escola e pedir que os chamem; é mais fácil ter os filhos com as cabeças dentro de um ecrã do que lhes responder às perguntas que têm para nos fazer durante o jantar.

Hoje, temos crianças incapazes de socializar, crianças que vivem dentro dos seus telemóveis, assim como os pais vivem dentro dos deles.
Os nossos filhos são o espelho ao qual viramos a cara para não nos enxergarmos e que vamos deixando que se percam dentro de um ecrã, no mesmo ecrã em que vivemos comandados pelo toque das notificações.

Será que algum dia os iremos encontrar fora do ecrã? Será que eles saberão viver fora do quadradinho? No que nos estamos todos a tornar?