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terça-feira, 16 de agosto de 2016

Fragilidades

Há séculos que luto contra a ideia de se esconderem as fragilidades. Parece-me completamente surreal o ser-humano não ser capaz de aceitar as próprias lacunas ou as dos outros.

Vivermos num mundo plástico em que só os ditos "vencedores" são considerados incomoda-me. Vencer, ser bem-sucedido em todas as áreas da vida, não existe. Temos falhas, tantas falhas que às vezes estas são mais do que os sucessos. Muito mais.

Qual é o problema de sermos frágeis? Somos humanos, porra! Não há gente perfeita. Felizmente.
Ser frágil significa que se que sente alguma coisa. Magoamo-nos, incomodamo-nos, sentimos. É bom termos a capacidade de sentir.

A capa que alguns põem de vida perfeita é falsa e só mesmo uma capa. Para quê? Se é com as próprias fragilidades que mais aprendemos... Com os erros, com os constrangimentos, com aquele assunto que nos põe à prova.

A vida engomadinha, bonitinha, arranjadinha, perfeita, é um embuste. Para os outros e, especialmente, para os próprios.
Podíamos ser todos tão melhores se soubéssemos aceitar a fraqueza alheia e pudéssemos verbalizar a nossa em voz alta sem que nos considerassem menores.

Se pudéssemos falar sobre aquilo que nos deixa débeis, mais facilmente nos tornaríamos capazes de aprender a força e a auto-superação. Porque elas vêm daí: das contingências, das contrariedades, do sofrimento.
Não vêm dos sucessos.
Os sucessos não contribuem em nada para a força ou para o equilíbrio da nossa existência. Vêm depois e nunca antes.  São alegrias que se conquistam. São momentos. Não são a máscara que se veste quando se sai à rua.

Quem sempre foi bem-sucedido, à primeira fraqueza, cai. E cai porque não tem o suporte das quedas anteriores, o apoio da experiência da queda. Caímos para nos levantarmos logo a seguir. Caímos para tapar aquele buraco e não voltarmos a cair nele de novo.
Devíamos ter orgulho, e não vergonha, das nossas quedas. São elas que nos constroem, que edificam as nossas competências e a nossa essência.

Esconder aquilo que nos torna vulneráveis é viver na mentira de nós próprios; é inventar o mar quando se vive o deserto e deixar de procurar água; é gastar o tempo que nos resta a fingir que somos outros e prescindir de nos fortalecermos e de nos tornarmos mais humanos. É desistir de nos tornarmos mais nós.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A loucura da lucidez


Hoje, reli um texto que a minha mãe escreveu sobre a sua experiência enquanto doente oncológica.
Reler os acontecimentos e vê-los assim, em catadupa, entrega-nos a um passado que julgávamos quase arrumado. Não que ele não nos tivesse ficado marcado, mas que o tivéssemos escondido por debaixo de recordações boas, como que a camuflá-lo.

A história da minha mãe está enrolada na minha. Eu fui a primeira a experimentar esta coisa do cancro. Um linfoma de Hodgkin alojou-se-me no pescoço, escondido num gânglio. Fez dez anos em Abril. Dez, porra! Sobrevivi dez anos depois daquela porcaria me ter tentado estrangular. Estrangular pois... que morreria pelo pescoço.

Depois de mim, a minha mãe. Com aquela porcaria na ponta do pulmão direito. Sorte ser o direito que tinha mais por onde cortar, que o esquerdo tem de deixar espaço para o coração. E que coração, o da minha mãe que até inchou durante os tratamentos!

Na recuperação dela, o acidente. Onde ela, a minha avó e o meu filho levaram com outro carro em cima. O meu filho a vomitar os morangos do almoço no infantário, a minha mãe com um novo pneumotórax e a minha avó aflita das pernas.

Quinze dias de miúdo à beira da morte. Seis anos acabados de fazer e o oxigénio a diminuir no aparelho de medição. Quinze dias sem comer, traumatismo abdominal com lesões no fígado e pâncreas. E o pâncreas a jorrar líquido e a parar os intestinos. Dos piores dias da minha vida, senão mesmo os piores.

A minha mãe noutro hospital e o pai do meu filho no estrangeiro...
Se não fosse o meu pai aparecer no hospital e as amigas da minha mãe a segurar as minhas pontas que se desfiavam, desfazer-me-ia ali.

À noite, na cadeira azul das mães dos meninos doentes do hospital, o medo encrostava-se-me nos ossos. A febre do miúdo a subir, a tosse, as dores... Tudo isso eram facadas no meu peito. Esvaía-me por ali. O meu corpo deixou de se fazer sentir. Não sei como, mas silenciei o cansaço e andei aqueles dias tipo zumbi. Só a dor dele era a minha. Só essa se fazia realmente sentir.

Lá fora, no cigarro da pausa que me permitia ver a luz do sol, sentada no chão e encostada à parede fresca do edifício a dor cravava-me tão fundo que saía em forma das lágrimas que não podiam sair à frente do miúdo e me molhavam a camisola como se tivesse acabado de lavar a cara.
O vazio escavava-me um buraco no peito que crescia à medida que a dor se ocupava de me tomar o corpo por inteiro.
Acabava-se o cigarro e a dor silenciava-se no caminho até ao quarto do hospital. Mantinha-se quietinha até um novo cigarro me ser permitido lá fora. Os cigarros alimentaram-me durante estes quinze dias de hospital. A comida não entrava em mim se o meu filho não podia também ingeri-la. Era como um pacto de fome que o meu corpo de mãe tinha feito com o corpo do meu filho. Quando ele se pudesse alimentar, o meu corpo também se iria permitir a esse luxo.

O meu filho voltou a comer e reaprendeu a andar no dia em que saiu do hospital. Parecia um bebé a degustar a comida. E a andar com o reflexo da marcha, tal elevava os joelhos e palmilhava o chão.

A minha mãe safou-se sem que eu pudesse estar ali a acompanhá-la naquela aflição. Mas o sacana do cancro voltou a atacá-la. Desta vez no cólon e quase, quase a levá-la.
No dia em que foi operada pela segunda vez, e de urgência, ao intestino, pensei que ia morrer. Ela e eu. Julguei que, pronto, era daquela que vez que o buraco que o meu filho doente tinha escavado no meu peito atirava tudo cá para fora e tomava posse de mim por inteiro. Quase me vomitei de dor. Parecia que todas as aflições acumuladas queriam sair-me à força pela boca.
A minha mãe sofreu a rodos,  num processo que durou uns bons anos.
Desde 2006 que andamos nisto. Digo andamos, porque eu comecei e ela continuou. Continuamos, porque esta espada sobre as nossas cabeças continua por cá, pendente.

Estranho não nos apercebermos da imensidão de sofrimento quando o vivemos.
É como se o instinto de sobrevivência se lhe sobrepusesse. Naquele momento, temos que ultrapassar aquilo e só depois, às vezes anos volvidos, vem o entendimento, a percepção que estivemos no limiar da loucura e que, incrivelmente, permanecemos lúcidos.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Das vestimentas e da hipocrisia

Imagem DAQUI
Parece que esta imagem gerou muita conversa por aí...

"Ai que é uma desgraça as egípcias andarem vestidas daquela maneira!"; "ai os direitos das mulheres estão desrespeitados!"; "ai que isto é um insulto à condição feminina!" e por aí fora.
Pelo que uma das jogadoras egípcias disse AQUI não me parece que ela esteja muito chateada por se vestir com aquela roupa toda, antes pelo contrário.

Como já disse neste blogue, sou contra as religiões, não gosto, acho que não deviam existir. Mas como também sou a favor da liberdade, acho que cada um tem o direito de acreditar naquilo que quiser e de se vestir de acordo com aquilo que quiser.
Ainda sou mais contra as religiões misturadas com os governos dos países. Acho que nunca se podem misturar, porque comprometem a liberdade de todos os que não têm religião. E não ter religião é um direito igual ao de ter.

No fundo, o que me perturba mais aqui não é a roupa das moças. De nenhuma delas. No fundo, no fundo, estou-me marimbando para a roupa que cada pessoa veste, seja qual for a situação em que se encontre. 
(Se chegaram aqui a pensar que iam encontrar um fashion blog, podem dar meia volta que não há nada disso neste canto!).

O que me perturba, como é costume, é a hipocrisia de quem vem de arma em punho defender quem não quer ser defendido, ou quem não pediu ajuda; é a hipocrisia de quem acha o hijab uma coisa muito estranha e acha normal as beatas não entrarem nas igrejas de mangas de cava, mini-saia e sem véu na cabeça. Ou os bancários serem obrigados a vestir fato e gravata, ou as mulheres que vestem uma roupa mais provocante serem consideradas putas, ou descaradas ou de má vida, ou as pessoas tatuadas serem consideradas de má índole ou de pouca confiança, ou os gordos serem visto como sujos e repelentes.

Isso sim, provoca-me náuseas. Porque quem defende a não-discriminação, deve ser o primeiro a não discriminar.
É como ver homossexuais a criticar a forma de vestir deste ou daquele e a chamarem-lhes nomes; ver negros a dizer que uns são mais pretos do que outros e que, por isso, têm menos direitos; ver defensores dos animais a dizer que esta ou aquela pessoa merece morrer por não vestir fatinhos ao cão. 
Verdade, já vi cenas tristes destas! Já ouvi barbaridades desta espécie! 

Porra, mas que raio de não-discriminação é que defendem? A própria e unicamente a própria? Isso é ser igual aos que discriminam. Iguaizinhos!

Salvaguardar o coiro e estar a lixar-se para os outros não é fixe! Não é "p'rá frentex"! É antiquado e retrógrado.

Deixem os outros em paz e aceitem-nos. Só. Abram-se ao mundo e deixem-no entrar.
Esqueçam a merda dos rótulos. Ser cigano não é ser ladrão, ser preto não é ser escravo, ser homossexual não é ser anormal, ser muçulmano não é ser terrorista, ser mulher provocante não é ser prostituta, ser prostituta não é ser má pessoa, ser engravatado não é ser de confiança, ser gordo não é ser nojento, ser "amigo dos animais" não é ser bondoso...

Ser pessoa é ser pessoa. Em todo o lado, seja qual for a raça, religião ou vestimenta. Umas boas, outras más. Abram os olhos e vejam quem têm à frente, de uma vez por todas! E, por favor, deixem-se de hipocrisias!

*Desculpem o palavreado, mas este post estava a pedi-lo!

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Harry Potter style

Enquanto fui buscar os meus óculos novos (que os antigos já estavam a cair de podres), o miúdo foi à bateria (instrumento, não a do telemóvel ou coisa que a valha) para fugir às compras que eu iria fazer a seguir.

Após as compras, quando o fui buscar, perguntei-lhe:

- Então, como correu a bateria?
- Bem. E a ti como correram as aulas de magia? Aprendeste novos feitiços?

Imagem DAQUI

domingo, 31 de julho de 2016

O humor corrosivo é genético

Enquanto arrumava a loiça na máquina, o pequeno corrosivo cá de casa diz-me:
- Mãe, sabes, aconteceu uma coisa ainda pior do que a morte do Mário Moniz Pereira?!
- Então?
- O Benfica perdeu!
- E isso é pior do que a morte do senhor?
- Claro que sim. Imagina só a quantidade de mulheres que neste momento está a sofrer violência doméstica!
Ui!

terça-feira, 26 de julho de 2016

Música deles

Os óculos do contrabaixista dão um pulo em direcção à ponta do nariz a cada nota tocada na parte mais baixa do instrumento.
O guitarrista estende a guitarra para trás com emoção para deixar soltar os sons mais estridentes.
Ao fundo, o baterista toca de olhos fechados, vivendo a percussão nos tambores e pratos dentro de si mesmo.
O saxofone desce aos joelhos do músico quando a música se torna mais vibrante.

No banquinho de cortiça, que dá para a lateral do baterista, o miúdo. Nos seus 12, 13 anos,  numa luta com o sono, esforça-se para manter os olhos abertos e sorver cada gesto do músico dos tambores. Observa atentamente como que a beber cada pancada, cada toque, das baquetas.

Em frente ao palco, sentado no sofá de napa que dá o ombro à banda, um homem mais velho. De olhos fechados como os do baterista, coca-cola à frente e dedos a tactearem timidamente por debaixo da mesa ao som da música. O gesto da mão direita do homem repete os dedos do saxofonista na transição de notas que empresta ao jazz.
Os pontos altos da melodia são assentidos com um movimento de cabeça discreto, como que a dizer "sim, é isso, perfeito". Dentro dele, o improviso dança. Há anos que lá deve dançar... Vive ali, numa compreensão incompreendida dos leigos. Mora-lhe na ponta dos dedos e sai-lhe pelos poros: o jazz.

O homem mais velho e o miúdo entendem-se no amor à música. Um pelo seu perfeito entendimento, outro pela sede de a aprender.
Estão longe em anos e no espaço, mas perto, tão perto, nessa leitura de sons que lhes embala, só a eles, a alma.

DAQUI

terça-feira, 19 de julho de 2016

Ainda o Centro...

Há uns anos, numa outra situação de desemprego, também estive inscrita num Centro de Emprego e a situação era completamente diferente. Tratavam-nos bem, tentavam conciliar as nossas opções com o mercado de trabalho, propunham-nos cursos em vez de nos obrigarem a frequentá-los e não havia as maravilhosas apresentações periódicas.

Acredito que muitas das alterações que se têm notado vêm da elevada taxa de desemprego e do número astronómico de pessoas em situações precárias sem fim à vista. Acredito que o factor mais penalizador para os desempregados e para resolução deste problema crescente das sociedades actuais é a falta de empregos generalizada.
Desde a Revolução Industrial que a mão-de-obra tem vindo a ser menos necessária, essencialmente pelo desenvolvimento tecnológico e pelo aumento da população (muito devido à evolução da medicina e, por conseguinte, ao aumento da esperança média de vida que é coisa boa, mas que, neste caso, torna a população excedente), já para não falar no número de pessoas com menor capacidade de trabalho como os idosos que, como é óbvio, também têm direito a subsistir.

O problema do desemprego não é um problema fácil de resolver, nada fácil mesmo.
Mas será que estas políticas o vão melhorar? Será que a solução, ou pelo menos a diminuição do número de desempregados, não estará mais na valorização da força trabalhadora? Ou até numa solução perto disto?

Não sei. Pergunto-me apenas.

A verdade é que as políticas instituídas em Portugal (e agora vou bater no antigo governo, desculpem-me lá!) tornaram os Centro de Emprego locais onde se têm de cumprir regras ridículas que, para as pessoas que lá trabalham, também não serão fáceis de cumprir e defender, pois são elas que, todos os dias, levam com as queixas e frustração dos desempregados. Na verdade, são elas quem dá a cara por aquilo que alguém, fechadinho na segurança de um qualquer gabinete e longe dos olhares ameaçadores de quem tem de se sujeitar a regras idiotas, determinou este desrespeito por uma classe potencialmente trabalhadora. Não quero com isto desculpar os maus modos de certos funcionários dos Centros, que há alguns indesculpáveis, mas quero sim tentar compreendê-los, porque afinal também eles estão neste barco de possíveis futuros desempregados. E, felizmente, também ainda há excepções e pessoas que resistem a tornarem-se maus fígados ambulantes.

Quero, essencialmente, tentar perceber que caminho é este que se trilha e que nos levará a todos para um não-retorno neste tipo de sociedade em que vivemos.

Se não tivermos trabalho e forma de subsistência, como vamos sobreviver? Haverá uma elevada taxa de mortalidade, devido a situações de pobreza extrema que nivelará a relação quantidade de empregos/quantidade de cidadãos? Teremos que passar por isso para haver trabalho digno para todos?

O pior, e o que mais me atormenta, é que há dinheiro suficiente neste mundo para todos cá cabermos, mas ele está maioritariamente concentrado em práticas que determinam a destruição da espécie humana e do planeta.
Não será altura de tentarmos reverter este processo para preservarmos a nossa própria subsistência enquanto espécie?

No seguimento deste texto.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Centro de quê?

Há mais de um ano que trabalho sem parar num projecto no qual acredito. Trabalho dia e noite, normalmente mais noites do que dias.
Ainda não recebi um tostão e já gastei alguns neste projecto. Mas continuo a acreditar nele. Nele e em mim. Porque, apesar de não ganhar um tostão com o meu esforço, não desisti de viver. Porque, ao contrário do que se possa pensar, não vivo para as férias, para festas, para os fins-de-semana. Provavelmente, sou demasiado ambiciosa em pensar em viver para mim todos os dias e em querer fazer aquilo que gosto e viver daquilo que gosto de fazer. Mas, infelizmente, também tenho que comer para continuar a viver. Tenho que vestir e respirar. E, hoje, tudo isso custa dinheiro. Por isso, procuro empregos, envio e-mails e candidato-me a lugares de que não gosto. Porque preciso de subsistir, porque preciso de sobreviver. Porque amo a liberdade e a independência e já vivo há demasiado tempo dependente financeiramente.

Tenho 41 anos e não há empregos para velhas como eu. Nem para velhas, nem para novos. Na realidade não há empregos. Há exploração, abuso, trapaças...

Estou desempregada há tempo suficiente para já ter encontrado de tudo. E as piores coisas que fui encontrando vêm de onde seria menos provável depararmo-nos com desrespeito, abuso, exploração, trapaças. O pior local para um desempregado é um Centro de Emprego. Além de nos tratarem como cidadãos de segunda categoria, respondem-nos mal, obrigam-nos a apresentações periódicas como se fossemos prisioneiros (sim, já sei que foi aprovada uma lei para acabar com as apresentações, felizmente), obrigam-nos a frequentar cursos que não servem para nada, a não ser justificar gastos de dinheiros públicos, pois nem sequer se faz uma relação com o percurso profissional das pessoas que os frequentam ou com os seus planos de procura de emprego, ou, até com cursos que se tiram por iniciativa própria.
Ameaçam-nos com a anulação da inscrição no Centro de Emprego se nos negamos a fazer o que nos obrigam, e, anulada a inscrição, saímos das estatísticas e baixamos as taxas de desemprego, perdemos o acesso a programas que facilitam as entidades empregadoras de nos contratarem e ficamos impedidos de nos reinscrevermos por um período de 90 dias.

Se este tratamento é mau e improdutivo na intenção de empregar desempregados, pior ainda são as ofertas de emprego que surgem na plataforma da dita instituição. (Algumas bem piores do que as dos sites de emprego comuns).
Lá, há ofertas de emprego para licenciados, técnicos e especialistas com ordenados iguais aos que se oferece a empregados domésticos com o 4º ano: 530€.
Isto devia ser terminantemente proibido, ainda mais numa plataforma estatal. (Deviam nivelar-se os salários por habilitações, por baixo e por cima. Um licenciado, não devia receber menos do que x nem ganhar mais do que y. E por aí adiante, conforme as habilitações necessárias para determinada função).

Andou o Estado, e o próprio trabalhador, a gastar dinheiro e tempo para dar formação às pessoas para os empregadores lhes pagarem o salários mínimo? É para esta desvalorização da mão-de-obra, pelo mercado de trabalho com o conluio do IEFP, que se anda a estudar anos a fio?

Como se pretende empregar, assim, as pessoas? Como queremos ter profissionais competentes e um país a evoluir e a recuperar economicamente? É pela exploração dos trabalhadores? É colocando empregados a fazer o que não gostam, e como se isso já não fosse suficiente para baixar a produtividade, a receber salários miseráveis para as suas habilitações?

Pois eu não percebo nada disto. Afinal sou só mais uma desempregada.

Continua AQUI.

sábado, 16 de julho de 2016

Desamor

O amor torna-nos maiores. Crescemos à medida que somos capazes de amar. É o amor que nos faz melhores. Melhores amantes, melhores pais, melhores filhos, melhores pessoas. Melhores.
O amor não é uma ilusão. É concreto.

Vejo um mundo despojado de amor. Cheio de ódio. O ódio está a comandá-lo, a comandar-nos. O ódio e o medo.
A vitória no Euro trouxe, junto com a adoração exacerbada aos atletas portugueses, o ódio aos franceses. A selecção francesa foi estraçalhada nas redes sociais. Difamada, mal-tratada. As pessoas quiseram atirar-lhes o "caneco" às ventas. Depois, camuflaram o veneno em ternura pelo menino que consolou o adepto francês, pensando "além de sermos melhores no futebol, também somos melhores em sentimentos. Vêem como somos tão melhores do que vocês, franceses do cara$&/"%?"

O mundo e o amor estão em perigo.
Atentados terroristas em todo o lado. De repente, odeia-se os franceses e, logo a seguir, tem-se-lhes piedade.
Armas e mortes. Torturas. Autoritarismo. Desrespeito. Desprezo. Desprezo, tanto desprezo.
Deixam-se morrer milhares de pessoas nas águas do mediterrâneo... Matam-se crianças, negros, homossexuais, polícias e ladrões. Mata-se indiscriminadamente. Por nada. Para nada.
As armas despejam ódio para os dois lados. O tiro sai pelo cano e pela culatra. Sempre.

Pendemos aos extremos. Ou somos contra ou somos a favor. Já nem pensamos em prós e contras. Descaímos para um dos lados. Só. Porque não temos tempo para assimilar toda a informação que nos cai no colo; porque nos cai no colo um só tipo de informação; porque nos demitimos de pensar ou porque simplesmente não nos apetece.
Na Era da informação, voltámos a ser seres irracionais. Movemo-nos ao sabor do vento. No fundo, andamos à deriva. Deixámos de viver. Ilustramos a nossas vidas com fotografias de todos os lugares que pisámos. E só os pisámos realmente. Não os vivemos, não nos demos aos lugares que pisámos, não aprendemos nada com eles. Fotografámo-los. Só. E roubámo-lhes o encanto, desacreditando-os quando não os conseguimos ver.
Na verdade, nós não estamos nas fotografias. Na verdade, nós não estamos em lado nenhum. Somos corpos a deambular pelo espaço que tocamos. E destilamos ódios. Dizemos mal de tudo e todos. Insurgimo-nos como se fossemos agir. Mas não agimos. Paramos a olhar para o telemóvel, rasgamos um sorriso e clicamos aquilo que gostaríamos de ser. Mas não somos.

Estamos vazios de amor, de pensamento, de raciocínio. E temos medo. Temos medo de tudo e de todos. Somos a nossa própria censura. Censurámo-nos no momento em que deixámos de lutar, de ver, de ouvir, de sentir, de pensar, de viver. Estamo-nos a tornar autómatos de nós próprios.

Somos a nossa própria fotografia, estampada numa qualquer rede social, cheia de likes e vazia de amor. E vazia de nós.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O palco

Do trabalho ligado às redes sociais, da análise de comportamentos e tendências, do meu lugar recôndito na plateia a que assisto às interpretações de um imenso leque de actores, tenho constatado que todos ganhámos um novo palco. Pequeno, é certo, mas suficiente para que encarnemos personagens diárias e fiquemos à espera dos aplausos.

No palco da vida somos mais espontâneos, exigentes, verdadeiros. No palco das redes sociais somos actores, plateia e os nossos próprios lobbies. Vivemos à espera da notificação que nos aplaude e gostamos do que é nosso ou a nós diz respeito.

Dos presos políticos em Angola e sua libertação, pouco queremos saber. Dos mortos no Bangladesh, dos atentados em Istambul, pouco nos importamos. É lá longe e não nos diz, directamente, respeito.
Todos os dias morre gente por aí. Mas se o gatinho do vizinho partiu desta para melhor, atiramos-lhe um "RIP" sentido e choroso.

O gatinho como as vítimas do terrorismo em França. Estes, sim, dizem-nos respeito, porque temos lá um ou dois familiares emigrados, porque já fomos à Torre Eiffel e gostámos muito e porque somos todos Charlies e os Charlies querem-se unidos.

Gostamos de nos ver espelhados nos olhos dos outros. Se falam de nós, se aparecemos nas fotografias, se a nossa imagem é projectada para outros palcos, isso sim, interessa, preocupa-nos. Queremos que nos digam que estamos certos, que somos bonitos e que tocamos os limites da bondade. Queremos que nos aprovem e nos venerem, que nos lambam as botas e que façam vénias à nossa passagem. Queremos permanecer em palco e que se encha a plateia.

E esquecemo-nos, realmente, de nós. Do que temos dentro e não se vê. Do que sentimos e de pensar. Cerramos a linha do pensamento porque isso nos dá trabalho e aborrece; porque isso nos faz sair do papel que interpretamos. Cortamos a empatia com o que não nos é, particularmente, próximo, porque vivemos à espera da crítica positiva ao nosso espectáculo.

Estamos a esvaziar-nos sem sequer nos enchermos com a personagem que escolhemos. Estamos ocos e o eco são as palmas que esperamos dos outros. Vivemos para as palmas e para o palco. Um palco tão vazio quanto nós.