sábado, 3 de dezembro de 2016

Ensino e aprendizagem

Na turma do meu filho há um miúdo repetente que tem 15 ou 16 anos. O meu filho está no 7º ano, o que quer dizer que o miúdo já deve ter chumbado uns três ou quatro anos.
No outro dia, dizia-me ele:
- Sabes, mãe, acho que se vê quem são os meus professores bons pelas notas do B.?
- Então?
- Acho que o B. vai ter muito boa nota a Educação Visual e o professor é dos melhores que temos.
- Porque achas que uma coisa está relacionada com a outra?
- Porque ele consegue estar atento às aulas e faz trabalhos muito bons, ao contrário de nas aulas das outras disciplinas.

Esta conversa com o meu filho, fez-me pensar que hoje, o ensino e o sucesso escolar dependem demais da qualidade dos professores.
Haver alunos que chumbam vezes sem conta está demasiado nas mãos dos professores porque o sistema de ensino não funciona. Se houvesse uma maior abertura às necessidades, expectativas e características de cada aluno, em vez de se "encarneirar" toda a gente, talvez houvesse menos miúdos a chumbar e a chumbar menos vezes.
Não acho que se deva baixar o nível de exigência, de maneira nenhuma, mas parece-me imperativo que a forma de ensino e as matérias leccionadas interessem aos aprendizes. E quando digo "interessem", não digo que as matérias se cinjam a jogar minecraft ou até que o meio para se transmitir o conhecimento deva ser a partir das novas tecnologias (acho até que a introdução das novas tecnologias nas aulas começa a ser um pouco excessiva), quando digo "interessem", quero dizer que vão de encontro às características e interesses dos alunos e, especialmente, lhes incutam uma certa sede por mais conhecimento.

Se o colega do meu filho se interessa por desenho, porque não se chega a ele através do desenho para lhe ensinar matemática, português ou outra disciplina qualquer?
Porque as turmas são gigantes e porque o ensino é descabido quando insiste que todos os alunos aprendam da mesma maneira. Assim, só mesmo a mestria de um muito bom professor para conseguir ensinar alguma coisa. E como os professores são pessoas, com todas as suas qualidades e defeitos, não podemos ter o ensino dependente da mestria de cada um deles. Antes pelo contrário, o ensino tem de funcionar independentemente das características de quem o lecciona. Tem de haver um sistema (ou vários) que amplifique as formas de ensinar de maneira a que ele chegue aos diferentes alunos, sem uniformizar as pessoas, tanto alunos quanto professores. É o método, ou melhor a amplificação dos métodos, que deve possibilitar o acesso aos ensinamentos por todos.
O processo de aprendizagem deve ser estimulante para que os alunos gostem de aprender, porque só gostando de aprender se aprende realmente.
Se os alunos sentirem curiosidade pelas coisas e se sentirem impelidos a expandirem o leque de conhecimentos, vão aprender com maior facilidade. E o que aprenderem vai ficar-lhes para sempre. Esta sede de conhecimento e gosto pela aprendizagem até os ajudaria a assimilarem matérias que lhes são menos interessantes ou aborrecidas, porque o processo em si já os estimularia.

Pelo contrário, vejo que se pretende que os aprendizes "marrem" matérias para as despejarem nos testes. As aulas são maioritariamente monocórdicas e não incentivam à participação activa dos alunos, ao questionamento, à visão crítica e à reflexão. Há até quem não permita que se duvide ou se perspective os assuntos tratados.
Percebo que a questão "tempo" seja um factor preponderante na ausência dos debates abertos nas aulas, mas não pode ser determinante. Afinal, quer-se que os alunos aprendam ou não?
Eu acho que não e isso preocupa-me sinceramente, porque quando se tem um sistema de ensino que não tem como objectivo primordial a aprendizagem é sinal que esse sistema não está a funcionar, que é obsoleto e que deve ser rejeitado. Mas não o vejo ser rejeitado, nem por professores, nem pelos pais que fazem manobras e contorcionismos para adaptarem os alunos e os filhos a algo que não lhes serve, nem servirá nunca. Vejo professores preocupados com o andamento das aulas dadas e com o cumprimento dos programas e pais fixados nos resultados dos testes e no bom aproveitamento às disciplinas como se isso chegasse como prova dos conhecimentos adquiridos.

Se fizéssemos perguntas aos alunos sobre matérias dadas no ano anterior, aposto que a maior parte deles não saberia responder correctamente, mesmo que tivessem tido boas notas. Aprenderam o que lhes ensinaram? A mim, parece-me que não.
Já se perguntássemos ao B., colega do meu filho, sobre um desenho que ele tenha feito no ano anterior, aposto que ele saberia responder correctamente. Porquê? Talvez porque só se sabe o que se quer verdadeiramente saber e porque quando damos alguma coisa a alguém, essa pessoa tem de estar aberta a recebê-la.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A "panne"

Era tarde. Os candeeiros altos com luzes amarelas iluminavam a rua. De tempos a tempos, um carro aparecia devagar. Rodava a uns 30 km/h para parar e fazer inversão de marcha.

Ela esperava dentro de um Volkswagen amarelo. Estava sentada ao volante com a cabeça encostada à cabeceira do banco. Quase não se movia, apenas oscilando o olhar entre um novo carro que se aproximava e o vazio. Olhava o carro e voltava a encostar-se como se a espera não pudesse ser interrompida. Nem o movimento junto ao Honda cinzento lhe quebrou a serenidade. Conferia os automóveis que chegavam e marcavam o prolongamento da sua espera.
Nada havia que a inquietasse. Trazia a tranquilidade aos ombros que a prendia ao banco e a mantinha impávida.

As pessoas do Honda falavam alto e gesticulavam. O carro tinha empanado e não conseguiam fazê-lo voltar a mover-se.
Eram três. Dois homens e uma mulher. Ela, no lugar do condutor, rodava a chave e carregava no acelerador, enquanto eles, decididos e enérgicos, empurravam o veículo. Mas nada, o bicho não havia maneira de voltar a andar.
Faziam barulho e praguejavam e a mulher do Volkswagen nada, como o Honda. Só os carros que apareciam de vez em quando a faziam dar sinais de vida.

Ao fim de quinze minutos de empurrões inúteis, o Honda roncou e, num solavanco, pôs-se em marcha com os dois homens a correr-lhe atrás.

Mal o Honda traçou a linha do horizonte, a mulher do carro amarelo ergueu a cabeça, rodou a chave e partiu.

Foi-se a serenidade e a espera.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Matar o tempo

Estou à espera de consulta.
Entram e saem pessoas dos gabinetes: doentes, médicos, assistentes.
Há quem fale ao telefone; quem passeie os dedos no ecrã do telemóvel; quem veja televisão; quem leia revistas.

Pego no meu caderninho e escrevo. Observo as pessoas e desenho-as no papel. Uma força intrínseca obriga-me a transcrever momentos, como se uma fome insaciável me impelisse a sugar a alma dos outros que só cessa em forma de palavras. Preciso perpectuá-las por escrito para que não me fujam da memória.

- Sr. Diogo Sousa! - chama a assistente do gabinete quatro.
O Diogo, de uns 15 anos acabados de fazer, lá segue para o gabinete quarto de phones nos ouvidos e telemóvel na mão. A mãe acompanha-o com ar preocupado, o mesmo ar preocupado que todas as mães têm quando vão ao médico com os filhos.

- Nº 47!
E a senhora da senha 47 dirige-se ao balcão.

Cruzam-se conversas em burburinho. O casal que está ao meu lado fala de trivialidades. Matam o tempo, aqueles dois.
A recepcionista recebe dinheiro e marca novas consultas.
E eu escrevo com pressa para que o tempo até à minha consulta não me falte à escrita. A caneta desliza no papel numa caligrafia estranha. Escrevo-os a todos, até ao senhor que hesita aproximar-se do balcão...
Dá dois passos e detém-se junto à parede, onde encosta o ombro e ali fica, à espera, como todos nós.
Esperamos a nossa hora que, a uns, tarda em chegar.

A mim falta-me o tempo que não quero matar, mas que tento estender até que as palavras me faltem. Até acabar esta minha escrita.

Chamam-me ao consultório. Guardo o caderno, arreliada, e passo pelo senhor encostado à parede. Queria-o inteiro no meu no papel. Fica pela metade. Hoje.

sábado, 5 de novembro de 2016

Os TPC e os pais

Esta semana, a notícia de uns pais espanhóis que iniciaram uma greve aos TPC gerou mais discussão em volta dos trabalhos de casa.
Vou voltar a este assunto, de que já falei aqui várias vezes, e volto, porque me revolve o estômago deparar-me com lutas destas, ao contrário e egoístas.

Os pais espanhóis revoltaram-se contra os TPC de fim-de-semana, porque, segundo os mesmos, "invadem o tempo das famílias" e "violam o direito ao recreio, à brincadeira e a participar nas actividades artísticas e culturais". 

Ora, se os miúdos têm algum tempo para fazer trabalhos de casa, esse tempo será aos fins-de-semana, certo? E quanto aos TPC durante semana, não há revolta? Ah, ok, os dias de semana não dão para irem passear e fazer outras actividades com as famílias, mas dão para os miúdos irem ao futebol, à música, à ginástica ou ao inglês e estas actividades não lhes roubam tempo nenhum para o recreio ou para as brincadeiras, pois não? Ah e tal, são artísticas e culturais e dão muito jeito para ocupar os miúdos mais umas horinhas por dia para os pais poderem respirar.

As crianças também são crianças durante a semana, não são? Ou durante a semana são adultos pequeninos que devem ter os mesmos (ou maiores) horários que os adultos grandes lá de casa? 
Não precisarão de tempo para brincar ou simplesmente para não fazerem nada todos os dias? 
Ah não, claro que não, crianças desocupadas é que nunca! Se não têm nada para fazer, elas gritam, saltam, correm e fazem perguntas, muitas perguntas. Enfim, dão uma trabalheira do caraças! E para trabalho já basta o emprego dos pais! Não é?

Na notícia do Expresso, o presidente da Confederação Espanhola de Associações de Pais e Mães dos Alunos (Ceapa), José Luis Pazos alega ainda que “as escolas estão a delegar nas famílias tarefas que não devem”. 

Ora, aqui surge-me a dúvida se são as famílias que estudam nas escolas e trazem trabalhos para fazer em casa ou se são os alunos. 

Se são as famílias, parece-me muito bem que, também elas, devam fazer os TPC. Se são os alunos, não vejo qual é o tormento para as famílias ou quais são as "tarefas que não devem". 
Se os pais assumissem que quem tem de fazer os trabalhos de casa são os filhos e se se deixassem de competiçõezinhas entre si (fazendo os TPC das crianças para que elas sejam as melhores), não vejo onde isso lhes acrescentaria novas tarefas. 

Os trabalhos de casa, volto a afirmar, servem para os alunos consolidarem conhecimentos e para promover o trabalho autónomo
Autónomo quer dizer independente, livre. Alunos são os estudantes, aqueles que recebem ensinamentos, formação, instrução. Não vejo onde estão os pais nesta fórmula.

Depois das notícias sobre o caso espanhol, seguiu-se a dos pais portugueses que querem os TPC feitos na escola que, quanto a mim, não me parece totalmente descabido, mas longe, muito longe, de ser o ideal.

Quanto à conversa do presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) que diz que há o perigo de os TPC serem um factor discriminatório, já a acho completamente disparatada, pois o senhor justifica-o com o facto de haver pais que podem ajudar os filhos e/ou pagar a explicadores, e outros não. 
Voltando ao início, os TPC são para os alunos fazerem sozinhos, ou não?

O que me parece preocupante nesta questão não são os TPC em si (que, não sendo em quantidades industriais, são úteis para a percepção dos conhecimentos adquiridos por parte dos alunos), mas o tempo que as crianças não têm e o facto de os pais se auto-assumirem ajudantes nesta tarefa. 

Na maioria dos casos, o tempo que as crianças não têm não é totalmente ocupado com trabalhos de casa, mas com mil e uma actividades extra-escolares e, voilà, com a própria escola. Ou seja, a maior parte da vida das crianças é dentro da escola e não fora dela e é esse tempo que se tem de diminuir, não os TPC em doses homeopáticas.Tem que se aumentar as horas livres para a brincadeira, fantasia, imaginação e auto-descoberta das crianças, sem que alguém as esteja sempre a ensinar como brincar, fantasiar ou imaginar coisas. 



Mas isso já não interessa nada aos pais tão preocupados em ter de ajudar com os TPC, pois, na escola, os filhos estão à guarda de alguém que lhes permite adquirir uma catrefada de competências para o futuro e exigente mercado de trabalho e, além disso, também estão resguardados da vida real e perigosa. Assim, o tempo na escola até é um tempo que dava jeito aumentar, pois tiraria um peso de cima dos ombros dos pais que poderiam trabalhar mais e desfrutar de algumas actividades lúdicas sem o encargo dos filhos e seus TPC.

Com filhos pequenos até compreendo a existência de locais onde as crianças estejam protegidas e mais resguardadas, apesar de achar que o ideal seria elas estarem num sítio onde pudessem brincar ao ar-livre sem actividades programadas, onde houvesse quem olhasse por elas, mas não lhes orientasse as brincadeiras, deixando-as livres na relação umas com as outras. Esse sítio até poderia ser uma espécie de escola, mas sem a clausura que a actual lhes impõe. 
Acredito que teríamos crianças mais autónomas, responsáveis e capazes de sociabilizar.

Quanto aos miúdos maiores, começarem a sair de casa sozinhos, apanharem transporte para a escola, preparem pequenas refeições, irem para a rua brincar com os amigos, não me parece nenhum sacrilégio ou negligência parental. Antes pelo contrário, acho que lhes faz falta; que é uma forma de irem conquistando, as poucos, a sua independência; que os põe em contacto com o mundo e que os ensina a moverem-se pelas estradas da vida.

Se me desse para fazer greve a alguma coisa, seria aos intermináveis horários escolares, à acumulação de actividades extra-escolares que prendem os miúdos a cadeiras e mesas em salas fechadas e que lhes exigem comportamento irrepreensível, inactividade física, silêncio e que os transformam em autómatos e carecidos de imaginação, criatividade e autonomia. 

Esta sim, seria uma greve pelas crianças! A outra é pelos pais.

domingo, 30 de outubro de 2016

Supermercado milagroso

Amanheci em desalento. A noite havia sido pouca, levantei-me irritada e sem sono que, há já vários dias, andava em falta, chorei, discuti. Não saí de casa até à hora em que fui ao supermercado. 
No espelho, antes de sair, vi-me velha e cheia de rugas, cabelo estranho, olheiras, olhar triste e cansado.
O fim do dia prometia não destoar do seu início, ainda mais por ter de ir às compras que detesto.

Já no supermercado, na secção dos laticínios, encontrei dois chineses em busca de leite gordo. Olhavam as prateleiras desorientados e pediram-me socorro. Procurei o que pretendiam e ajudei-os a distinguir as várias qualidades de leite para que numa próxima ocasião não precisassem do auxílio de ninguém. Agradeceram-me muito e levaram o produto que pretendiam.

Na secção dos congelados, uma senhora abalroou-me o carrinho de compras. Pediu-me imensas desculpas e devolvi-lhe um sorriso acompanhado por um "não faz mal".

Na padaria, esqueci-me de tirar a senha e a freguesa que me seguia tirou-a por mim e entregou-ma, antes de tirar a dela. Agradeci-lhe e trocámos algumas palavras enquanto esperávamos que nos atendessem. Acabou por me aconselhar um novo bolo que assenti e levei para casa.
Na caixa, a funcionária, que já me conhece, travou uma animada conversa comigo e despedimo-nos a rir.

Saí do supermercado melhor do que entrei (o que é raro em mim), mas perseguida pela dúvida se a minha aparência desgraçada teria contribuído para que as pessoas me tratassem melhor ou se simplesmente estavam mais simpáticas naquele dia.

Quando me reencontrei com o meu homem, recebeu-me com um "estás cada vez mais nova e bonita" que estranhei por achar precisamente o contrário.

Sim, parece que, ao contrário de todas as expectativas, há dias maus que acabam bem!

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

É o país que temos!

Esta típica frase portuguesa aparece vezes sem conta a rematar conversas que não se querem ter mais do que à superfície. Faz-me lembrar o fado, o fatalismo, a resignação a um destino.
Oiço-a amiúde e não sou capaz de a deixar de ouvir.
"Os impostos são muito altos. É o país que temos!"; "Os políticos são todos uns corruptos! É o país que temos!"; "O ladrão saiu em liberdade! É o país que temos!"; "Hoje choveu! É o país que temos!"; e por aí fora aplicada a qualquer conversa de circunstância. 

"É o país que temos" é o ponto final. Acabou, não há nada a fazer. Temos pena, mas agora vamos à nossa mísera vidinha de cabeça baixa num lamento interminável!

Claro que há muito a fazer, porra! 

É este o país que queremos ter? 
Se não é, porque não o mudamos?

Eu respondo: porque do que gostamos realmente é de nos lastimar. Seja lá do que for. Se fizermos coisas, se mudarmos o que está mal, já não temos razão de queixa. Já não temos o fado, temos tudo tragicamente bem. E isso é que não pode ser. Que iríamos fazer a seguir? Desfrutar da vida alegremente, assim, sem mais nem menos?
Que conversas teríamos no café? Que bocas mandaríamos nas redes sociais? Que ofensas poderíamos atirar aos outros?
Nada! Deixávamos de ter assuntos para debater. Perderíamos a alegria de sermos eternamente infelizes.

É o país que temos!


sábado, 8 de outubro de 2016

Tenho uma tatuagem no meio do peito

Ontem, no elevador, olhei ao espelho o meu peito que espreitava pelo decote em bico da camisola, e vi-a. "Tenho uma tatuagem no meio do peito", pensei. Geralmente, não a vejo. Faz parte de mim, há dez anos, aquele pontinho meio azulado. Já quase invisível aos meus olhos, pelo contrário, ontem, olhei-a com atenção, porque o tempo já me separa do dia em que ma fizeram e me deixa olhá-la sem ressentimentos. À tatuagem como à cicatriz que trago no pescoço.

A cicatriz foi para tirar o gânglio que confirmou o linfoma. Lembro-me do médico me dizer "vamos fazer uma cicatriz bonitinha. Ainda é nova e vamos conseguir escondê-la na dobra do pescoço. Vai ver que quase não se vai notar". Naquela altura pouco me importava se se ia notar. Entreguei o meu corpo aos médicos como o entrego ao meu homem quando fazemos amor.
"Façam o que quiserem desde que me mantenham viva", pensava. "Cortem e cosam à vontade! Que interessa a estética de um corpo se ele está a morrer?!"
Estranha esta entrega que nos põe à mercê de quem não conhecemos. É uma entrega total como a que fazemos ao amor. Profunda, completa, intensa...

A tatuagem foi a marcação dos limites da radioterapia. Dezanove sessões, dezanove dias, em que marcou o limite do local a queimar. Porque aquilo queima e mata tudo o que irradia.
Fizeram-na no mesmo dia em que construíram o molde da máscara que ia usar nas sessões. Uma máscara de uma espécie de rede que me prendia a cabeça e a segurava na inclinação certa. Mediram-me toda nesse dia. Fizeram-me esquadrias no peito e desenharam-me...
"Vamos fazer-lhe uma pequena tatuagem aqui no meio do peito", disseram.
"Depois sai?", perguntei.
"Não, fica para sempre, mas é apenas um pequeno pontinho!"
"Ok!", respondi. Mais uma coisa para sempre. Que fique num "sempre" longo.

Depois de marcada e mascarada, foram as sessões de radio numa sala de onde todos fugiam. Acho que foi o que me marcou mais da radioterapia: fugirem todos e deixarem-me ali sozinha pendurada numa máquina, de máscara na cara, a levar radiações sob vários ângulos.
Fui deixando de conseguir comer, nada me passava pelas goelas; de sentir o sabor dos alimentos, tudo me ardia na boca; deixei de ter saliva e ter de bochechar com saliva artificial para conseguir engolir em seco; tinha dores incríveis que me levaram a precisar de injecções para as amainar; enchi-me de fungos na boca, placas brancas que mais tarde me apareceram noutros sítios. O meu pescoço ficou muito vermelho e precisei de andar de lenço enrolado para o proteger do sol e a besuntá-lo com Biafine todos os dias. Tinha enjoos e fome ao mesmo tempo. Fiquei tempos sem poder arrancar dentes por medo do maxilar se partir. Ainda hoje, tremo quando tenho de arrancar um dente de baixo.
As radiações que a tatuagem delimitou fizeram-me careca da nuca para baixo, sem pêlo por debaixo dos cabelos que na parte de cima da cabeça já tinham crescido e escondiam o vazio da pele magoada.

Às dezanove sessões, pedi à médica para não fazer as duas que faltavam.
"Podemos ficar assim?", perguntei.
"Sim, mas era bom fazermos as duas sessões que faltam para completar o tratamento", respondeu-me.
"Ficamos assim, deixe lá isso!"
E ela deixou, felizmente.

Ontem, ao olhar-me ao espelho no elevador, lembrei-me que o pontinho que tenho no meio do peito e que parece um ponto negro, é cheio de história. No mero pontinho está tatuada a parte mais dolorosa dos tratamentos ao linfoma. Mais do que a quimioterapia que me levou muitos cabelos embora, mas nunca me pôs completamente careca, a radioterapia escreveu-me uma história no meio peito que está aqui discreta e em tons azulados.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Da paixão

J.- O que eu gosto mais, de tudo, é de basquetebol!
Eu - Sim, eu sei.
J.- Bem, tudo menos tu, o pai e a avó...
Eu - Sim? Sinto-me muito lisonjeada.
J. - Podia morrer tudo, menos tu, o pai e a avó, e se eu só tivesse o basquetebol era feliz!

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Brad e Angelina ou Pitt e Jolie. Enfim, o que quiserem

DAQUI

Confesso que o título e a imagem são armadilhas para atrair o monte de voyeurs que segue a saga do divórcio dos dois actores americanos para este meu bloguezinho solitário. Sim, gosto de utilizar estas técnica manhosas para falar de assuntos sérios a pessoas que só se interessam por coscuvilhar a vida alheia. Sim, sou manhosa que me farto!

De escudo em punho para me proteger das pedras que me queiram atirar, digo-vos que o caso Brad e Angelina ou Pitt e Jolie, ou até "Bradjelina", como preferirem, não me interessa minimamente enquanto conto de fadas destruído. Sim, eles são lindos de morrer, e tal, e tal, e tal, mas se me deu para reflectir sobre este assunto não foi só para atrair os amigos voyeurs (pois... sou uma "intelectualoide" de categoria que raciocina até sobre temas mundanos e sem interesse nenhum, pintando-os de outras cores para falar de coscuvilhices sem descer ao nível dos coscuvilheiros), mas essencialmente para me focar na reacção das pessoas aos casos de divórcio, violência doméstica (sobre o par e sobre os filhos) e sobre o fim das relações amorosas em geral.
(Viram, como tornei este assunto sensaborão num assunto sério e interessante?!)

Ups, acabei de me desviar de uma pedrinha que me acertou em cheio no escudo romano que seguro firmemente!

Não sei se o que motivou o divórcio daqueles dois foi a violência sobre os filhos, ou sobre um dos dois; se foi a dependência do álcool; se foi um caso extra-conjugal; ou se foi o mau-feitio da Angelia ou do Brad. Na verdade, nem me interessa.

O que me interessa não é a parte dos pormenores sórdidos da relação. Se ele lhe deu um murro ou se ela lhe atirou com uma garrafa à cabeça; se ele se embebeda com uísque ou com cervejinhas geladas; ou se ele obriga os putos a fazer os T.P.C  à lei da porrada; ou até se ele ou ela dormiram com outros... São assuntos que não me dizem respeito. Não tenho nada a ver com isso. Eles lá saberão e só a eles diz respeito.

O que acho interessante nesta fantochada mediática é a reacção do público a este caso de divórcio, como também já tinha vindo a acontecer em versão nacional, o famoso caso Carrilho / Guimarães.

Acho incrível a forma como as mulheres atacam as mulheres que vivem estas situações conturbadas de divórcio. Ora, que a dita intenta divorciada era uma galdéria; ora que o coitado do moço, tão sério, viveu momentos penosos de infidelidade ou sofreu a rodos nas mãos das maluqueiras da bruxa; ora que o coitado só teve um deslize porque se sentia triste e abandonado e que a obrigação dela seria o perdão; e por aí fora... Desculpas mal enjorcadas para culpar as mulheres e perdoar os homens é o que não faltam!

É engraçado ver que os primeiros a julgar as mulheres que se querem divorciar e sair de um suposto "conto de fadas" são as próprias mulheres; que os homens são vistos normalmente como vítimas de uma situação que elas, e só elas, provocaram.

Não venho desculpar as mulheres com a postura feminista de que somos sempre vítimas de discriminação de género. Não somos sempre, somos às vezes.

Nos casos de divórcio tanto as mulheres quanto os homens são culpados. As relações fazem-se a dois e se elas acabam é porque não funcionam pelo menos para um dos lados. A velha máxima "quando um não quer, dois não fazem" parece-me que faz todo o sentido aqui.

Claro que se há qualquer forma de violência (e incluo a psicológica geralmente tão desprezada), ou seja, de crime, deve ser julgada nas instâncias devidas, em tribunal e por juízes capazes de não misturarem os seus preconceitos e convicções pessoais com a análise transparente dos factos e no julgamento dos agressores / criminosos.

Também tem piada verificar que as mulheres bonitas, como a Angelina e a Bárbara, são normalmente mais atacadas pelas outras mulheres nestes casos relações desfeitas...
Mais uma vez a imagem e a invejazinha recalcada falam mais alto do que a razão e vêem-se, e ouvem-se, mulheres a dizer coisas tão cretinas como "com aquele ar, já era de esperar", "ela sempre andou à caça de outros", ou até as simples, mas não menos cretinas "nunca fui com a cara dela, ele deve ter passado muito com uma mulher daquelas".

Ups, mais uma pedra, desta vez um calhau, que quase me roça a orelha!

Não sou ingénua para não saber que há mulheres que utilizam os crimes de agressão para vencer os casos em tribunal, para conseguir a guarda dos filhos ou até para simplesmente atingirem o ex-parceiro. Há que as há e não são poucas. Mas se usam estes meios é porque podem, e podem porque ainda há muita cabecinha deformada e ainda não chegámos ao estádio em que homens e mulheres são vistos como iguais, em que qualquer um pode mentir, agredir e ser um sacana de merda.

Sim, ainda não somos iguais aos olhos da maior parte das pessoas. Infelizmente!

Mas se as mulheres atacam as mulheres, os homens também atacam as mulheres... E atacam como se fosse obrigação feminina sustentar as relações, equilibrá-las para perdurarem, segurar as pontas, enrolá-las e atar de novo para que não se soltem os laços sagrados do matrimónio. Tretas! Nem o matrimónio é sagrado, nem esta é uma função exclusiva de qualquer uma das partes. "Quando um não quer, dois não fazem!", lembram-se?

Desviei-me!!! Ainda não me acertaram! Eh eh eh! Vai mais uma pedrinha?

Os homens também usam os mesmos argumentos das mulheres para se desculparem, mas muitas vezes vêm com a alegação da carne fraca. Irónico este argumento quando se têm em conta como o sexo forte... Como é isso afinal, hã? Carne fraca, mas sexo forte? Não será uma a antítese do outro?

Enfim, desculpas que se vêem como factos e que se espalham como verdades.

Se a carne das mulheres fraqueja são umas indignas, se a carne dos homens fraqueja, é assim mesmo, coitadinhos que não conseguem conter os impulsos sexuais. É triste ver-me a escrever isto em pleno século XXI, mas infelizmente não lhe posso fugir, esta ideia ainda se encontra entranhada em muita gente. E aparece, se não conscientemente, muitas vezes escondida atrás de outras ideias tidas como "p'rá frentex" e "anti-discriminação".

Já para não falar no impulso agressivo dos homens que segue a mesma linha do impulso sexual...

No entanto, não só os homens são desculpados dos seus actos impulsivos, as mulheres também são desculpadas das artimanhas para ficarem com a guarda total dos filhos, como se a maternidade fosse mais importante do que a paternidade e como se actos tresloucados se desculpassem facilmente se camuflados no "imenso amor de mãe".
Tretas! Se formos sacanas por causas "belas e grandiosas", somos menos sacanas? Não, não somos, não se iludam as mãezinhas! Somos igualmente sacanas e, pior, quando somos sacanas para os pais dos nossos filhos, estamos a ser sobretudo sacanas para os nossos filhos.
Onde põem agora o "imenso amor de mãe" que tudo justifica?

Eh pá, esse calhau não, que me mataria aqui num instante!!!

Voltando ao Brad e à Angelina (que os voyeurs já estão a ficar aborrecidos), sim, sei dos mexericos que por aí circulam, mas o meu voyeurismo não aponta na direcção deles, mas sim na vossa, amigos!

Hello, I'm watching you! Eh eh eh!




Pronto, já tenho dois galos na cabeça! Contentes?



segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Múltiplos

Perdemo-nos a cada segundo que gastamos imersos em múltiplos.

Já raramente paramos para ler, ouvir, ver, sentir ou falar. Fazemos tudo ao mesmo tempo numa pressa que algo se esgote.
Querem-nos capazes de dominar vários idiomas, ferramentas, técnicas. Querem que sejamos dinâmicos e que tenhamos mil e uma competências; que estejamos aptos para tudo.
Se não temos determinada competência ou se não estamos aptos para certa função, que desenvolvamos as competências em segundos e que aprendamos rápido tudo o que ainda não sabemos.
Querem-nos imensos num. Queremo-nos imensos num. E corremos a colmatar cada falha, cada vazio, cada incapacidade.

Para quê? De que vale sermos vários se não conseguimos ser um? Se gastamos tempo a ser vários, em vez de nos demorarmos num?

Perdemos histórias, música, cor, toque e palavras. Perdemos vida a cada momento, a cada instante que nos ausentamos de nós mesmos. E ausentamo-nos tantas vezes.
Saímos de nós para buscar outros que não fomos, que não somos, que nunca seremos.

E levamos os filhos atrás.
Queremo-los muitos num só. Que controlem tudo. Que sejam perfeitos em cada tarefa, em cada esfera em que se movam...

Estamos a perder o "eu" para alimentar o "eu".

Quantos "eus" conseguiremos ainda alimentar? Quantos "eus" teremos ainda que sustentar para ver crescer o "eu" que se perdeu entre muitos?

Quantos?